{"id":149143,"date":"2017-08-15T16:44:19","date_gmt":"2017-08-15T19:44:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=149143"},"modified":"2017-08-15T16:46:24","modified_gmt":"2017-08-15T19:46:24","slug":"vozes-refugiadas-sobre-criancas-e-historias-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vozes-refugiadas-sobre-criancas-e-historias-de-guerra\/","title":{"rendered":"Vozes refugiadas. Sobre crian\u00e7as e hist\u00f3rias de guerra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Fernanda Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Adam tem dois anos e meio e n\u00e3o sabe de nada ainda. N\u00e3o sabe da guerra que est\u00e1 destruindo a S\u00edria. N\u00e3o sabe o que seus pais passaram para sair de l\u00e1 nem dos 41 familiares que sua m\u00e3e perdeu desde 2011, quando o horror come\u00e7ou. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que seus tios encontraram abrigo na Alemanha e sua av\u00f3, na Maced\u00f4nia &#8211; e que seu av\u00f4 ainda est\u00e1 em Aleppo, de onde sairia depois de garantir que todos deixassem o pa\u00eds em seguran\u00e7a, mas que s\u00f3 encontrou fronteiras fechadas. N\u00e3o sabe das marcas que as surras do primeiro marido deixaram em sua m\u00e3e nem que seus meios-irm\u00e3os, sequestrados pelo pai deles, espi\u00e3o de Bashar al-Assad, pensam que s\u00e3o \u00f3rf\u00e3os.<\/p>\n<p>Adam \u00e9 brasileiro. Sua m\u00e3e, Razan Suliman, de 27, chegou gr\u00e1vida de 40 dias sem nem desconfiar. Ela e Mohammed s\u00f3 falam em \u00e1rabe com o filho, mas ele s\u00f3 quer saber de falar portugu\u00eas. J\u00e1 frequenta a escolinha, o que ainda n\u00e3o \u00e9 um assunto tranquilo em casa. &#8220;Ou ele bate ou ele apanha. Todos os dias. N\u00e3o gosto disso&#8221;, conta Razan. A adapta\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 f\u00e1cil para nenhuma crian\u00e7a. Para o garoto, que vive entre duas culturas, com tantas hist\u00f3rias, traumas, sombras e sil\u00eancios, tudo pode ser, ou pode vir a ser, ainda mais confuso.<\/p>\n<p>Como Adam, h\u00e1 outras crian\u00e7as mundo afora: a primeira gera\u00e7\u00e3o de filhos de refugiados nascida longe da guerra. H\u00e1 tamb\u00e9m as crian\u00e7as que, submetidas a situa\u00e7\u00f5es de risco, hoje tentam reconstruir a vida em seus novos pa\u00edses. E h\u00e1 as outras crian\u00e7as que, vivendo em lugares pac\u00edficos, assistem \u00e0 guerra pela televis\u00e3o, veem imagens dos bombardeios, das cidades em destro\u00e7os e do corpo do pequeno Alan Kurdi estendido na praia &#8211; e, ao chegar na escola, encontram meninos como Adam, ou como os irm\u00e3os dele, que hoje, com 8 e 6 anos, vivem na Alemanha.<\/p>\n<p>Sensibilizados pelo drama de vida de milh\u00f5es de pessoas que se veem obrigadas, por seguran\u00e7a, religi\u00e3o ou fome, a deixar tudo para tr\u00e1s, vagar por estradas, atravessar continentes, implorar por abrigo &#8211; e depois por casa, comida, emprego -, escritores est\u00e3o ajudando a contar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O pernambucano Tadeu Sarmento acaba de ganhar o Pr\u00eamio Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil com o original de O Cometa \u00e9 um Sol Que N\u00e3o Deu Certo, que, situado em campo de refugiados s\u00edrios na fronteira com a Jord\u00e2nia, fala sobre a amizade entre quatro garotos.<\/p>\n<p>Sarmento acompanhava as not\u00edcias vindas da S\u00edria, mas foi ap\u00f3s ver Alan Kurdi que sentiu a necessidade de escrever. Para o autor, a principal pergunta de sua obra \u00e9: &#8220;o que aconteceu conosco para que permit\u00edssemos que crian\u00e7as tenham que lidar com uma realidade que, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 bem dif\u00edcil de lidar, at\u00e9 mesmo por quem \u00e9 adulto?&#8221;. Ele completa: &#8220;Acho a viol\u00eancia contra a crian\u00e7a a pior de todas as mis\u00e9rias humanas&#8221;.<\/p>\n<p>O Cometa&#8230; sair\u00e1 em outubro, mas h\u00e1 outras boas op\u00e7\u00f5es nas livrarias e o cat\u00e1logo da Pulo do Gato, com obras que falam de direitos humanos, da crian\u00e7a em situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, da guerra e do ref\u00fagio vista pelo foco da inf\u00e2ncia, se destaca.<\/p>\n<p>&#8220;As crian\u00e7as precisam de livros que permitam interlocu\u00e7\u00f5es sobre temas que as \u2018rondam\u2019 direta ou indiretamente e sobre os quais t\u00eam curiosidade ou necessidade de di\u00e1logo&#8221;, conta M\u00e1rcia Leite, fundadora da Pulo do Gato. &#8220;Sabemos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apagar o que foi vivido nem na vida dos adultos nem na das crian\u00e7as. Mas, algumas vezes, as p\u00e1ginas dolorosas da vida podem receber algum conforto de forma indireta pela literatura.&#8221; Para a editora, a literatura para crian\u00e7as favorece a constru\u00e7\u00e3o dos processos de autoconhecimento e da empatia.<\/p>\n<p>Alguns de seus livros tratam diretamente de quest\u00f5es vividas por Razan e Mohammed, como \u00e9 o caso de Um Outro Pa\u00eds Para Azzi, da brit\u00e2nica Sarah Garland, que teve contato com fam\u00edlias de refugiados. Ou Elo\u00edsa e os Bichos, de Jairo Buitrago e Rafael Yokteng, sobre a adapta\u00e7\u00e3o de uma menina e seu pai numa nova cidade. Outros s\u00e3o mais metaf\u00f3ricos, como o delicado A Viagem dos Elefantes, do colombiano Dipacho.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m conviveu com refugiados, na It\u00e1lia e na Su\u00ed\u00e7a, e criou uma fic\u00e7\u00e3o baseada em seus relatos foi a ilustradora italiana Francesca Sanna. Ao Estado, ela conta que quis adotar uma abordagem emp\u00e1tica para uma hist\u00f3ria que parece distante de nossa vida, mas n\u00e3o \u00e9. Quis, tamb\u00e9m, falar sobre direitos humanos e sobre o direito de se ter um lugar seguro para viver.<\/p>\n<p>Seu premiado A Viagem (V&amp;R) narra a saga de uma m\u00e3e e seus filhos para fugir da guerra que matou o pai das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Sanna costuma participar de leituras em escolas e bibliotecas. &#8220;Minha hora preferida \u00e9 a das perguntas. Algumas s\u00e3o sobre os personagens escondidos (Isso \u00e9 uma raposa? Por que tem uma raposa?), outras, sobre assuntos mais existenciais (Por que existem fronteiras?). Algumas s\u00e3o muito pol\u00edticas e um pouco confusas (Seu livro \u00e9 sobre Donald Trump?). Se eu pudesse decidir como esse livro seria lido, provavelmente seria assim, com muitas perguntas e tamb\u00e9m com uma pergunta sobre por que \u00e9 importante discutir assuntos como esses&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A historiadora brasileira M\u00e1rcia Camargos e a escritora e ilustradora Carla Caruso lan\u00e7aram, em 2015, Di\u00e1logos de Samira (Moderna), possivelmente o primeiro focado no p\u00fablico juvenil a ser publicado aqui, e que j\u00e1 foi adotado por escolas.<\/p>\n<p>&#8220;Pretend\u00edamos mostrar n\u00e3o s\u00f3 os horrores do conflito, mas tamb\u00e9m chamar a aten\u00e7\u00e3o para o lado humano do drama, por meio dos personagens, um menino s\u00edrio e uma garota brasileira, ambos com a mesma idade dos leitores. Isso ajuda a criar uma empatia e uma identifica\u00e7\u00e3o com este p\u00fablico adolescente que, esperamos, seja despertado para a solidariedade aos mais fragilizados e vulner\u00e1veis em certos momentos hist\u00f3ricos. Acima de tudo, desejamos que eles possam exercitar a toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao &#8216;outro&#8217;, no sentido de diminuir o preconceito contra o universo isl\u00e2mico e o mundo \u00e1rabe em geral&#8221;, explica Camargos.<\/p>\n<p>Hoje Adam folheia os livros e se diverte com os detalhes. Sem recursos para entender a realidade que o cerca, ele se encanta com os p\u00e1ssaros, com as cores. &#8220;Mas essa crian\u00e7a logo precisar\u00e1 falar a respeito, pois com certeza j\u00e1 convive, ainda que n\u00e3o conscientemente, com o tema, por meio do que capta e sente ao seu redor, aquele territ\u00f3rio do \u2018n\u00e3o dito\u2019, mas sentido, que vem da hist\u00f3ria de seus pais e familiares. Haver\u00e1 um dia em que a literatura, a fic\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 ajudar essa crian\u00e7a a entender melhor o que ainda n\u00e3o sabia nomear. Ajudar\u00e1 a que ela se aproxime mais do que sente, a saber que n\u00e3o est\u00e1 sozinha&#8221;, comenta M\u00e1rcia Leite.<\/p>\n<p>Razan tem esperan\u00e7a de que com livros como esses os brasileiros, incluindo os professores e amiguinhos de seus filhos, compreendam melhor sua realidade. Aos trancos e barrancos, vendendo comida para viver, dependendo de uma ajuda da Mesquita do Brasil que est\u00e1 para acabar, a fam\u00edlia est\u00e1 feliz. &#8220;Aqui n\u00e3o tem guerra. A cultura \u00e9 diferente, mas Adam est\u00e1 em paz, num lugar seguro. Come e dorme bem.&#8221; O sonho, agora, \u00e9 que o marido consiga um emprego e que o neg\u00f3cio da comida prospere para que possam ter uma casa no Brasil que abrigue n\u00e3o apenas o trio, mas o pai de Razan, que ainda corre risco de vida, e os filhos que ela espera reencontrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Rodrigues Adam tem dois anos e meio e n\u00e3o sabe de nada ainda. 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