{"id":163030,"date":"2017-12-10T09:58:52","date_gmt":"2017-12-10T11:58:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=163030"},"modified":"2017-12-10T15:40:04","modified_gmt":"2017-12-10T17:40:04","slug":"tancredo-presidente-que-nao-foi-tem-alguem-como-ele-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tancredo-presidente-que-nao-foi-tem-alguem-como-ele-ai\/","title":{"rendered":"Tancredo, presidente que n\u00e3o foi. Tem algu\u00e9m como ele a\u00ed?"},"content":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 reportagem, Caio Blat contou como havia sido estressante a grava\u00e7\u00e3o do desfecho da novela Imp\u00e9rio. A revela\u00e7\u00e3o da identidade do personagem que estava por tr\u00e1s de todas as maquina\u00e7\u00f5es na trama de Aguinaldo Silva. Uma noturna, Caio e Othon Bastos. A cena tinha muitos di\u00e1logos &#8211; e a\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Caio, que admira Othon &#8211; &#8220;Um g\u00eanio!&#8221; -, podia estar cansado, mas tamb\u00e9m estava feliz de estar ali com uma de suas refer\u00eancias na arte de representa\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds. Agora, \u00e9 o rep\u00f3rter que est\u00e1 frente a frente com Othon Bastos, num set de filmagem, no Rio. Ele chega sorridente, senta-se, tira o bon\u00e9 e. . Ops!<\/p>\n<p>Por um desses mist\u00e9rios de que s\u00e3o capazes os atores, Othon &#8216;est\u00e1&#8217; Tancredo Neves. A semelhan\u00e7a impressiona. &#8220;Voc\u00ea acha?&#8221;, ele pergunta. Othon filma O Paciente, e o longa de S\u00e9rgio Rezende \u00e9 sobre a agonia do presidente que n\u00e3o foi. O cineasta baseou-se no livro O Paciente &#8211; O Caso Tancredo Neves, de Lu\u00eds Mir. Tancredo, o conciliador, construiu a passagem do regime militar para a democracia no Brasil. Foi eleito no Col\u00e9gio Eleitoral, pois n\u00e3o havia diretas, mas nunca tomou posse. A trag\u00e9dia brasileira. \u00c0s v\u00e9speras de ser empossado, Tancredo sentiu-se mal, foi levado ao hospital em Bras\u00edlia e a\u00ed se iniciou uma s\u00e9rie de procedimentos que o levou a morrer, ao cabo de 36 dias, em outro hospital, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Tancredo?&#8221; Othon Bastos j\u00e1 havia trabalhado em filmes de S\u00e9rgio Rezende e, em Mau\u00e1, foi o antagonista de Paulo Betti, que fazia o protagonista. &#8220;O S\u00e9rgio me mandou o roteiro, queria que eu lesse. Pensei que faria um dos m\u00e9dicos, mas a\u00ed ele me disse o que estava pensando. Tancredo, eu? Ele me perguntou se teria problema em raspar parcialmente o cabelo, e o problema, claro, n\u00e3o era esse. O problema era me investir dessa figura tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Tancredo faz parte do nosso imagin\u00e1rio, do meu. Mas, depois de ler, pesquisar, fui percebendo a enormidade da trag\u00e9dia. Tenho a impress\u00e3o que esse homem se preparou a vida toda para ser presidente do Brasil. Chegou pertinho, e no \u00faltimo momento foi tra\u00eddo por seu corpo.&#8221;<\/p>\n<p>Nesse dia, em especial, no set montado na Universidade Santa \u00darsula, em Botafogo, Rezende vai filmar o come\u00e7o de tudo. Tancredo sente-se mal, \u00e9 levado ao Hospital de Base. Tenta convencer os m\u00e9dicos de que est\u00e1 bem. Diz que tomar\u00e1 posse e depois voltar\u00e1 ao hospital e poder\u00e1 ser operado. Os m\u00e9dicos o convencem de que n\u00e3o h\u00e1 tempo. &#8220;Tancredo queria ser presidente, mas n\u00e3o creio que sua preocupa\u00e7\u00e3o fosse pessoal. Era com o Brasil. Ele temia que os militares n\u00e3o empossassem seu vice, Jos\u00e9 Sarney, a quem consideravam um traidor. O \u00faltimo presidente militar, o (Jo\u00e3o) Figueiredo, respeitava, ou aceitava, o Tancredo, mas dizia que n\u00e3o ia apertar a m\u00e3o do Sarney. E o Tancredo temia por isso.&#8221;<\/p>\n<p>O protagonista de O Paciente passa boa parte do tempo deitado, sendo operado, em recupera\u00e7\u00e3o. Delira, e numa dessas cenas v\u00ea-se diante da rampa do Pal\u00e1cio do Planalto. &#8220;\u00c9 muito forte, porque ele n\u00e3o consegue subir. As pernas paralisam. Outro dia, fiquei 12 horas deitado, de bra\u00e7os abertos. A equipe toda, o S\u00e9rgio ficavam ao redor, preocupados, mas faz parte. Ajuda a internalizar o personagem. E o Tancredo tinha pequenos gestos, uma maneira de passar o dedo na boca, que fui absorvendo e j\u00e1 saem ao natural.&#8221; Othon Bastos \u00e9 um ator do &#8216;m\u00e9todo&#8217;? Vive Tancredo 24 horas? &#8220;Eu, n\u00e3o! N\u00e3o conseguiria.<\/p>\n<p>Crio o personagem, mas tenho de manter certa dist\u00e2ncia.&#8221; E o rep\u00f3rter percebe isso. Tem atores que precisam se concentrar no set. &#8216;Entrar&#8217; no personagem. Em alguns, esse processo \u00e9 t\u00e3o intenso que vira folcl\u00f3rico. Irandhir Santos, por exemplo. A garota da produ\u00e7\u00e3o vem dizer que Othon precisa ir para a maquiagem. Ele faz um gesto vago com a m\u00e3o, meio despreocupado. Segue falando.<\/p>\n<p>Por que um filme sobre Tancredo, justo neste momento? &#8220;Eu acho que tem tudo a ver, e temos conversado muito, S\u00e9rgio (Rezende) e eu. O Brasil est\u00e1 t\u00e3o polarizado, dividido, que o que falta \u00e9 um Tancredo, com seu discurso moderado, conciliador.&#8221; O diretor, inclusive, esclarece que \u00e9 sua inten\u00e7\u00e3o lan\u00e7ar o filme no ano que vem &#8211; um ano eleitoral &#8211; como contribui\u00e7\u00e3o para o debate. &#8220;E voc\u00ea vai ver a import\u00e2ncia da Risoleta no filme. Esther G\u00f3es est\u00e1 fazendo lindamente&#8221;, informa Othon Bastos. Risoleta Neves, a mulher de Tancredo, era uma aristocrata mineira. Nunca se envolveu com a politicagem de Bras\u00edlia, mas esteve firme com o marido na campanha do Col\u00e9gio Eleitoral. &#8220;E, durante toda a fase da hospitaliza\u00e7\u00e3o, ela assumiu o comando. As mulheres do S\u00e9rgio sempre s\u00e3o fortes&#8221;, comenta Othon. Esther G\u00f3es vem conversar com o rep\u00f3rter. O tailleur discreto, o penteado, a maquiagem. Esther carrega uma pasta. Mostra fotos de Risoleta, do casal. A semelhan\u00e7a salta aos olhos. E a produtora, Marisa Le\u00e3o, que faz seu d\u00e9cimo filme com Rezende, o marido &#8211; &#8220;Fala s\u00e9rio, eram outros tempos. Havia eleg\u00e2ncia, classe. Hoje em dia est\u00e1 tudo muito vulgar.&#8221;<\/p>\n<p>O filme \u00e9 sobre o casal, sobre Tancredo e os m\u00e9dicos. Curioso &#8211; se Othon foi antagonista de Paulo Betti em Mau\u00e1, Betti, como m\u00e9dico, faz agora o antagonista de Othon\/Tancredo. Mas n\u00e3o foi de caso pensado. A morte no fim do caminho. A trag\u00e9dia brasileira &#8211; o que leva aos grandes diretores que esculpiram a persona de Othon Bastos no cinema. Glauber Rocha, dois filmes, Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Leon Hirszman, S\u00e3o Bernardo. Ambos morreram cedo. &#8220;Fazem uma falta danada. N\u00e3o para mim, para o Brasil. J\u00e1 pensou? O Brasil desse jeito seria mat\u00e9ria de muita reflex\u00e3o para Glauber, Leon.&#8221; O assunto volta ao &#8216;m\u00e9todo&#8217;. Othon imortalizou-se no cinema como Corisco. &#8220;Mas eu n\u00e3o era Corisco, nunca fui. Aquilo foi uma cria\u00e7\u00e3o magistral do Glauber, que tirou o Corisco de dentro de mim. Glauber era um barroco genial. Gostava do excesso. Eu rodopiava e ele pedia mais. Aquilo saiu da cabe\u00e7a dele.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 reportagem, Caio Blat contou como havia sido estressante a grava\u00e7\u00e3o do desfecho da novela Imp\u00e9rio. 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