{"id":164519,"date":"2017-12-24T10:54:24","date_gmt":"2017-12-24T12:54:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=164519"},"modified":"2017-12-24T10:54:24","modified_gmt":"2017-12-24T12:54:24","slug":"tecnica-que-muda-dna-pode-combater-doencas-geneticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tecnica-que-muda-dna-pode-combater-doencas-geneticas\/","title":{"rendered":"T\u00e9cnica que muda DNA pode combater doen\u00e7as gen\u00e9ticas"},"content":{"rendered":"<p>Cezar Xavier carregou durante toda a vida o peso gen\u00e9tico de uma doen\u00e7a que acreditava ser incur\u00e1vel. Aos 14 anos, viu a m\u00e3e desenvolver os primeiros sintomas de uma forma heredit\u00e1ria de esclerose lateral amiotr\u00f3fica (ELA) e sabia, desde ent\u00e3o, que o risco de ter a doen\u00e7a era de 50%. Por volta dos 40 anos, suas pernas e bra\u00e7os come\u00e7aram a fraquejar, confirmando o diagn\u00f3stico que os testes gen\u00e9ticos da \u00e9poca ainda n\u00e3o eram capazes de fornecer: que a muta\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela doen\u00e7a estava, sim, embutida em seu DNA.<\/p>\n<p>Nesse meio tempo, Xavier viu muitos de seus parentes sucumbirem \u00e0 doen\u00e7a, que ataca os neur\u00f4nios motores do sistema nervoso central, causando degenera\u00e7\u00e3o muscular, paralisia e fal\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Hoje, aos 74 anos, por\u00e9m, ele nunca esteve t\u00e3o esperan\u00e7oso. &#8220;At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, parecia que tudo que estava sendo feito era para os nossos filhos ou netos. Agora, pela primeira vez, estamos nos dando o direito de sonhar como uma solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 para a nossa gera\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o cirurgi\u00e3o aposentado, falando por telefone de sua &#8220;casa na ro\u00e7a&#8221; em Ipanema, pequeno munic\u00edpio do sudeste mineiro.<\/p>\n<p>O motivo de tanta esperan\u00e7a reside em uma tecnologia revolucion\u00e1ria conhecida como crisper (CRISPR-Cas9, na sigla em ingl\u00eas), que permite aos cientistas fazer altera\u00e7\u00f5es no DNA de forma simples e r\u00e1pida. Funciona como um editor de texto gen\u00e9tico, pelo qual \u00e9 poss\u00edvel corrigir ou apagar palavras (genes) que est\u00e3o soletradas erradas no genoma humano &#8211; abrindo, assim, a possibilidade de se desfazer ou silenciar muta\u00e7\u00f5es relacionadas a doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Criado em 2013, nos Estados Unidos, o sistema crisper se tornou um fen\u00f4meno global instant\u00e2neo, adotado por milhares de laborat\u00f3rios ao redor do mundo como ferramenta b\u00e1sica de edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. E voltou a ser not\u00edcia em agosto deste ano, quando cientistas colocaram em pr\u00e1tica a aplica\u00e7\u00e3o mais pol\u00eamica da t\u00e9cnica: a edi\u00e7\u00e3o do DNA de embri\u00f5es humanos.<\/p>\n<p>Um grupo de pesquisadores americanos e chineses utilizou o crisper para corrigir uma muta\u00e7\u00e3o no genoma de embri\u00f5es humanos produzidos por fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro. O trabalho, publicado na revista Nature, alimentou uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es sobre as limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e \u00e9ticas da manipula\u00e7\u00e3o do genoma humano, tornada muito mais simples pelo crisper. Seria este o primeiro cap\u00edtulo de uma nova era de seres humanos geneticamente modificados pela ci\u00eancia?<\/p>\n<p>Os embri\u00f5es &#8220;crispados&#8221; n\u00e3o chegaram a ser implantados, mas eram vi\u00e1veis e poderiam, teoricamente, ter gerado beb\u00eas livres da muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em adultos, o desafio \u00e9 maior, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. V\u00e1rios laborat\u00f3rios ao redor do mundo j\u00e1 est\u00e3o trabalhando com o crisper para aumentar a efic\u00e1cia &#8211; e a seguran\u00e7a &#8211; das t\u00e9cnicas de terapia g\u00eanica, que buscam corrigir muta\u00e7\u00f5es em c\u00e9lulas doentes do organismo. Os primeiros testes cl\u00ednicos j\u00e1 est\u00e3o em andamento na China e nos Estados Unidos, para o tratamento de c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Os resultados obtidos at\u00e9 agora em modelos animais s\u00e3o promissores. Em um trabalho publicado na semana passada, tamb\u00e9m na Nature, cientistas usaram crisper para reverter a surdez cong\u00eanita de camundongos que nasceram com uma muta\u00e7\u00e3o no gene Tmc1.<\/p>\n<p>No caso da fam\u00edlia Xavier, o alvo seria uma vers\u00e3o modificada do gene VAP-B, respons\u00e1vel por uma forma heredit\u00e1ria de esclerose lateral amiotr\u00f3fica chamada ELA8.<\/p>\n<p>A muta\u00e7\u00e3o foi identificada em 2004 pelo grupo da geneticista Mayana Zatz, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Ela agora coordena um projeto de pesquisa com dezenas de membros da fam\u00edlia de Xavier, que envolve o uso de crisper para &#8220;nocautear&#8221; (desligar) a vers\u00e3o defeituosa do gene em c\u00e9lulas in vitro e ver o que acontece com elas.<\/p>\n<p>Dependendo dos resultados, poderia se pensar em uma terapia g\u00eanica para ELA8 no futuro. &#8220;\u00c9 uma tecnologia extremamente promissora, com um futuro muito grande no caso de doen\u00e7as gen\u00e9ticas&#8221;, aposta ela.<\/p>\n<p>Aos 74 anos, Xavier \u00e9 um sonhador realista. Ele sabe que nocautear a muta\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai reverter os estragos j\u00e1 causados ao seu corpo nesse est\u00e1gio da vida. Mas quem sabe numa pessoa mais jovem, em que a doen\u00e7a ainda n\u00e3o se manifestou &#8211; como sua filha, de 30 anos? &#8220;N\u00e3o penso tanto em cura, mas pelo menos num controle da doen\u00e7a&#8221;, diz ele. &#8220;J\u00e1 seria um avan\u00e7o tremendo.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas outras muta\u00e7\u00f5es associadas a diferentes formas de esclerose lateral amiotr\u00f3fica; mas, neste caso da doen\u00e7a heredit\u00e1ria, ela \u00e9 causada pela altera\u00e7\u00e3o deste \u00fanico gene. Cerca de 10 mil doen\u00e7as desse tipo, chamadas monog\u00eanicas, s\u00e3o conhecidas da ci\u00eancia, e poderiam potencialmente se beneficiar da t\u00e9cnica de crisper.<\/p>\n<p>A possibilidade de se modificar o DNA de embri\u00f5es humanos com relativa facilidade &#8211; gra\u00e7as ao crisper &#8211; \u00e9 vista com entusiasmo e cautela pela comunidade cient\u00edfica internacional, que vem debatendo o assunto intensamente nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Em uma confer\u00eancia realizada em 2015, as Academias Nacionais de Ci\u00eancia, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos conclu\u00edram que a t\u00e9cnica s\u00f3 deveria ser usada para fins de pesquisa em laborat\u00f3rio, e n\u00e3o para a implanta\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es no \u00fatero. Agora, em um novo relat\u00f3rio lan\u00e7ado no in\u00edcio deste ano, a conclus\u00e3o \u00e9 de que ela pode, sim, ser usada para fins de reprodu\u00e7\u00e3o humana, desde que seja para evitar a ocorr\u00eancia de doen\u00e7as graves e sem cura.<\/p>\n<p>Ainda assim, muitos acreditam que a principal aplica\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica ser\u00e1 para fins de pesquisa, visto que j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel evitar a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as gen\u00e9ticas pela sele\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es sadios, em vez de tentar corrigir aqueles que t\u00eam a muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Como ferramenta de pesquisa \u00e9 uma coisa extremamente poderosa&#8221;, diz a pesquisadora Lygia Pereira, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP. Para fins reprodutivos, &#8220;\u00e9 mais f\u00e1cil selecionar do que editar&#8221;.<\/p>\n<p>A arquiteta J\u00falia Xavier, de Belo Horizonte, viveu essa situa\u00e7\u00e3o Ao saber que tinha herdado a muta\u00e7\u00e3o ELA8 do pai, Cezar, ela optou por fazer uma fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e selecionar os embri\u00f5es livres da doen\u00e7a. Desse processo nasceram os g\u00eameos Th\u00e9o e Giovanna.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria de seus parentes, que preferem n\u00e3o saber, J\u00falia fez quest\u00e3o de se testar para descobrir se era portadora da muta\u00e7\u00e3o. Aos 30 anos, ela ainda n\u00e3o tem sintomas, mas sabe que eles v\u00e3o aparecer. &#8220;Conviver com a d\u00favida para mim era muito pior&#8221;, justifica.<\/p>\n<p>Sobre a possibilidade de um dia, quem sabe, fazer uma terapia g\u00eanica com crisper para desligar a muta\u00e7\u00e3o em seu organismo, J\u00falia diz que &#8220;seria cobaia na certa&#8221;. Ela tamb\u00e9m participa do projeto de pesquisa da geneticista Mayana Zatz.<\/p>\n<p>Mayana concorda que \u00e9 mais f\u00e1cil selecionar embri\u00f5es, mas lembra que muitas mulheres produzem poucos e, por isso, podem n\u00e3o ter essa op\u00e7\u00e3o de escolha. Nesses casos, o crisper seria uma alternativa.<\/p>\n<p>O entusiasmo \u00e9 justificado, mas a cautela tamb\u00e9m, diz a pesquisadora Angela Saito, do Laborat\u00f3rio Nacional de Bioci\u00eancias (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, que utiliza crisper para gerar camundongos com muta\u00e7\u00f5es associadas a doen\u00e7as do sistema nervoso<\/p>\n<p>Apesar de ser uma t\u00e9cnica bastante eficiente, diz ela, o crisper n\u00e3o \u00e9 livre de riscos. O principal deles \u00e9 o de causar altera\u00e7\u00f5es em outras partes do genoma, al\u00e9m da muta\u00e7\u00e3o alvo. A acur\u00e1cia, segundo ela, varia de acordo com o gene e o organismo envolvidos na pesquisa. &#8220;Tem de pesar os riscos e os benef\u00edcios na balan\u00e7a&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Outra preocupa\u00e7\u00e3o, de natureza \u00e9tica, refere-se ao poss\u00edvel uso do crisper para fazer altera\u00e7\u00f5es no genoma n\u00e3o relacionadas \u00e0 cura de doen\u00e7as, mas a raz\u00f5es &#8220;cosm\u00e9ticas&#8221; ou visando \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de vantagens f\u00edsicas ou cognitivas, tipo for\u00e7a ou intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;O risco existe e temos de estar preparados&#8221;, diz o m\u00e9dico Dirceu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bio\u00e9tica. &#8220;A pesquisa tem de ser incentivada, sempre; mas deve ser feita da maneira correta, com regras claras e com precau\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o preocupa\u00e7\u00f5es importantes, \u00e0s quais as ag\u00eancias regulat\u00f3rias precisar\u00e3o estar atentas&#8221;, avalia Angela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cezar Xavier carregou durante toda a vida o peso gen\u00e9tico de uma doen\u00e7a que acreditava ser incur\u00e1vel. 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