{"id":156128,"date":"2017-10-10T15:00:37","date_gmt":"2017-10-10T18:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=156128"},"modified":"2017-10-10T15:00:37","modified_gmt":"2017-10-10T18:00:37","slug":"tragedia-em-janauba-como-superar-perda-de-um-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tragedia-em-janauba-como-superar-perda-de-um-filho\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia em Jana\u00faba: como superar a perda de um filho?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Claudia Pereira\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Dif\u00edcil pensar em algo mais penoso para uma m\u00e3e do que a morte de um filho. Como dizem por a\u00ed, \u201cn\u00e3o \u00e9 a ordem natural das coisas\u201d os filhos partirem antes dos pais. N\u00e3o desmerecendo a rela\u00e7\u00e3o que a figura masculina possui com suas crias, mas outros ditados comprovam que a liga\u00e7\u00e3o entre filhos e m\u00e3es \u00e9 transcendental: \u201cnada se compara ao amor de m\u00e3e\u201d, \u201cm\u00e3e s\u00f3 existe uma\u201d, \u201cser m\u00e3e \u00e9 padecer no para\u00edso\u201d, e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Uma rela\u00e7\u00e3o que come\u00e7a muito antes de aquele pequenino ser dar o ar da gra\u00e7a neste mundo. Para muitas, logo que a gravidez \u00e9 anunciada tudo muda: forma de pensar, agir, se alimentar, h\u00e1bitos de leitura, comportamento. N\u00e3o \u00e9 raro ouvir gr\u00e1vidas, principalmente as de primeira viagem, dizerem: \u201cN\u00e3o estou mais sozinha\u201d, \u201cAgora, preciso cuidar de mim e do beb\u00ea\u201d, \u201cTenho de tomar cuidado com o beb\u00ea\u201d. S\u00e3o meses \u00e0 espera. Nove, na maioria dos casos. Uma vez ou outra algum apressadinho resolve adiantar a chegada.<\/p>\n<p>Muitas mulheres relatam que o momento do parto \u00e9 o que de mais emocionante vivenciaram em suas vidas. Ap\u00f3s 270 dias de espera, aproximadamente, \u00e9 chegada a hora de conhecer aquele ser que foi sua companhia \u201coculta\u201d por tanto tempo, aquele que voc\u00ea nunca viu e sempre amou, que passou boa parte do tempo te chutando e a outra te fazendo ter sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o muito confort\u00e1veis, mas que voc\u00ea, inexplicavelmente, se apaixonou desde o momento em que leu positivo no Beta HCG.<\/p>\n<p>E se logo no come\u00e7o dessa trajet\u00f3ria voc\u00ea fosse privada da companhia desse filho que esperou tanto, que amou intensamente e para quem planejou tantas coisas?<\/p>\n<p>Foi o que ocorreu com as m\u00e3es do Cemei Gente Inocente, em Jana\u00faba (MG). Muitas repletas de sonhos e planos para os filhos, ainda em tenra idade, acordaram na \u00faltima quinta (5) como todos os outros dias, levaram suas crian\u00e7as para a creche e seguiram para suas atividades. Antes de o dia acabar, a tr\u00e1gica not\u00edcia: muitas delas n\u00e3o poderiam levar seus pequenos de volta para casa nunca mais.<\/p>\n<p>Como se recuperar de algo assim, de uma perda t\u00e3o brutal? Mesmo quando um filho est\u00e1 doente, a partida, por mais que \u201cesperada\u201d ou anunciada pelos m\u00e9dicos, nunca \u00e9 f\u00e1cil. Este \u00e9, provavelmente, o maior medo de toda m\u00e3e: ver o filho partir. Como m\u00e3e, n\u00e3o consigo pensar em dor maior.<\/p>\n<p>Mesmo sabendo que este \u00e9 um acontecimento incapaz de ser superado pelos pais, o blog conversou com uma psic\u00f3loga e psicopedagoga sobre como lidar com trag\u00e9dias como estas.<\/p>\n<p>Segundo Rafaella Ribeiro, quando a morte de um filho ocorre repentinamente e de forma brutal, como no caso de Jana\u00faba, demora mais para os pais assimilarem o acontecimento, h\u00e1 um choque maior, \u201c\u00e9 como se ficassem entorpecidos, sem contato com a realidade. Passam por diferentes processos. Primeiro vem a raiva, a revolta, e depois a aceita\u00e7\u00e3o, o vivenciar o luto\u201d.<\/p>\n<p>A perda de um filho \u00e9 algo que atinge toda a fam\u00edlia, principalmente se o casal possui outras crian\u00e7as. Segundo a especialista, \u201cos pais estar\u00e3o totalmente voltados para o incidente e o outro filho pode sentir que n\u00e3o foi cuidado ou olhado em algum momento. Os processos de luto nessas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais prolongados, no m\u00ednimo um ano\u201d.<\/p>\n<p>E aquele t\u00e3o famoso sentimento de culpa que assola a maioria das m\u00e3es vir\u00e1 com tudo neste momento. \u201cEm qualquer perda, os pais sempre trazem questionamentos como: o que poderia ter feito de diferente, ser\u00e1 que me descuidei, ser\u00e1 que n\u00e3o deveria ter colocado nessa creche? Al\u00e9m de recordar todas as coisas que fizeram, as vezes em que gritaram, que colocaram de castigo\u201d.<\/p>\n<p>Certamente, a morte de um filho \u00e9 algo que nunca ser\u00e1 esquecido, mas, para a profissional, uma forma de lidar com esta perda \u00e9 \u201cressignificar isso de alguma maneira\u201d. Rafaella pontua que uma forma de tentar amenizar a dor \u00e9 \u201cencontrar algumas bandeiras ou causas, fazer com que o ocorrido com o filho n\u00e3o se repita, que a morte dele n\u00e3o tenha sido em v\u00e3o. De repente, esses pais fazerem uma campanha e mobilizar o governo e institui\u00e7\u00f5es para que acompanhem de forma correta pessoas com problemas psicol\u00f3gicos\u201d. Outro ponto pode ser a busca por grupos de pais que passam pela mesma situa\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 importante ter com quem falar\u201d.<\/p>\n<p>Para Rafaella, nessas situa\u00e7\u00f5es, fazer um acompanhamento psicol\u00f3gico \u00e9 essencial e, dependendo do caso, at\u00e9 mesmo um acompanhamento psiqui\u00e1trico. \u201cS\u00e3o momentos traum\u00e1ticos que podem fazer surgir doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas. \u00c9 preciso ter um olhar para essas pessoas que vivem um momento de luto, observar se n\u00e3o est\u00e3o desenvolvendo uma depress\u00e3o grave. Todos v\u00e3o se deprimir com uma perda dessas. Mas h\u00e1 uma linha t\u00eanue entre o sofrimento do luto e as pessoas que podem desenvolver uma doen\u00e7a. Elas passam a n\u00e3o comer mais, n\u00e3o saem mais de casa, o quarto est\u00e1 sempre escuro, n\u00e3o tomam mais banho, n\u00e3o olham mais para o outro filho\u201d.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o da prefeitura de Jana\u00faba informa que desde o fim de semana (7 e 8\/10) o servi\u00e7o de atendimento psicol\u00f3gico est\u00e1 dispon\u00edvel para os familiares dos alunos da creche Gente Inocente.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro ponto nesta hist\u00f3ria que tamb\u00e9m ser\u00e1 muito duro para os pais. E quando os filhos que foram atingidos pelas chamas retornarem para a casa? E aqueles que ficarem desfigurados?<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga e psicopedagoga, ser\u00e1 um momento de os pais desenvolverem um novo olhar sobre os filhos. \u201cEle n\u00e3o tem mais o rosto que tinha, a mobilidade que tinha, os pais ter\u00e3o de aprender a lidar com isso. Como as crian\u00e7as s\u00e3o muito pequenas, o que vai ditar a imagem \u00e9 o pr\u00f3prio olhar dos pais sobre elas. Os pais ter\u00e3o de perder preconceitos e preparar os filhos para encarar uma sociedade julgadora. Construir a autoestima dessa crian\u00e7a, enaltecer outras qualidades \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o os olhos bonitos, o cabelo. Fortalecer, por exemplo, sua personalidade. Se voc\u00ea tem uma autoestima bem constru\u00edda voc\u00ea vai sofrer em alguns momentos, mas ser\u00e1 mais f\u00e1cil passar pelas rejei\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante n\u00e3o tratar a crian\u00e7a como coitada e sempre enaltecer as coisas positivas\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fechamento dessa mat\u00e9ria, 11 pessoas j\u00e1 haviam morrido em decorr\u00eancia do inc\u00eandio na creche. Nove crian\u00e7as, o vigia Dami\u00e3o Soares dos Santos, que fez o ataque, e uma professora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudia Pereira\u00a0 Dif\u00edcil pensar em algo mais penoso para uma m\u00e3e do que a morte de um filho. 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