{"id":157395,"date":"2017-10-20T16:32:07","date_gmt":"2017-10-20T18:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=157395"},"modified":"2017-10-20T16:33:04","modified_gmt":"2017-10-20T18:33:04","slug":"drama-percorre-regime-militar-em-historia-de-milton-hatoum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/drama-percorre-regime-militar-em-historia-de-milton-hatoum\/","title":{"rendered":"Drama percorre regime militar em hist\u00f3ria de Milton Hatoum"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/p>\n<p>O escritor Milton Hatoum estava com seu novo livro bem encaminhado quando seu editor, Luiz Schwarcz, fez uma observa\u00e7\u00e3o que mudou completamente o rumo da trama. &#8220;A hist\u00f3ria tem uma franco-brasileira como narradora e, em um determinado momento em que ela conversa com outro personagem, Martim, Luiz escreveu na margem da p\u00e1gina: &#8216;Seria interessante saber mais sobre esse Martim&#8217;. Concordei e isso levou mais cinco anos&#8221;, conta Hatoum, entre sorrisos. A trama, portanto, ganhou um desdobramento e se transformou em uma trilogia, O Lugar Mais Sombrio, e cujo primeiro volume, A Noite da Espera, chega agora ao p\u00fablico, sob a chancela da Companhia das Letras.<\/p>\n<p>Trata-se de um momento definidor na carreira do escritor, colunista do Caderno 2 &#8211; afinal, depois de construir uma obra formada por romances cujo enredo era centralizado em Manaus, sua cidade natal, Hatoum segue a pr\u00f3pria trilha de vida e chega ao Planalto Central. \u00c9 que, ao desvendar a hist\u00f3ria de Martim, o escritor novamente se volta a um drama familiar, mas entrela\u00e7ado \u00e0 hist\u00f3ria da ditadura militar em Bras\u00edlia, nos anos 1960. &#8220;Era o livro que eu queria escrever, mas vinha adiando. Eu tratava de tantos assuntos, mas adiava essa viagem. A observa\u00e7\u00e3o do Luiz antecipou o que eu j\u00e1 pretendia fazer.&#8221;<\/p>\n<p>E o resultado s\u00e3o os dois primeiros volumes da trilogia &#8211; o segundo, Hatoum pretende, deve sair no pr\u00f3ximo ano. E a hist\u00f3ria da franco-brasileira figurar\u00e1 no terceiro livro. Tudo resultar\u00e1 em uma longa narrativa, aquela que os alem\u00e3es classificam como Bildungsroman. &#8220;\u00c9, de fato, um romance de forma\u00e7\u00e3o&#8221;, considera ele. &#8220;E com um forte fator externo, que foi a presen\u00e7a militar durante a ditadura, e o fator interno, que move o romance: o drama de Martim, baseado na ruptura com a m\u00e3e e a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o do pai. Esse relacionamento \u00e9 um dos lugares mais sombrios do livro.&#8221;<\/p>\n<p>A Noite de Espera acompanha Martim, jovem paulista que se muda para Bras\u00edlia junto com o pai, nos anos 1960, depois de uma traum\u00e1tica separa\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Na nova Capital Federal, faz amizade na universidade, a UnB, com adolescentes de variadas classes sociais, desde um filho de embaixador at\u00e9 outro, morador de um casebre em uma Cidade Piloto, e cuja m\u00e3e trabalha como empregada dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>&#8220;Como eu n\u00e3o queria falar de mim, o desafio foi trabalhar com a imagina\u00e7\u00e3o para construir esses personagens&#8221;, explica Hatoum. &#8220;\u00c9 decisiva a presen\u00e7a da experi\u00eancia &#8211; n\u00e3o apenas a individual, mas a de grupo, adquirida pela fabula\u00e7\u00e3o dos outros. A mem\u00f3ria como vasos comunicantes, que passam de um para outro. Isso \u00e9 um trabalho da imagina\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Para tecer o romance, o escritor voltou, pela primeira vez, a Bras\u00edlia, onde viveu durante pouco mais de dois anos. &#8220;Demorei quase 30 anos para voltar &#8211; eu n\u00e3o queria mais ver aquilo. A cidade era fascinante e sombria. Ao mesmo tempo que significou a liberta\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia (vim de Manaus), morar em Bras\u00edlia tamb\u00e9m foi uma esp\u00e9cie de aprisionamento.&#8221;<\/p>\n<p>O retorno, por\u00e9m, foi proveitoso. &#8220;Fiquei encantado com a cidade, que une solid\u00e3o, poeira e tamb\u00e9m viol\u00eancia. Revisitei amigos, cachoeiras. Foi uma volta no tempo e no espa\u00e7o. Nesse momento, eu me senti pronto para esbo\u00e7ar a longa trajet\u00f3ria desse grupo de amigos.&#8221;<\/p>\n<p>Era a \u00e9poca do AI-5, o que favoreceu a ades\u00e3o do escritor ao movimento pol\u00edtico-estudantil, pois estudava em um col\u00e9gio excepcional, no qual se uniu aos desgarrados do movimento, aqueles mais independentes que eram vistos com preconceito internamente. &#8220;A vida era intensa e tensa&#8221;, observa o autor, que ainda traz marcas profundas na alma. &#8220;N\u00e3o me esque\u00e7o da minha primeira deten\u00e7\u00e3o. Mesmo que n\u00e3o tenha havido agress\u00e3o f\u00edsica, n\u00e3o me esque\u00e7o dos gritos que ouvi naquela noite.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 importante observar que o romance n\u00e3o traz apenas um relato dessa mem\u00f3ria, mas comprova a import\u00e2ncia do distanciamento temporal para se escrever fic\u00e7\u00e3o. &#8220;O esquecimento como forma de mem\u00f3ria&#8221;, segundo Jorge Luis Borges, frase que Hatoum gosta de citar. Segundo ele, o tempo que passa transcende a fidelidade das circunst\u00e2ncias da vida. Cria novas perspectivas e a imagina\u00e7\u00e3o torna-se mais livre para trabalhar com o passado.<\/p>\n<p>Assim, ao ser obrigado a voltar para S\u00e3o Paulo, no momento em que a repress\u00e3o militar atinge limites insuport\u00e1veis, Martim retorna com uma maturidade que antes n\u00e3o ostentava. &#8220;Um sentimento da desilus\u00e3o. Por isso, vejo como um romance da desilus\u00e3o. Um grande pesadelo com pequenas interrup\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Escrever \u00e9 uma arte \u00e1rdua, que exige concentra\u00e7\u00e3o e trabalho. &#8220;Esse texto me exigiu muito, foi bem dif\u00edcil, pois passei um tempo fazendo tentativas, rondando um esbo\u00e7o. Eu n\u00e3o conseguia chegar a uma estrutura narrativa. S\u00f3 come\u00e7o a escrever depois de conhecer as vozes narrativas. Pensei em um di\u00e1rio, mas seria dif\u00edcil, pois o tempo seria longo. Da\u00ed pensei em anota\u00e7\u00f5es, cartas, algo pr\u00f3ximo a confiss\u00f5es e a um romance epistolar. A op\u00e7\u00e3o formal foi essa: atrav\u00e9s de uma estrutura fragmentada, unir esse quebra-cabe\u00e7a. Tamb\u00e9m me preocupei com os conceitos ideol\u00f3gicos, evitando um discurso did\u00e1tico. Apesar da cr\u00edtica ao sistema, h\u00e1 o lado autorit\u00e1rio dos grupos de esquerda, na qual h\u00e1 amea\u00e7as, dogmas. O que existe at\u00e9 hoje e vai existir sempre&#8221;, comenta ele. E acrescenta: &#8220;Quando a ideologia se torna um dogma, ela tolhe a liberdade. A educa\u00e7\u00e3o tem de ser humanista, preparar a pessoa com um esp\u00edrito cr\u00edtico e emancipador&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil O escritor Milton Hatoum estava com seu novo livro bem encaminhado quando seu editor, Luiz Schwarcz, fez uma observa\u00e7\u00e3o que mudou completamente o rumo da trama. &#8220;A hist\u00f3ria tem uma franco-brasileira como narradora e, em um determinado momento em que ela conversa com outro personagem, Martim, Luiz escreveu na margem da p\u00e1gina: &#8216;Seria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":157396,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-157395","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=157395"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":157408,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157395\/revisions\/157408"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/157396"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=157395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=157395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=157395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}