{"id":153063,"date":"2017-09-14T18:03:27","date_gmt":"2017-09-14T21:03:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=153063"},"modified":"2017-09-14T18:03:27","modified_gmt":"2017-09-14T21:03:27","slug":"casas-sao-lugares-de-passagem-que-habitamos-com-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/casas-sao-lugares-de-passagem-que-habitamos-com-afeto\/","title":{"rendered":"Casas s\u00e3o lugares de passagem que habitamos com afeto"},"content":{"rendered":"<p><strong>Gustavo Calazans<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos que essa frase ressoa dentro de mim como um mantra. A casa onde vivo n\u00e3o \u00e9 minha. H\u00e1 uma escritura documental que diz l\u00e1 que ela \u00e9 de minha propriedade, mas de verdade, ela n\u00e3o \u00e9 minha. A sociedade a reconhece como meu territ\u00f3rio, mas l\u00e1 no fundo tenho no\u00e7\u00e3o de que ela n\u00e3o me pertence. N\u00e3o sei dizer quanto tempo mais tenho nessa vida, mas sei dizer com quase total certeza que a constru\u00e7\u00e3o onde habito ficar\u00e1 muito mais tempo fincada nessa terra do que eu. Essa que j\u00e1 foi de tantos outros e ainda ser\u00e1 de muitos mais. Como poderia eu reclamar para mim a posse de algo que tem vida pr\u00f3pria e cuja vida j\u00e1 esteve, e ainda estar\u00e1, atrelada a in\u00fameras outras vidas?<\/p>\n<p>Onde hoje fica um pr\u00e9dio, j\u00e1 houve uma casa. E onde essa casa se estabeleceu, talvez estivesse antes uma pequena ch\u00e1cara. E ainda antes dessa pequena ch\u00e1cara, um s\u00edtio maior, uma fazenda, uma capitania heredit\u00e1ria, uma tribo ind\u00edgena, uma mata cheia de animais\u2026 S\u00e3o tantas as camadas da exist\u00eancia sobrepostas no que hoje chamamos de cidade \u2013 esse aglomerado de constru\u00e7\u00f5es que a l\u00f3gica capitalista fez virar uma terra de propriet\u00e1rios \u2013 que acreditar que a camada atual na qual eu vivo me d\u00e1 direito de posse sobre as coisas seria muita ingenuidade. Melhor seria dizer que a casa me habita. Eu e minha vida somos muito pouco diante da trajet\u00f3ria do planeta e do universo.<\/p>\n<p>Sei que esse conceito pode soar uma besteira para os mais materialistas, um papo espiritualista quase budista calcado na imperman\u00eancia da experi\u00eancia encarnada. E sim, \u00e9 um pouco disso tamb\u00e9m. Mas essa perspectiva pode ser muito transformadora, mesmo no ceticismo. Imagine que a casa onde voc\u00ea vive j\u00e1 abrigou outras pessoas, outras fam\u00edlias. Essas mesmas paredes, esse ch\u00e3o e esse teto j\u00e1 acolheram outras vidas que foram vividas de jeitos muitos diversos do seu. Esse mesmo espa\u00e7o f\u00edsico j\u00e1 foi chamado de lar por essas pessoas e, ainda assim, ele hoje pode ser considerado seu lar. Embora a estrutura f\u00edsica seja a mesma, algo diferencia radicalmente a ocupa\u00e7\u00e3o que se faz dela. \u00c9 essa diferencia\u00e7\u00e3o que qualifica algo como meu, seu, nosso. Tudo bem, pode ser que as paredes n\u00e3o sejam exatamente as mesmas, hoje temos mais banheiros do que nossos colegas \u2018copropriet\u00e1rios\u2019 dos anos 1950, por exemplo. A planta mudou, mas a casa \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p>Recentemente uma amiga arquiteta me escreveu para parabenizar pelo blog e me contou uma hist\u00f3ria \u00f3tima \u2013 inclusive pensando que ela poderia em algum momento alimentar esse espa\u00e7o. Chegou essa hora. Maristela me contou que quando a casa onde vive foi publicada nas p\u00e1ginas de uma revista, pouco tempo depois recebeu o telefonema de um senhor de Manaus. Ele havia morado na casa dela muitos anos antes. A casa tinha passado por uma profunda reforma, mas o corrim\u00e3o da escada tinha permanecido \u2013 e era t\u00e3o especial que o antigo morador logo o reconheceu, e n\u00e3o hesitou em procur\u00e1-la para contar da feliz coincid\u00eancia. Eles compartilham mais do que um corrim\u00e3o, mais at\u00e9 do que o afeto pela casa, da felicidade de terem vivido ali momentos significativos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um contato raro. Poucas vezes o destino nos sa\u00fada com tamanha generosidade, colocando pr\u00f3ximos esses parceiros de \u2018propriedade\u2019. E isso \u00e9 rico, por que nos mostra que podemos ter afeto por coisas que ser\u00e3o objeto do afeto de outros, assim como cada um de n\u00f3s j\u00e1 amou pessoas que hoje s\u00e3o amadas por outros. Essa no\u00e7\u00e3o da efemeridade da nossa passagem pelas coisas do mundo pode nos trazer uma nova perspectiva sobre como podemos nos apropriar dessas mesmas coisas. Poder usufruir do que conquistamos sem apego \u00e9 um desafio, eu sei. Desafio bom. Da\u00ed a ideia de torn\u00e1-lo um mantra a ser repetido incessantemente, cotidianamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Calazans H\u00e1 alguns anos que essa frase ressoa dentro de mim como um mantra. A casa onde vivo n\u00e3o \u00e9 minha. H\u00e1 uma escritura documental que diz l\u00e1 que ela \u00e9 de minha propriedade, mas de verdade, ela n\u00e3o \u00e9 minha. 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