{"id":152247,"date":"2017-09-06T17:01:35","date_gmt":"2017-09-06T20:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=152247"},"modified":"2017-09-09T09:52:23","modified_gmt":"2017-09-09T12:52:23","slug":"belas-artes-faz-viagem-no-acervo-de-caca-diegues-o-desencantado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/belas-artes-faz-viagem-no-acervo-de-caca-diegues-o-desencantado\/","title":{"rendered":"Belas Artes faz viagem no acervo de Cac\u00e1 Diegues, o desencantado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Carlos Merten<\/strong><\/p>\n<p>Aos 77 anos, Cac\u00e1 Diegues admite seu desencanto. Pior &#8211; des\u00e2nimo. &#8220;Tinha 13 anos quando Get\u00falio (Vargas) se suicidou e fiz meu batizado pol\u00edtico, indo para as ruas. Desde ent\u00e3o, tenho testemunhado muitas crises que assolaram o Brasil, mas nenhuma como essa. A gente sempre acreditava em alguma coisa, agora n\u00e3o tem por quem torcer. Para mim, \u00e9 a pior de todas as crises. E vamos ter elei\u00e7\u00e3o no ano que vem. Algo vai ter de acontecer para que a gente volte a ter confian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Cac\u00e1 faz essa revela\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o pense que o tal des\u00e2nimo o paralisa. Na segunda-feira, finalmente, ele terminou a mixagem do filme no qual vem trabalhando h\u00e1 anos &#8211; Grande Circo M\u00edstico. &#8220;Ainda dependo de um efeito especial que est\u00e1 sendo feito na Fran\u00e7a, que \u00e9 parceira da produ\u00e7\u00e3o. Vou receber na semana que vem e, se aprovar, o filme estar\u00e1 pronto. A\u00ed ser\u00e3o detalhes de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o, em outubro espero ter a c\u00f3pia pronta.&#8221; Mesmo assim, o lan\u00e7amento fica para o ano que vem. Mar\u00e7o, por a\u00ed. Festivais internacionais? &#8220;Vou tentar, sim.&#8221; Mas n\u00e3o ser\u00e1 preciso esperar tanto para (re)ver Cac\u00e1 no cinema. A partir desta quinta de feriad\u00e3o, 7, come\u00e7a no Belas Artes uma retrospectiva completa do diretor.<\/p>\n<p>Cac\u00e1 Diegues &#8211; Cineasta do Brasil. Uma homenagem a seus 55 anos de carreira. Todo Cac\u00e1, 29 t\u00edtulos, come\u00e7ando com Ganga Zumba, o primeiro longa, de 1964. No primeiro dia, tamb\u00e9m passa o curta Escola de Samba Alegria de Viver, seu epis\u00f3dio de Cinco Vezes Favela &#8211; a vers\u00e3o de 1962 -, seguido de debate do diretor com a curadora Silvia Oroz. No s\u00e1bado, 9, ela ministra a master class O Brasil atrav\u00e9s dos filmes de Cac\u00e1 Diegues. Depois, at\u00e9 a quarta, 20, e sempre em duas sess\u00f5es di\u00e1rias &#8211; \u00e0s 16h e 18h30 -, ser\u00e1 exibida a integralidade da obra, incluindo raridades como Un S\u00e9jour e Nenhum Motivo Explica a Guerra, esse, sobre afroreggae, excepcionalmente \u00e0s 23h30 do dia 16. Cada espectador ter\u00e1 seu filme preferido do cineasta. Para o rep\u00f3rter pode ser Chuvas de Ver\u00e3o, de 1978. O pr\u00f3prio Cac\u00e1 cultiva seus filmes consagrados pelo p\u00fablico, mas admite que guarda uma ternura especial por Joanna Francesa, de 1973, que nem fez tanto sucesso<\/p>\n<p>&#8220;Para mim \u00e9 importante porque foi um filme de mudan\u00e7a. Nunca li isso nas an\u00e1lises que j\u00e1 foram feitas sobre meu cinema, mas em Joana Francesa tenho plena consci\u00eancia de que mudei minha maneira de filmar.&#8221; Mudar, como, Cac\u00e1? &#8220;Perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica e ao mesmo tempo amorosa do Brasil. O que a gente queria era pensar esse pa\u00eds e colocar sua diversidade na tela. Quer\u00edamos refundar o Brasil com nossos filmes.&#8221; E Cac\u00e1 diz &#8211; &#8220;Mesmo quando me voltei para o passado, n\u00e3o foi com nostalgia. Nunca fui fiel ao passado e tamb\u00e9m n\u00e3o tenho muito interesse em antecipar como poder\u00e1 ser nosso futuro. O que sempre me interessou foi filmar o presente, e por isso admito que meu cinema mudou, como mudaram o Brasil e o mundo. O cinema, hoje, n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo de quando comecei. Tento ser coerente, mas meu cinema mudou na forma para poder refletir o que se passa na realidade.&#8221;<\/p>\n<p>Parte da obra de Cac\u00e1 &#8211; excertos, pelo menos &#8211; foi vista no document\u00e1rio Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga. Num determinado momento de sua vida, e carreira, o diretor fez do corpo em movimento do ator uma esp\u00e9cie de emblema. A negritude sempre se fez presente na obra de Cac\u00e1. O jovem Antonio Pitanga, belo como um deus, come com os olhos a mulher, vista daquela porta, em Ganga Zumba. Corre pela rua em A Grande Cidade. \u00c9 o arauto do rei, de um novo tempo em Quando o Carnaval Chegar. Justamente o longa de 1972, com Nara Le\u00e3o, ent\u00e3o mulher do diretor, Maria Beth\u00e2nia e Chico Buarque. &#8220;Alguns filmes foram restaurados e est\u00e3o perfeitos. Ganga Zumba, A Grande Cidade, Xica da Silva, etc. Mas Quando o Carnaval Chegar est\u00e1 se acabando. Precisa de um restauro imediato.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a c\u00f3pia na retrospectiva \u00e9 decente? &#8220;Decente, n\u00e3o diria, mas n\u00e3o d\u00e1 vexame.&#8221; Ainda no quesito negritude, al\u00e9m dos filmes citados, vieram Xica da Silva e Orfeu, todos com trilhas magn\u00edficas. Cac\u00e1 conhece muito a MPB. De onde vem isso? &#8220;Acho que, no fundo, sou um m\u00fasico frustrado. At\u00e9 tentei, mas n\u00e3o toco nada. Mas amo a m\u00fasica, e brasileira. N\u00e3o vivo sem m\u00fasica, n\u00e3o consigo trabalhar. Ent\u00e3o tenho de ter nos filmes.&#8221; Cac\u00e1 comenta abaixo alguns de seus filmes. Joanna Francesa &#8211; entristeceu-o a morte recente de Jeanne Moreau. &#8220;Orson Welles tinha raz\u00e3o. Era a maior atriz do mundo.&#8221; O rep\u00f3rter comenta a cena emblem\u00e1tica de Xica da Silva. &#8220;Zez\u00e9 Motta correndo para a c\u00e2mera com a carta de alforria na m\u00e3o, ao som do tema de Jorge Benjor, e a porta da igreja que se fecha para ela.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 o meu compromisso com o momento. Reflete o que a gente estava sentindo. Minha gera\u00e7\u00e3o foi muito oprimida pela ditadura, mas chegou um momento em que a gente, mesmo sabendo que a ditadura n\u00e3o ia acabar logo, percebia o afrouxamento. E reaprendeu a rir &#8221; Cada filme pertence a um momento, tem sua hist\u00f3ria. &#8220;Os Herdeiros filtra o Brasil pela \u00f3tica da R\u00e1dio Nacional. Bye Bye Brasil \u00e9 sobre o advento da TV; um pa\u00eds arcaico se despede e outro, mais moderno, pede passagem.&#8221; A Grande Cidade \u00e9 seu filme mais integrado ao Cinema Novo. &#8220;Est\u00e1 tudo ali. Luzia\/Anecy Rocha vive o choque cultural do sert\u00e3o que \u00e9 devorado pela metr\u00f3pole.&#8221; E Orfeu &#8211; &#8220;Fiquei puto quando Marcel Ophuls filmou Orfeu do Carnaval. Sempre sonhei com esse filme, em libertar Vinicius (de Morais) do olhar estrangeiro.&#8221; Haver\u00e1 muito que ver nessas duas semanas. &#8220;O Cinema Novo trouxe o modernismo para o cinema, com seu interesse pela realidade e pela linguagem.&#8221; Modernismo, modernidade, transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que a obra de Cac\u00e1 Diegues celebra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Merten Aos 77 anos, Cac\u00e1 Diegues admite seu desencanto. 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