{"id":162128,"date":"2017-11-30T07:40:09","date_gmt":"2017-11-30T09:40:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=162128"},"modified":"2017-11-30T07:40:09","modified_gmt":"2017-11-30T09:40:09","slug":"o-indio-gay-e-questao-do-nao-pertencimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-indio-gay-e-questao-do-nao-pertencimento\/","title":{"rendered":"O \u00edndio gay e a quest\u00e3o do n\u00e3o pertencimento"},"content":{"rendered":"<p>Existem momentos de fulgurante beleza em Antes o Tempo n\u00e3o Acabava. Na margem do rio, o garoto ind\u00edgena grita e n\u00e3o encontra eco. No meio do rio, grita para a floresta &#8211; Eu estou aqui.&#8221; O longa de S\u00e9rgio Andrade e F\u00e1bio Baldo passou na Berlinale de 2016 e, depois, no Festival de Bras\u00edlia e na Mostra do mesmo ano. O tema de Bras\u00edlia, na curadoria de Eduardo Valente, era a extraterritorialidade, esse sentimento de n\u00e3o pertencer a lugar nenhum. Os filmes de \u00edndios talvez tenham sido os que melhor expressaram o tema, e olhem que havia tamb\u00e9m, em Bras\u00edlia, O Rifle, de Davi Preto.<\/p>\n<p>Eram o document\u00e1rio Mart\u00edrio, de Vincent Carelli, e a fic\u00e7\u00e3o da dupla Andrade\/Baldo. O document\u00e1rio, forte, foi recebido com rever\u00eancia. A fic\u00e7\u00e3o provocou pol\u00eamica. No debate, uma antrop\u00f3loga chamou os diretores de irrespons\u00e1veis e contestou a autoridade do protagonista, um \u00edndio, de falar como tal. Onde o Tempo n\u00e3o Acabava abre-se com um ritual ind\u00edgena, para marcar o rito de passagem e o ingresso dos meninos na idade adulta. \u00c9 uma prova de resist\u00eancia \u00e0 dor, talvez de coragem. O protagonista n\u00e3o passa. Vira estrangeiro no pr\u00f3prio mundo.<\/p>\n<p>Mas tem mais &#8211; Anderson se indisp\u00f5e contra os seus porque a tribo pratica o infantic\u00eddio, e ele n\u00e3o aceita. Dramaturgicamente, o sacrif\u00edcio da crian\u00e7a sem condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de sobreviver na floresta \u00e9 um recurso para justificar uma rea\u00e7\u00e3o do personagem. Foi aqui que a dupla de diretores virou saco de pancada. Existem tribos que praticam o infantic\u00eddio no Pa\u00eds, mas os casos que vazaram foram midiatizados de um jeito que explorava o tabu. Andrade e Baldo estariam ajudando a condenar os nativo-brasileiros como b\u00e1rbaros. E ainda n\u00e3o chegamos ao xis da quest\u00e3o &#8211; Anderson \u00e9 atra\u00eddo por homens. \u00c9 um \u00edndio gay. Seu fracasso no ritual de inicia\u00e7\u00e3o dos sater\u00ea maw\u00eas, a luva das formigas tucandeiras, passa a ter, ou pode ter, outro significado.<\/p>\n<p>Talvez seja coisa demais para um filme s\u00f3, mas numa entrevista por telefone, de Manaus, os diretores dizem que, em nenhum outro foro &#8211; exceto Bras\u00edlia &#8211; encontraram antrop\u00f3logas(os) t\u00e3o raivosos contra o filme. Onde o Tempo n\u00e3o Acabava tem sido recebido, e debatido, com outro olhar. Ontem \u00e0 noite, ap\u00f3s a estreia em Manaus, haveria debate com a participa\u00e7\u00e3o de representantes de diferentes etnias. Do debate, al\u00e9m dos diretores, participaria o ator Anderson Tikuna, que venceu o pr\u00eamio de interpreta\u00e7\u00e3o no Queer Lisboa (e o j\u00fari destacou que o filme evita &#8216;quaisquer estere\u00f3tipos&#8217;). Anderson entrou no personagem sabendo que n\u00e3o seria f\u00e1cil. Preparou-o Rita Carelli, filha de Vincent, e ela tamb\u00e9m atua.<\/p>\n<p>O filme nasceu do desejo de S\u00e9rgio Andrade de falar sobre os ind\u00edgenas urbanos, que abandonaram ou foram expulsos de suas terras e vivem na periferia de Manaus. &#8220;Anderson \u00e9 um personagem complexo, mas \u00e9 real. Ser gay pode ser um complicador para algumas plateias, mas a homossexualidade, embora presente, n\u00e3o \u00e9 o tema. Nosso tema \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da identidade&#8221;, define F\u00e1bio Baldo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem momentos de fulgurante beleza em Antes o Tempo n\u00e3o Acabava. Na margem do rio, o garoto ind\u00edgena grita e n\u00e3o encontra eco. 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