{"id":158828,"date":"2017-11-01T08:13:19","date_gmt":"2017-11-01T10:13:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=158828"},"modified":"2017-11-01T08:25:51","modified_gmt":"2017-11-01T10:25:51","slug":"um-disco-de-uma-nova-voz-que-surge-como-uma-doacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-disco-de-uma-nova-voz-que-surge-como-uma-doacao\/","title":{"rendered":"Um disco de uma nova voz que surge como uma doa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro Antunes<\/strong><\/p>\n<p>Da janela do apartamento na zona oeste, no topo do mais alto morro do bairro de Perdizes, Lucas Castello Branco \u00e9 capaz de enxergar a serra em dias limpos de nuvens e ensolarados, obviamente. Ali, na beirada do concreto, de olho no verde ao fundo, o carioca h\u00e1 pouco mais de um ano e meio em S\u00e3o Paulo foi capaz de entender sua persona art\u00edstica, seu lugar no mundo, seu of\u00edcio na m\u00fasica.<\/p>\n<p>Servi\u00e7o, o disco de estreia, lan\u00e7ado h\u00e1 quatro anos, era uma entrega, como ele mesmo diz. Erguido com a ajuda dos amigos, o \u00e1lbum n\u00e3o foi promovido ou vendido. N\u00e3o fez videoclipes, dispensou singles. Desenhando o amor em tra\u00e7os de pulso leve, o disco cresceu organicamente, no boca a boca. &#8220;Foi um disco que me foi doado. Tive ajuda para faz\u00ea-lo. Quis que ele tamb\u00e9m fosse uma doa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Castello Branco &#8211; o nome art\u00edstico escolhido n\u00e3o inclui o Lucas. &#8220;Servi\u00e7o, o disco, foi um servi\u00e7o, mesmo&#8221;, brinca.<\/p>\n<p>A estreia solo era o descolamento do que se conhecia do trabalho do artista. Um c\u00e2nion de dist\u00e2ncia do som criado por ele, coletivamente, com a banda R.Sigma, influent\u00edssima na cena da indie carioca formada ao lado de Diogo Strausz (guitarra), Tom\u00e1s Tr\u00f3ia (guitarra e voz), GB (bateria e voz) e Eric Kendi (baixo), findada em 2011. Das guitarras distorcidas e das letras melanc\u00f3licas, ele seguiu para o mato, para um ambiente sonoro brejeiro. Experimentou &#8211; ou reviveu &#8211; seus dias no monast\u00e9rio fundado pela m\u00e3e dele em Serra do Capim, em Teres\u00f3polis, no Rio de Janeiro, onde viveu dos 5 aos 16 anos. Naquele disco, Castello encontrava quem havia sido no per\u00edodo pr\u00e9-vida urbana.<\/p>\n<p>Sintoma, o enfim lan\u00e7ado segundo disco, \u00e9 Castello a olhar para um mundo doente &#8211; ferido de amor, de des\u00e2nimo, desalentado. N\u00e3o se trata de uma dor f\u00edsica e, sim, de uma agonia que gela a alma A estreia do trabalho em S\u00e3o Paulo est\u00e1 marcada para esta quinta-feira, 2, na Casa Natura Musical, com participa\u00e7\u00e3o de Alice Caymmi e Phil Veras.<\/p>\n<p>No intervalo de quatro anos entre os dois \u00e1lbuns, Castello Branco precisou encontrar quem era, artisticamente. N\u00e3o era mais o garoto criado no N\u00facleo de Servi\u00e7o Crer-Sendo como ele cantava em Servi\u00e7o, tamb\u00e9m n\u00e3o era o jovem de cora\u00e7\u00e3o partido ao tentar encontrar seu lugar no mundo com o R.Sigma. Veio Simpatia, um livro de poesias realizado com o aux\u00edlio de financiamento coletivo &#8211; e teve suas 5 mil c\u00f3pias vendidas. Ali, na capa, a ilustra\u00e7\u00e3o mostra Castello a repousar a m\u00e3o pela abertura da bata colorida sobre o cora\u00e7\u00e3o, como se sentisse, entre os dedos, o peso do \u00f3rg\u00e3o que faz o sangue correr por veias e art\u00e9rias. Em seus poemas, ele se encontra. Contorce-se para deixar sair desejos, sexuais e amorosos, paix\u00f5es e solid\u00f5es, gritos e sussurros, em estrofes curtas e versos de poucas s\u00edlabas.<\/p>\n<p>Algumas das palavras de Simpatia ganham o canto em Sintoma. &#8220;Com o livro, pude aprender mais sobre mim, sobre meus defeitos. Entendi que \u00e9 poss\u00edvel me expor de forma que n\u00e3o consegui em Servi\u00e7o, porque ele tinha outro objetivo&#8221;, explica. O segundo \u00e1lbum veio motivado por uma &#8220;fome&#8221;. &#8220;A m\u00fasica \u00e9 a melhor forma que tenho para me comunicar.&#8221;<\/p>\n<p>Sem gravadora e formato f\u00edsico, Sintoma est\u00e1 dispon\u00edvel digitalmente e se esparrama por 11 can\u00e7\u00f5es e 42 minutos. &#8220;\u00c9 um espelho. Meu e do mundo onde vivemos&#8221;, explica. As mensagens, mais diretas e menos filos\u00f3ficas, como em O Peso do Meu Cora\u00e7\u00e3o, que entrou na lista das 50 m\u00fasicas mais tocadas de forma viral no Spotify, Cara a Cara, Coragem e N\u00e3o me Confunda, s\u00e3o m\u00e2ntricas. Apoiados em viol\u00f5es e sons sintetizados, os versos de Castello Branco parecem vasculhar os pontos de dores no corpo. Todos os dias, no Instagram, ele replica mensagens de agradecimentos dos f\u00e3s. S\u00e3o casos de depress\u00e3o a ins\u00f4nia &#8211; alguns dos males deste s\u00e9culo &#8211; apaziguados por Sintoma, dizem as mensagens.<\/p>\n<p>Sem soar messi\u00e2nico, Castello Branco se d\u00e1 por satisfeito. &#8220;Quando digo cura, n\u00e3o quero ser pretensioso&#8221;, ele diz e segue, &#8220;n\u00e3o sou eu que vou cur\u00e1-los, mas posso propor uma viv\u00eancia de cura. Que as pessoas entrem na mesma vibra\u00e7\u00e3o com a qual eu me curo.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Antunes Da janela do apartamento na zona oeste, no topo do mais alto morro do bairro de Perdizes, Lucas Castello Branco \u00e9 capaz de enxergar a serra em dias limpos de nuvens e ensolarados, obviamente. 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