{"id":148376,"date":"2017-08-09T18:05:32","date_gmt":"2017-08-09T21:05:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=148376"},"modified":"2017-08-09T18:07:41","modified_gmt":"2017-08-09T21:07:41","slug":"pessoas-curiosas-acumulam-bagagens-cheias-de-boas-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pessoas-curiosas-acumulam-bagagens-cheias-de-boas-historias\/","title":{"rendered":"Pessoas curiosas acumulam bagagens cheias de hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p><strong>Renato Essenfelder<\/strong><\/p>\n<p>Algu\u00e9m certa vez disse, eu acho que foi Hemingway, que os escritores, para serem interessantes, precisam levar vidas interessantes. Ou, trocando em mi\u00fados: para poder contar uma boa hist\u00f3ria, voc\u00ea precisa ter vivenciado boas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma segunda \u201cm\u00e1xima liter\u00e1ria\u201d complementar. Ela recomenda: escreva sobre aquilo que voc\u00ea conhece. Provavelmente \u00e9 por isso que a maioria dos romances brasileiros tem como protagonista um professor homem branco de meia idade. A maioria dos escritores brasileiros, ao menos dos que frequentam o notici\u00e1rio, se encaixa justamente nessa categoria. Logo, escrevem sobre o que conhecem.<\/p>\n<p>Talvez seja pelo casamento dessas duas perspectivas que eu ache meio tediosa boa parte da literatura contempor\u00e2nea que cato, l\u00e1 e c\u00e1, em sites, orelhas de livros e revistas do circuito cult. Pessoas com vidas desinteressantes escrevendo sobre elas mesmas, em toda a sua desinteress\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa tese tem seus furos, e n\u00e3o vamos demorar a encontrar exemplos de burocratas com imensa verve. Gente que passa a metade do dia no escrit\u00f3rio e a outra metade em Pas\u00e1rgada. Gente com uma vida interior riqu\u00edssima, capaz de criar, nos labirintos da mente, mundos fant\u00e1sticos. S\u00e3o exce\u00e7\u00f5es, contudo. Em geral, gente aborrecida escreve sobre seus aborrecimentos de forma aborrecida.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou me excluindo dessa turma nem me eximindo das minhas culpas. Volta e meia o fantasma da desinteress\u00e2ncia me assombra. Ser\u00e1 que \u00e9 suficiente, a maneira como estou levando a minha vida, para causar um m\u00ednimo de como\u00e7\u00e3o, para me sentir realmente vivo? Frequentemente, a resposta \u00e9 n\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 preciso um ajuste de percurso.<\/p>\n<p>Movido por essa ideia \u00e9 que troquei Curitiba por S\u00e3o Paulo, nos idos dos anos 2000. Como escritor aspirante, achava que a maior cidade do pa\u00eds me oferecia mais oportunidades de vida intensa e fascinante do que a g\u00e9lida capital paranaense. Estava meio certo.<\/p>\n<p>Meio errado tamb\u00e9m, pois, depois de uma d\u00e9cada em S\u00e3o Paulo, descobri que a cidade grande tem seus paradoxos. Certamente oferece mais oportunidades de interesse, tem mais gentes, mais lugares, mais tudo. No entanto, o custo de vida, as dist\u00e2ncias, as gan\u00e2ncias materiais conspiram para um adiamento permanente do gozo do novo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe que a emo\u00e7\u00e3o existe, est\u00e1 ao alcance de p\u00e9s e m\u00e3os, mas em geral apenas olha, suspiroso, para o horizonte de possibilidades. S\u00e3o muitas horas no tr\u00e2nsito, muito trabalho que se acumula, muitos colegas a quem \u00e9 preciso dar uma aten\u00e7\u00e3o protocolar. Logo, percebe-se enredado na rotina: trabalho, casa, trabalho, shopping para espairecer. Rebobine. Trabalho, casa, cinema, desta vez um restaurante. Reuni\u00f5es. Rebobine.<\/p>\n<p>Talvez na cidade pequena, muito ao contr\u00e1rio do que me parecia, as possibilidades de aventura, digo, as possibilidades concretiz\u00e1veis e concretizadas, sejam afinal maiores. Pegar a estrada no meio da madrugada, roubar goiaba do vizinho, plantar a pr\u00f3pria comida, criar animais, de vez em quando viajar para a capital e aproveitar intensamente tudo aquilo que os locais s\u00f3 conhecem pelos guias de jornal. Viver mais por conta pr\u00f3pria e menos por conta de um rel\u00f3gio, uma cifra, uma etiqueta que vem de fora.<\/p>\n<p>As pessoas interessantes est\u00e3o raras. Diante das telas, com c\u00e3ibras nos dedos e com os olhos secos, riem sozinhas por horas e horas e horas. Observo, um tanto entediado. Mas qual foi a \u00faltima vez em que eu fiz algo interessante?<\/p>\n<p>E qual foi a \u00faltima vez em que voc\u00ea fez algo pela primeira vez?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Essenfelder Algu\u00e9m certa vez disse, eu acho que foi Hemingway, que os escritores, para serem interessantes, precisam levar vidas interessantes. 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