{"id":150464,"date":"2017-08-24T10:24:27","date_gmt":"2017-08-24T13:24:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=150464"},"modified":"2017-08-24T16:48:22","modified_gmt":"2017-08-24T19:48:22","slug":"mulher-vira-nova-arma-de-ataque-do-exercito-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulher-vira-nova-arma-de-ataque-do-exercito-brasileiro\/","title":{"rendered":"Mulher vira nova arma de ataque do Ex\u00e9rcito brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vitor Hugo Brandalise<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Fogo \u00e0 vontade!&#8221;, diz um tenente do Ex\u00e9rcito, erguendo o bra\u00e7o esquerdo, e o que se ouve depois \u00e9 ensurdecedor. Em menos de um minuto, 88 tiros de fuzil, rajada que encobre a voz do tenente, o ru\u00eddo dos quero-queros ali perto, os carros da rodovia ao longe. O vento traz um pouco de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, que faz arder olhos e nariz, e a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 respirar normalmente.<\/p>\n<p>Nada anormal no treino de tiro do Ex\u00e9rcito, nesta ter\u00e7a-feira, 22, na escola preparat\u00f3ria de Campinas (SP). H\u00e1, por\u00e9m, na fileira de jovens alunos de 17 a 22 anos, de barriga no ch\u00e3o, dedo no gatilho e rostos camuflados, um detalhe impens\u00e1vel pouco tempo atr\u00e1s: um conjunto de tran\u00e7as bem firmes, de cabelos claros e escuros, que despontam dos capacetes bal\u00edsticos e se movem com o forte recuo dos disparos.<\/p>\n<p>Aqui, deitadas no ch\u00e3o, empunhando fuzis autom\u00e1ticos leves (FAL), est\u00e3o as primeiras mulheres brasileiras a serem treinadas para combate pelo Ex\u00e9rcito do Brasil &#8211; uma institui\u00e7\u00e3o fundada em 1648 que, agora, parece querer tirar o atraso. Desde fevereiro, 37 alunas frequentam a escola campineira, porta de entrada para a forma\u00e7\u00e3o de oficiais combatentes, inaugurando a presen\u00e7a feminina na linha b\u00e9lica da for\u00e7a. Aeron\u00e1utica e Marinha j\u00e1 formam mulheres oficiais, respectivamente, desde 1996 e 2014.<\/p>\n<p>No Ex\u00e9rcito, elas compunham apenas quadros auxiliares, em fun\u00e7\u00f5es administrativas ou de sa\u00fade &#8211; houve um aumento de 82% no n\u00famero delas na For\u00e7a em dez anos (4.447 em 2006, ante 8.110 no ano passado), mas eram s\u00f3 nos quadros complementares. A partir de agora, elas finalmente podem treinar para o combate, prosseguir para a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e ter condi\u00e7\u00f5es de ascender &#8211; levar\u00e1 d\u00e9cadas, mas agora podem &#8211; ao posto de general.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 semana da instru\u00e7\u00e3o de tiro em Campinas, quando todos os 420 alunos se dedicam a esburacar a fileira de 20 alvos a at\u00e9 100 metros. Atirando apoiada no joelho direito est\u00e1 Sarah Cassani Leite, de 18 anos, uma das alunas que, at\u00e9 o ano passado, s\u00f3 estudava para o vestibular e nunca havia pensado em seguir carreira militar. Foi aprovada na USP (Engenharia Bioqu\u00edmica), Unicamp e Unesp (Engenharia Qu\u00edmica), mas &#8211; para surpresa dos pais, n\u00e3o militares &#8211; escolheu cursar a Escola Preparat\u00f3ria de Cadetes do Ex\u00e9rcito (EsPCEx). &#8220;Optei por ela porque seria uma honra fazer parte do momento em que o Ex\u00e9rcito acreditou no potencial da mulher&#8221;, diz a jovem em um intervalo no treinamento.<\/p>\n<p>Eram 11h, Sarah havia passado a noite em claro, em servi\u00e7o de guarda, e desde o nascer do sol participava de exerc\u00edcios como pistas de obst\u00e1culos de 400 metros, al\u00e9m das s\u00e9ries de tiros. &#8220;Representamos a for\u00e7a que toda mulher tem, um Brasil mais inteligente e inclusivo, e n\u00e3o vamos decepcionar.&#8221;<\/p>\n<p>A escola se preparou para receber as alunas ao longo do ano passado &#8211; o que incluiu o que foi chamado, dentro do Ex\u00e9rcito, de &#8220;situa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias&#8221;. Era tudo aquilo com o qual os militares nunca haviam lidado: namoro entre alunos (pode, desde que o comandante seja informado e que n\u00e3o demonstrem a rela\u00e7\u00e3o afetiva dentro da escola), gravidez (pede-se uma licen\u00e7a), menstrua\u00e7\u00e3o (o m\u00e9dico avalia casos em que a aluna n\u00e3o se sinta apta a treinos f\u00edsicos). &#8220;Foram as discuss\u00f5es mais demoradas, pois nada disso era previsto em regulamento&#8221;, explica o coronel Marcus Alexandre Fernandes de Ara\u00fajo, comandante da EsPCEx.<\/p>\n<p>Para auxiliar no preparo, foram convocadas oito militares mulheres &#8211; tr\u00eas tenentes e cinco sargentos de outros lugares do Brasil. Elas percorreram as academias da Aeron\u00e1utica e da Marinha, que j\u00e1 t\u00eam essa experi\u00eancia. &#8220;Uma das quest\u00f5es a esclarecer foi o \u00edndice a ser alcan\u00e7ado para instru\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, que n\u00e3o pode ser igual para homens e mulheres, por causa das diferen\u00e7as de biotipo entre os sexos&#8221;, diz a tenente Vanessa Jorge, uma das instrutoras que vieram a Campinas. &#8220;A medida \u00e9 o esfor\u00e7o. H\u00e1 estudos que quantificam quanto se exige para uma tarefa, e com base neles definimos o que \u00e9 o equivalente para cada sexo. O esfor\u00e7o para um homem fazer 20 flex\u00f5es, por exemplo, pode ser o equivalente ao que uma mulher gasta para 10 &#8221;<\/p>\n<p><b>Dia a dia &#8211;\u00a0<\/b>Alunas e alunos formam turmas mistas na escola, para aulas te\u00f3ricas e treinamentos militares. H\u00e1 separa\u00e7\u00e3o apenas no alojamento &#8211; foi criada uma ala feminina. Na escola, a palavra para definir a chegada delas \u00e9 &#8220;isonomia&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos \u00e9 de um oficial combatente, que atenda \u00e0s demandas do combate, seja homem ou mulher&#8221;, afirma o coronel Ara\u00fajo. &#8220;Elas t\u00eam de fazer tudo o que eles fazem. Na pr\u00f3xima fase, na Aman (para onde v\u00e3o os alunos aprovados na escola), haver\u00e1 um n\u00edvel alto, que n\u00e3o se pode mudar. O que importa \u00e9 o produto final: combatentes capazes de superar os \u00edndices consagrados pela For\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Os resultados v\u00eam sendo animadores: o ano ainda n\u00e3o terminou, mas at\u00e9 aqui a m\u00e9dia das estudantes mulheres \u00e9 superior \u00e0 dos homens. &#8220;Elas est\u00e3o alguns d\u00e9cimos \u00e0 frente&#8221;, diz o comandante &#8211; para quem as alunas &#8220;puxam a turma para cima&#8221;. &#8220;Na Marinha e na Aeron\u00e1utica aconteceu o mesmo: os alunos homens se sentem estimulados a estudar mais tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 ison\u00f4mica, por\u00e9m, a escolha de carreiras ap\u00f3s a chegada \u00e0 Aman. Depois de um primeiro ano com curr\u00edculos iguais, homens poder\u00e3o escolher entre Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Material B\u00e9lico (log\u00edstica) e Intend\u00eancia (ligada \u00e0 administra\u00e7\u00e3o). Mulheres, por\u00e9m, s\u00f3 poder\u00e3o optar entre as duas \u00faltimas. Treinar\u00e3o para o combate, mas ficar\u00e3o no apoio. Dentro do Ex\u00e9rcito, esse in\u00edcio \u00e9 visto como fase de experi\u00eancia e, ap\u00f3s an\u00e1lise dos primeiros anos, pode mudar.<\/p>\n<p>&#8220;Depender\u00e1 dos resultados na Academia&#8221;, diz o coronel Ara\u00fajo. &#8220;Seis pa\u00edses latino-americanos permitem que as mulheres escolham qualquer arma. Ent\u00e3o o Brasil ainda est\u00e1 atrasado, na compara\u00e7\u00e3o. De todo modo, \u00e9 preciso destacar o m\u00e9rito dessa abertura. \u00c9 um avan\u00e7o&#8221;, diz a pesquisadora Renata Giannini, do Instituto Igarap\u00e9, que estuda as mulheres nas For\u00e7as Armadas h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>No estande de tiro, um descampado cercado de eucaliptos a 4 quil\u00f4metros da EsPCEx, a aluna Sarah deixa a arma de lado para anotar os acertos no alvo. Ainda longe de terminar a jornada que duraria 16 horas, ela fez uma reflex\u00e3o que extrapola os limites desta escola, sobre o caminho \u00e0 frente. &#8220;A principal mudan\u00e7a que senti foi fora daqui, na forma como me vejo na sociedade. N\u00e3o fico arrogante ou superior, pelas t\u00e9cnicas aprendidas, por esses tiros todos. Mas, sim, me sinto mais igual, como mulher&#8221;, disse, e voltou a empunhar o fuzil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vitor Hugo Brandalise &#8220;Fogo \u00e0 vontade!&#8221;, diz um tenente do Ex\u00e9rcito, erguendo o bra\u00e7o esquerdo, e o que se ouve depois \u00e9 ensurdecedor. Em menos de um minuto, 88 tiros de fuzil, rajada que encobre a voz do tenente, o ru\u00eddo dos quero-queros ali perto, os carros da rodovia ao longe. 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