{"id":160983,"date":"2017-11-20T09:28:49","date_gmt":"2017-11-20T11:28:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=160983"},"modified":"2017-11-20T09:28:49","modified_gmt":"2017-11-20T11:28:49","slug":"brasileiro-e-racista-e-pratica-racismo-diz-reitor-da-zumbi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasileiro-e-racista-e-pratica-racismo-diz-reitor-da-zumbi\/","title":{"rendered":"Brasileiro \u00e9 racista e pratica racismo, diz reitor da Zumbi"},"content":{"rendered":"<p>O Dia da Consci\u00eancia Negra, celebrado nesta segunda-feira, 20, representa um pedido de desculpas ao povo negro. \u00c9 o que afirma o reitor da Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, o advogado, soci\u00f3logo, mestre em Administra\u00e7\u00e3o e doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Vicente, de 58 anos.<\/p>\n<p>Para ele, a data \u00e9 momento de recordar a trajet\u00f3ria do negro no Pa\u00eds, mostrar que o &#8220;apartheid social&#8221; n\u00e3o est\u00e1 resolvido e que o tratamento dado aos negros pelos antepassados n\u00e3o deve sair da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8220;Somos um pa\u00eds de 400 anos de escravid\u00e3o negra e quatro milh\u00f5es de escravizados. Nada mais justo, correto e leg\u00edtimo que tivesse um dia para celebrar, relembrar, cultuar e at\u00e9 se desculpar enquanto pa\u00eds pelo tratamento dado a esse p\u00fablico por tanto tempo&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Vicente, a ado\u00e7\u00e3o da cota racial nas universidades &#8220;abriu uma brecha na porta&#8221;, mas isoladamente n\u00e3o garante oportunidades iguais a brancos e negros na sociedade, j\u00e1 que o mercado de trabalho ainda \u00e9 um &#8220;pared\u00e3o&#8221; a ser superado.<\/p>\n<p>Veja a seguir trechos da entrevista:<\/p>\n<p><b>O sistema de cotas raciais nas universidades \u00e9 satisfat\u00f3rio?<\/b><\/p>\n<p>Se o Brasil quiser resolver esse problema nacional e estruturante que \u00e9 o apartheid entre negros e brancos, \u00e9 preciso concluir o conjunto de a\u00e7\u00f5es afirmativas que deem conta de levar pluralidade e diversidade para todos os ambientes sociais. Entrar na universidade \u00e9 um feito para qualquer jovem, mas o que conta \u00e9 o que se faz quando se sai da universidade. No caso do jovem negro, ele vai bater no outro pared\u00e3o que \u00e9 o mercado de trabalho, que exclui tanto ou mais que o mercado educacional. N\u00e3o conhecemos um presidente negro nas cinco mil maiores empresas do Pa\u00eds. At\u00e9 conseguimos colocar negros nas universidades, mas n\u00e3o conseguimos colocar professores negros nas salas de aula, na pesquisa ou na estrutura de gest\u00e3o das universidades. Do conjunto de pesquisadores brasileiros, s\u00f3 1% \u00e9 negro. Se n\u00e3o ampliarmos as a\u00e7\u00f5es afirmativas para al\u00e9m das cotas, vamos ficar com 50% da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 negra, fora da disputa. Para crescer, o Brasil precisa dar igualdade de condi\u00e7\u00f5es para aqueles que sempre foram marginalizados.<\/p>\n<p><b>Ap\u00f3s se tornar reitor, as situa\u00e7\u00f5es de racismo contra o senhor mudaram?<\/b><\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o permanentes. Continuam intensas e manifestas. O racismo \u00e9 uma falha de car\u00e1ter. Pouco importa se o negro \u00e9 rico, pobre, famoso. Temos quatro mil institui\u00e7\u00f5es de ensino superior no Pa\u00eds e n\u00e3o conhe\u00e7o um reitor negro. Uma vez, ao chegar em um evento de educa\u00e7\u00e3o, fui cumprimentado com &#8220;Welcome! Nice to meet you&#8221; (Bem-vindo! Prazer em conhec\u00ea-lo). Acharam que eu era um reitor de universidade americana. Por circunst\u00e2ncias do meu trabalho, tenho um carro bom. Quando chego dirigindo, acham que sou o motorista. Isso acontece todo dia e toda hora. O racismo est\u00e1 posto. Est\u00e1 firme e forte.<\/p>\n<p><b>Pesquisa recente do Ibope mostrou que s\u00f3 2 em cada 10 brasileiros admitem ser preconceituosos.<\/b><\/p>\n<p>O brasileiro \u00e9 racista e pratica o racismo. Ele n\u00e3o reconhece porque entende que s\u00f3 \u00e9 racista quem usa express\u00e3o ou pratica ato com danos vis\u00edveis e avassaladores. Mas o racismo se faz com pr\u00e1ticas que talvez, no primeiro momento, podem ser entendidas como inofensivas. Um exemplo de pr\u00e1tica s\u00e3o as piadas de cunho racista. Ouvimos com frequ\u00eancia em v\u00e1rios ambientes, \u00e0s vezes at\u00e9 por amigos. Sim, somos racistas. E admitir que somos racistas \u00e9 indispens\u00e1vel se quisermos pensar em solu\u00e7\u00f5es para o problema.<\/p>\n<p><b>H\u00e1 quem diga que j\u00e1 n\u00e3o se pode mais &#8220;brincar&#8221;, que \u00e9 a vez do &#8220;politicamente correto&#8230;&#8221;<\/b><\/p>\n<p>Como o brasileiro acha que n\u00e3o existe racismo e que n\u00e3o h\u00e1 racistas no Pa\u00eds, tudo que se faz \u00e9 em tom de brincadeira, amabilidade, carinho. O brasileiro pensa: &#8220;Se houver diferen\u00e7as, s\u00e3o diferen\u00e7as sociais. N\u00e3o \u00e9 por causa da ra\u00e7a&#8221;. Mas s\u00f3 agora, atrav\u00e9s dessas lutas todas, estamos dizendo que n\u00e3o \u00e9 bem assim e apontando as manifesta\u00e7\u00f5es racistas. Estamos dizendo: Estes indicadores sociais, governo, s\u00e3o um apartheid racista. Olha, sociedade, a aus\u00eancia de negros nos espa\u00e7os sociais do Pa\u00eds \u00e9 uma dimens\u00e3o do nosso racismo que talvez n\u00e3o se trate do racismo ofensivo e doloso, mas \u00e9 um racismo impl\u00edcito, culposo e danoso.<\/p>\n<p><b>Qual \u00e9 o papel das redes sociais hoje na luta contra o racismo?<\/b><\/p>\n<p>As redes ajudam. Al\u00e9m de fazer o diagn\u00f3stico para que possamos apontar as situa\u00e7\u00f5es de racismo, \u00e9 poss\u00edvel nominar quem faz e onde faz esses coment\u00e1rios. As redes d\u00e3o visibilidade e publicidade \u00e0 causa porque obriga todos a reverem seus conceitos Todos est\u00e3o sob o olhar e veredicto do vizinho, que parece dizer: &#8220;Se voc\u00ea for racista, vamos denunciar porque isso \u00e9 contra as regras e voc\u00ea estar\u00e1 fora do jogo&#8221;.<\/p>\n<p><b>Como reverbera no movimento negro a crescente participa\u00e7\u00e3o de personalidades como o casal de atores L\u00e1zaro Ramos e Ta\u00eds Ara\u00fajo no combate ao racismo e nas discuss\u00f5es sobre a quest\u00e3o negra?<\/b><\/p>\n<p>Fortalece e qualifica. Permite que essa mudan\u00e7a ocorra com mais velocidade e que possa agregar muito mais pessoas que antes n\u00e3o faziam (quest\u00e3o de conhecer) ou n\u00e3o conheciam mais sobre o tema. Serve para inspirar. Al\u00e9m de inspiradas, as pessoas tamb\u00e9m ficam estimuladas a engrossar esse caldo ou a se informar mais sobre a quest\u00e3o, fazer a conscientiza\u00e7\u00e3o ao seu entorno e se juntar nesse esfor\u00e7o de indicar um caminho a seguir. (A participa\u00e7\u00e3o) cria pelo menos uma dire\u00e7\u00e3o, um caminho para o qual todos devemos caminhar. Inclui tamb\u00e9m o tema na agenda das prioridades e evita um efeito sanfona, que \u00e9 aquele efeito assim: quando vira modismo, entra na agenda. Quando deixa de ser modismo, sai da agenda. Este \u00e9 um tema que precisa permanecer na agenda, tendo as personalidades \u00e0 frente ou ao lado. Juntas a n\u00f3s, elas ajudam a manter o tema na agenda, a temperatura elevada para debater. E ajudam tamb\u00e9m a pressionar os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, mas tamb\u00e9m privados, para passar a mensagem de que estamos de olho e queremos mudan\u00e7as.<\/p>\n<p><b>No ano passado, o senhor esteve na Comiss\u00e3o Especial de Enfrentamento ao Homic\u00eddio de Jovens da C\u00e2mara dos Deputados e disse que para o plano nacional de combate \u00e0 viol\u00eancia contra os jovens ser eficaz \u00e9 preciso que o pa\u00eds &#8220;reconhe\u00e7a o racismo como um agente separat\u00f3rio de classes&#8221;. De que maneira esse reconhecimento contribui para o combate ao homic\u00eddio de jovens?<\/b><\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, um comandante da Pol\u00edcia Militar disse recentemente que na periferia a pol\u00edcia deve atuar de uma forma e nos Jardins deve atuar de outra. Depois, teve outro na mesma linha, em Campinas, que desenhou o perfil do marginal. Havia alguns bairros com n\u00edvel alto de viol\u00eancia e ele desenhou o perfil dos marginais que deveriam ser abordados. O perfil eram pessoas negras. A estrutura do aparato de seguran\u00e7a tem um vi\u00e9s extremamente classista, que coloca a pol\u00edcia como muro de conten\u00e7\u00e3o da periferia. A Comiss\u00e3o Parlamentar que conduziu essa discuss\u00e3o (na C\u00e2mara dos Deputados) est\u00e1 se estruturando para levarmos \u00e0 OEA (Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos) a den\u00fancia grav\u00edssima do genoc\u00eddio contra os negros. Est\u00e1 sendo levado \u00e0 OEA porque n\u00e3o temos meios de combate no Brasil. Nem o Judici\u00e1rio, nem o Minist\u00e9rio P\u00fablico, nem o governo tratam com seriedade ou d\u00e3o qualquer aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Dia da Consci\u00eancia Negra, celebrado nesta segunda-feira, 20, representa um pedido de desculpas ao povo negro. \u00c9 o que afirma o reitor da Faculdade da Cidadania Zumbi dos Palmares, o advogado, soci\u00f3logo, mestre em Administra\u00e7\u00e3o e doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Vicente, de 58 anos. 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