{"id":159000,"date":"2017-11-03T08:15:33","date_gmt":"2017-11-03T10:15:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=159000"},"modified":"2017-11-03T09:08:14","modified_gmt":"2017-11-03T11:08:14","slug":"159000-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/159000-2\/","title":{"rendered":"Hirsch mostra que Brasil \u00e9 conservador at\u00e9 debaixo d&#8217;\u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ubiratan Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro documento hist\u00f3rico a descrever o Brasil, a carta redigida por Pero Vaz de Caminha em 1500 e dirigida ao Rei de Portugal, D. Manuel, revela o deslumbramento do europeu com a beleza natural dos tr\u00f3picos, mas, em um determinado momento, o escriv\u00e3o alerta: &#8220;O melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que ser\u00e1 salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lan\u00e7ar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Trata-se da primeira evid\u00eancia da necessidade do colonizador em ter controle sobre a nova terra, a partir do batizado dos \u00edndios&#8221;, comenta o encenador Felipe Hirsch, que estreia seu novo trabalho, o instigante &#8220;Selvageria&#8221;, nesta sexta-feira, 3, no teatro do Sesc Vila Mariana.<\/p>\n<p>Baseadas em livros e documentos hist\u00f3ricos, as 11 cenas (apenas a \u00faltima \u00e9 inspirada em uma obra de fic\u00e7\u00e3o, &#8220;O Triste Fim de Policarpo Quaresma&#8221;, de Lima Barreto) mostram como, no Brasil atual, ainda est\u00e3o arraigadas ideias antigas, datadas de s\u00e9culos atr\u00e1s. &#8220;O discurso conservador que marca essa nova onda reacion\u00e1ria em vigor j\u00e1 estava plantado naqueles textos hist\u00f3ricos, o que explica, por exemplo, os motivos pelos quais perpetuamos v\u00e1rios tipos de escravid\u00e3o: social, ind\u00edgena, negra&#8221;, observa Hirsch. &#8220;Ainda temos \u00e1rea social e \u00e1rea de servi\u00e7o nos edif\u00edcios e ainda mantemos empregadas dom\u00e9sticas que, mesmo com nossa boa vontade, continuam ganhando mal.&#8221;<\/p>\n<p>Um dos principais encenadores do Pa\u00eds, Felipe Hirsch revela-se tamb\u00e9m um dos mais atentos, desde que, em 2012, decidiu romper com a confort\u00e1vel carreira que vinha construindo (&#8220;Eu me cansei do fastio provocado por um teatro de repeti\u00e7\u00e3o&#8221;) e entrar de cabe\u00e7a em processos criativos efervescentes, especialmente baseados em textos liter\u00e1rios. Assim, no ano seguinte, iniciou uma trilogia com &#8220;Puzzle&#8221;, espet\u00e1culo que mostrou como a obra de escritores brasileiros contempor\u00e2neos apresentava um reflexo fiel da realidade. Continuou com o d\u00edptico &#8220;A Trag\u00e9dia Latino-Americana&#8221; e &#8220;A Com\u00e9dia Latino-Americana&#8221;, ambos de 2016, que se revelou uma vigorosa investiga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria a partir dos escritos de autores do continente e seus reflexos sobre as quest\u00f5es sociais do territ\u00f3rio. E a trilogia se fecha agora com &#8220;Selvageria&#8221;. &#8220;Se Puzzle e o d\u00edptico se inspiraram em fic\u00e7\u00f5es, Selvageria seria uma esp\u00e9cie de document\u00e1rio ao tratar das ra\u00edzes do conservadorismo no Brasil a partir de documentos hist\u00f3ricos&#8221;, comenta Hirsch, com um tom ir\u00f4nico.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a se debru\u00e7ar sobre a documenta\u00e7\u00e3o h\u00e1 dois anos, quando devorou os dois volumes da Bibliographia Brasiliana (Edusp), trabalho organizado por Rubens Borba de Moraes e que cont\u00e9m o registro tanto de obras publicadas no exterior de 1504 a 1900 como as de autores brasileiros impressas antes de 1822. O complemento veio nas pesquisas no precioso acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e Jos\u00e9 Mindlin.<\/p>\n<p>&#8220;A inten\u00e7\u00e3o foi utilizar apenas documentos produzidos por estrangeiros, entre os s\u00e9culos 16 e 19 &#8211; a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o livro de Lima Barreto&#8221;, explica o encenador. &#8220;A fala \u00e9 dos europeus e dos selvagens civilizados contados por europeus brancos. S\u00e3o essas pessoas que falam. E esses documentos s\u00e3o aterrorizantes.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 casos realmente impressionantes. Como o texto &#8220;Voyage Autour du Monde&#8221; (Viagem ao Redor do Mundo), escrito pelo franc\u00eas Jacques Arago. Artista da expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica chefiada por Claude-Louis de Freycinet e que chegou ao Rio em 1817, Arago escreveu o relato da viagem em um estilo espirituoso e divertido &#8220;Mas seu grande m\u00e9rito \u00e9 o de oferecer a mais forte e mais fiel descri\u00e7\u00e3o de um mercado de escravos negreiros ao retratar em detalhes o Cais do Valongo, um dos maiores portos escravagistas do mundo e cuja redescoberta foi talvez a melhor heran\u00e7a das obras feitas na cidade para a Olimp\u00edada&#8221;, conta Hirsch. &#8220;\u00c9 aterrador, trata-se do nosso holocausto.&#8221;<\/p>\n<p>Outro documento precioso e raro foi encontrado no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo: as cartas da escrava africana Teodora da Cunha, escritas pelo brasileiro e tamb\u00e9m escravo Claro Ant\u00f4nio dos Santos. Ele era carpinteiro e, para completar a minguada renda, aproveitava-se da sua habilidade com a escrita para escrever in\u00fameras cartas em nome de Teodora e outros escravos analfabetos. &#8220;Escrito em um portugu\u00eas casti\u00e7o, traz um relato comovente e tamb\u00e9m esclarecedor da rotina deles.&#8221;<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo, que conta com um intervalo, termina com os momentos derradeiros de &#8220;O Triste Fim de Policarpo Quaresma&#8221;. &#8220;Esse trecho ainda me assombra&#8221;, confessa Hirsch. &#8220;Traz o discurso, na pris\u00e3o, do homem que tentou entender a sua P\u00e1tria e que, ali, descobre que tudo aquilo n\u00e3o fez sentido.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ubiratan Brasil Primeiro documento hist\u00f3rico a descrever o Brasil, a carta redigida por Pero Vaz de Caminha em 1500 e dirigida ao Rei de Portugal, D. 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