{"id":151500,"date":"2017-08-31T18:41:03","date_gmt":"2017-08-31T21:41:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=151500"},"modified":"2017-09-01T10:16:52","modified_gmt":"2017-09-01T13:16:52","slug":"liberdade-e-escolher-o-lugar-que-voce-quiser-para-chamar-de-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/liberdade-e-escolher-o-lugar-que-voce-quiser-para-chamar-de-lar\/","title":{"rendered":"Liberdade \u00e9 escolher o lugar que voc\u00ea quiser para chamar de lar"},"content":{"rendered":"<p><strong>Gustavo Calazans<\/strong><\/p>\n<p>Acordei um dia desses pensando se s\u00f3 a casa da gente pode ser considerada nosso lar. Sigo enlevado pela busca incessante de entender o que possa de verdade caracterizar esse espa\u00e7o que, de t\u00e3o cheio de significados e possibilidades, seja t\u00e3o intang\u00edvel ao universo das palavras. Pode-se falar num misto de nutri\u00e7\u00e3o e troca; de recolhimento e receptividade. E tantos outros conceitos bastante amplos que tentem, minimamente, nos contar um pouco do que nos faz dizer que nos sentimos em casa num dado momento, num certo lugar. A express\u00e3o \u201csentir-se em casa\u201d, para mim, \u00e9 bem boa como fio condutor para destrinchar essa pergunta.<\/p>\n<p>Quando digo que me sinto em casa na casa de algu\u00e9m, talvez esteja dizendo que h\u00e1 algo naquele espa\u00e7o que me aconchega e me recebe de tal forma que, ali, reconhe\u00e7o as qualidades do que para mim seja um lar. Isso me conta tamb\u00e9m que provavelmente existam qualidades outras, para al\u00e9m daquelas que meu pr\u00f3prio lar apresenta, que me fazem igualmente acolhido. Um senso de enorme liberdade me invade ao pensar nessa possibilidade. Como se houvessem muitas outras estradas a serem trilhadas, n\u00e3o apenas aquela que escolhi. Mais do que isso, me leva a refletir que, por ser a exist\u00eancia um caminho em constante constru\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as de rota possam ser mais motivo de felicidade do que de amedrontamento.<\/p>\n<p>Tenho uma amiga querida, cuja casa eu visitava com bastante frequ\u00eancia, que por muitos anos era a pessoa que eu considerava a mais bem recebida por si mesma em seu pr\u00f3prio espa\u00e7o \u2013 naquele conceito de sermos nossos melhores anfitri\u00f5es tratado faz algumas semanas. Presenciar a cerim\u00f4nia dela ao acordar, preparando seu caf\u00e9 e come\u00e7ando suas atividades matinais, era uma experi\u00eancia \u00edmpar. Ao visit\u00e1-la pela manh\u00e3 em sua casa, provavelmente ela estaria com uma x\u00edcara colorida nas m\u00e3os, algumas torradas na torradeira antiga, outras j\u00e1 mastigadas sobre uma delicada lou\u00e7a florida, o computador j\u00e1 operante e milh\u00f5es de pap\u00e9is abertos sobre a mesa. E ainda encontraria os vest\u00edgios de um aperitivo da noite anterior, j\u00e1 que ela teria recebido um ou dois amigos para jantar. Mas n\u00e3o era uma cena de desleixo, muito pelo contr\u00e1rio. Tudo estava em vias de ser arrumado, filme pl\u00e1stico j\u00e1 passado nas vasilhas de castanhas, parte da lou\u00e7a suja j\u00e1 colocada na m\u00e1quina e o que restou esperando o pr\u00f3ximo embarque. Ali cada tarefa se encontrava num determinado ponto, mas todas estavam encadeadas num processo em condu\u00e7\u00e3o. Eu testemunhava, nessas visitas, uma casa viva na qual a vida da Andrea se entrela\u00e7ava numa linda comunh\u00e3o. Ela se mudou da cidade h\u00e1 alguns anos e nos vemos menos, mas quando ela volta, a hospedo em minha casa. Por hora e para a minha felicidade, as cerim\u00f4nias do caf\u00e9 acontecem na minha mesa de jantar \u2013 e uma deliciosa desordem se instaura por ali. Sendo ordeiro como sou, essa influ\u00eancia, quando superada a ang\u00fastia, \u00e9 libertadora. Descobri, a partir dessa experi\u00eancia, uma nova forma de ser e estar no meu canto.<\/p>\n<p>Assim como a casa da Andrea e a rela\u00e7\u00e3o dela com esse espa\u00e7o inspiraram transforma\u00e7\u00f5es no meu lar, propondo jeitos mais livres de conex\u00e3o, me ponho novamente curioso com um aprofundamento da minha pergunta original: poderiam espa\u00e7os coletivos serem (ou representarem) um lar? Por que se experimentar viver de forma diversa aos meus padr\u00f5es autom\u00e1ticos com algu\u00e9m que me \u00e9 caro tem esse poder, suponho que a viv\u00eancia disso em comunidade tenha um potencial multiplicador ainda maior.<\/p>\n<p>Infelizmente nossas cidades n\u00e3o s\u00e3o ricas em espa\u00e7os p\u00fablicos de qualidade. Poucos conseguem propor usos e experimenta\u00e7\u00f5es que sejam capazes de renovar comportamentos viciados, estigmatizados e normativos. Ainda bem que existem exce\u00e7\u00f5es. Tive o prazer de conhecer na semana passada o novo SESC 24 de Maio, no centro da cidade de S\u00e3o Paulo, e ali tive a certeza de que nosso lar n\u00e3o se restringe somente aos limites de nossas casas. Vi umas tantas fam\u00edlias aproveitando aquele espa\u00e7o para se espraiarem em divers\u00f5es aqu\u00e1ticas \u00e0 luz do p\u00f4r do sol enquanto outras tantas passeavam pelas pra\u00e7as suspensas propostas pelo lindo projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Quer fosse admirando a vista, tendo um momento de troca, ou simplesmente lendo um livro, todos estavam ali como se estivessem numa grande sala de estar. Todos juntos e misturados, comungando da sua diversidade em liberdade. E o que tantos poderiam chamar de caos da zona central de uma grande metr\u00f3pole desabrocha em puro deleite coletivo.<\/p>\n<p>A desordem da vida faz parte do que chamamos lar. Quer seja em nossa casa, na casa dos nossos amigos, ou nos espa\u00e7os que ocupamos na cidade, enxergar o processo da exist\u00eancia das pessoas refletido nos ambientes \u00e9 parte fundamental da compreens\u00e3o de como podemos ser agentes ativos das transforma\u00e7\u00f5es que queremos ver acontecer. Expandindo territ\u00f3rios e entendendo que nosso lar pode ser todo espa\u00e7o onde experimentamos a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Calazans Acordei um dia desses pensando se s\u00f3 a casa da gente pode ser considerada nosso lar. Sigo enlevado pela busca incessante de entender o que possa de verdade caracterizar esse espa\u00e7o que, de t\u00e3o cheio de significados e possibilidades, seja t\u00e3o intang\u00edvel ao universo das palavras. 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