{"id":164555,"date":"2017-12-25T11:13:16","date_gmt":"2017-12-25T13:13:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=164555"},"modified":"2017-12-25T11:13:16","modified_gmt":"2017-12-25T13:13:16","slug":"chaplin-40-anos-depois-deixou-um-legado-que-todos-desejam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chaplin-40-anos-depois-deixou-um-legado-que-todos-desejam\/","title":{"rendered":"Chaplin, 40 anos depois, deixou um legado que todos desejam"},"content":{"rendered":"<div id=\"Corpo\">\n<p>Completam-se, neste Natal, 40 anos da morte de Charles Chaplin. Ele morreu em 25 de dezembro de 1977 e, quase sem exce\u00e7\u00e3o, todos os obitu\u00e1rios destacaram a import\u00e2ncia da data. Claro, ningu\u00e9m escolhe o dia em que vai morrer, mas faz todo sentido que Chaplin, criador de um personagem imortal &#8211; Carlitos -, tenha se despedido justamente no dia em que a cristandade festeja o nascimento de Jesus Cristo. Jesus \u00e9 amor, proclamam os crist\u00e3os. Seu nascimento \u00e9 signo de esperan\u00e7a &#8211; o Messias que os judeus n\u00e3o reconhecem e ainda esperam.<\/p>\n<p>Carlitos tinha\/tem tudo a ver com esse esp\u00edrito de humanidade e fraternidade. Vagabundo, sapatos rotos, chap\u00e9u e bengala, ele se equilibra sobre os pr\u00f3prios passos, sempre enfrentando o poder, em todas as suas formas. O policial, o capitalista s\u00e3o seus arqui-inimigos. Sem um n\u00edquel, Carlitos comeu os cadar\u00e7os do seu sapato, como se fossem fios de espaguete, para matar a fome (<i>Em Busca do Ouro<\/i>), protegeu o menino \u00f3rf\u00e3o (<i>O Garoto<\/i>), devolveu a vis\u00e3o \u00e0 garota cega (<i>Luzes da Cidade<\/i>), enfrentou a automa\u00e7\u00e3o (<i>Tempos Modernos<\/i>). Chaplin, agora n\u00e3o \u00e9 mais Carlitos, foi um dos construtores da linguagem, fazendo avan\u00e7ar as t\u00e9cnicas de narra\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. A quest\u00e3o \u00e9: na lembran\u00e7a desses 40 anos, qual \u00e9 o legado de Chaplin?<\/p>\n<p>Ingrid Guimar\u00e3es, uma das atrizes mais conhecidas de cinema e TV do Brasil, recordista de p\u00fablico com sua s\u00e9rie\u00a0<i>De Pernas pro Ar<\/i>\u00a0&#8211; na quinta, 28, ela estreia\u00a0<i>Fala S\u00e9rio, M\u00e3e<\/i>\u00a0-, o tem em alt\u00edssima conta. &#8220;Chaplin \u00e9 a minha maior refer\u00eancia de humor. Sou louca por ele. Tenho todos os seus filmes. Essa mistura po\u00e9tica entre humor e emo\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo o que almejo. Esse vagabundo desastrado, genial, atemporal. Meu favorito \u00e9\u00a0<i>O Garoto<\/i>. Choro todas as vezes em que eles se reencontram.&#8221;<\/p>\n<p>Na contracorrente, F\u00e1bio Porchat, igualmente conhecido do cinema, TV e internet, emite uma opini\u00e3o que pode ser pol\u00eamica. &#8220;O humor pode ser cruel, porque envelhece muito r\u00e1pido, e o Chaplin envelheceu. N\u00e3o creio que o jovem de hoje tenha o mesmo interesse por ele. \u00c9 importante, a resist\u00eancia dele em\u00a0<i>O Grande Ditador<\/i>, o discurso final, mas \u00e9 meio pe\u00e7a de museu. Representa outra \u00e9poca.&#8221;<\/p>\n<p>E Renato Arag\u00e3o, o Didi, a alma dos Trapalh\u00f5es? &#8220;(Chaplin) \u00c9 uma das minhas maiores refer\u00eancias, ao lado de Oscarito e Carmem Miranda. Com ele, passei a olhar a melhor maneira de se usar o corpo com gra\u00e7a, mas sem exagero. E poucos conseguem fazer chorar da mesma forma, com o mesmo gestual.&#8221; Jarbas Homem de Mello, que estudou muito a obra e a vida de Chaplin para fazer o musical de 2015, reflete: &#8220;Ele foi um g\u00eanio do seu tempo, porque encontrou sua arte num momento oportuno, quando o cinema estava se criando. A partir da\u00ed, Chaplin foi fundo, ao colocar em seu personagem, Carlitos, todas as nuances do ser humano e deixando para os artistas que viriam depois um legado &#8211; saber como desvendar e colocar em sua interpreta\u00e7\u00e3o o lado bom e o lado mau&#8221;.<\/p>\n<p>Jarbas toca num ponto essencial &#8211; o artista e seu tempo. Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, em 16 de abril de 1889. Os pais eram artistas de music hall e se separaram quando ele tinha 3 anos. O pai era alco\u00f3latra e morreu de cirrose quando Chaplin tinha 12 anos. Foi enterrado numa vala comum. A m\u00e3e era cantora, mas sofria de problemas mentais. Teve diversas interna\u00e7\u00f5es. Numa delas, uma infec\u00e7\u00e3o de laringe impediu-a de cantar. Foi o fim. Face a tanta adversidade, o pequeno Chaplin foi guerreiro. Perseverou. De 1910 a 12, participou de uma primeira turn\u00ea pela Am\u00e9rica, integrando a trupe de Fred Karno. Regressou \u00e0 Inglaterra e, de novo em 1912, e outra vez com Karno, voltou aos EUA.<\/p>\n<p>Da trupe, participava um certo Arthur Stanley Jefferson, que mais tarde ficou famoso como Stan Laurel, formando dupla com Oliver Hardy &#8211; O Gordo e o Magro. Em 1913, Mack Sennett impressionou-se com o n\u00famero de Chaplin e o contratou para sua companhia, a Keystone. Foi um desastre, e o pr\u00f3prio Chaplin convenceu-se de que n\u00e3o levava jeito para o cinema. Salvou-o Mabel Normand, que n\u00e3o apenas percebeu o potencial do jovem Charles, como convenceu Sennett a dar-lhe outra chance.<\/p>\n<p>Chaplin odiava ser dirigido por Mabel, mas com ela adquiriu popularidade. Na Keystone, criou e aprimorou seu personagem de &#8220;vagabundo&#8221;. Charlot, na Fran\u00e7a, Carlitos no Brasil (e na Argentina), der Vagabunbd, na Alemanha.<\/p>\n<p>O g\u00eanio de Chaplin foi perceber que podia usar o movimento acelerado na imagem, quando o filme era projetado a 18 quadros por segundo, no per\u00edodo silencioso, para obter um efeito c\u00f4mico. Tudo parecia correr na tela, os carros, na era anterior \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o, eram bichos dom\u00e9sticos. Quando o cinema come\u00e7ou a falar, e os filmes passaram a ser projetados a 24 quadros por segundo, Chaplin resistiu quanto p\u00f4de.\u00a0<i>Luzes da Cidade<\/i>\u00a0tem partitura, mas os di\u00e1logos seguem de cartela. Em\u00a0<i>Tempos Modernos<\/i>, Chaplin incorpora o som, mas ainda \u00e9 um di\u00e1logo absurdo, que n\u00e3o faz sentido (e vira, em si mesmo, um efeito c\u00f4mico). Finalmente, em\u00a0<i>O Grande Ditador<\/i>, ele incorpora a palavra, e o discurso final do barbeiro \u00e9 uma s\u00edntese do credo humanista de Chaplin. A palavra contra o autoritarismo.<\/p>\n<p>Como diz Jarbas Homem de Mello, Chaplin foi dos \u00faltimos cineastas, daquele tempo, a acreditar no cinema falado. &#8220;Quando o fez, valorizou a palavra mais que qualquer outro. Nenhuma palavra \u00e9 gratuita em seu cinema. A valoriza\u00e7\u00e3o da palavra e do sil\u00eancio \u00e9 uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es de Chaplin.&#8221; Lu\u00eds Lobianco, que fez seu aprendizado na internet e no stand-up, conta que Chaplin talvez seja sua experi\u00eancia mais antiga de cinema. Quem lhe apresentou Carlitos foi sua av\u00f3. &#8220;Naquela \u00e9poca, eu tinha um olhar, uma compreens\u00e3o.\u00a0<i>O Garoto<\/i>\u00a0foi uma revela\u00e7\u00e3o, permanece meu favorito. Hoje, j\u00e1 adulto, maduro &#8211; espero -, vejo Chaplin como uma inspira\u00e7\u00e3o para a minha gera\u00e7\u00e3o porque ele, como todos n\u00f3s, foi autoral e usou as ferramentas do cinema e do humor para refletir sobre o homem no mundo, a injusti\u00e7a. Que sua reflex\u00e3o ainda permane\u00e7a atual \u00e9 prova de qu\u00e3o pouco, no fundo, as coisas mudaram.&#8221;<\/p>\n<p>Ou, ent\u00e3o, \u00e9 a m\u00e1xima viscontiana do Pr\u00edncipe Salinas em\u00a0<i>O Leopardo<\/i>: &#8220;As coisas mudam (precisam mudar) para que tudo permane\u00e7a o mesmo&#8221;.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio Duvivier (talvez o mais &#8220;cabe\u00e7a&#8221; dos humoristas brasileiros &#8211; \u00e9 um admir\u00e1vel cronista) destaca a for\u00e7a desse Chaplin &#8220;pensador&#8221;. Ele n\u00e3o pensava apenas o homem e o mundo. Pensava o fazer cinema. Duvivier \u00e9 capaz de ficar horas falando do seu Chaplin &#8211; o de\u00a0<i>Luzes da Cidade<\/i>. &#8220;Conta que ele ficou muito tempo empacado, com o filme parado, porque n\u00e3o conseguia resolver o impasse. A quest\u00e3o \u00e9 que a garota \u00e9 cega e, quando Carlitos a toma sob sua prote\u00e7\u00e3o, ela pensa que \u00e9 milion\u00e1rio. Quando recupera a vis\u00e3o e descobre que \u00e9 um vagabundo, a decep\u00e7\u00e3o \u00e9 grande &#8211; para ambos. Chaplin quebrou a cabe\u00e7a at\u00e9 ter a ideia do som. \u00c9 o som da porta de um carro batendo que cria, no imagin\u00e1rio da mulher, a ideia do Carlitos rico. Em 1931, ele j\u00e1 usava o som para contar sua hist\u00f3ria e fazer avan\u00e7ar a linguagem.&#8221;<\/p>\n<p>Foi um dos diretores fundadores e, influenciado por seus mestres Max Linder, Georges M\u00e9li\u00e8s, D. W. Griffith e Luis e Auguste Lumi\u00e8re, desenvolveu uma linguagem pr\u00f3pria muito rica, que tamb\u00e9m incorporou m\u00edmica, pantomima e pastel\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensar o cinema, e a sociedade. A obra de Chaplin atravessou as duas grandes guerras, e ele zombou dos ditadores. &#8220;Embora\u00a0<i>Luzes da Cidade<\/i>\u00a0seja meu preferido, creio que\u00a0<i>O Grande Ditador<\/i>\u00a0\u00e9 outra obra-prima. Ali, no calor da hora, ele se permitiu ser duro, e cr\u00edtico, com (Benito) Mussolini e (Adolph) Hitler. E o mais extraordin\u00e1rio \u00e9 que aquele discurso final, escrito e filmado em 1940, h\u00e1 77 anos, \u00e9 uma pe\u00e7a da maior atualidade. Vale para hoje&#8221;, acredita Duvivier.<\/p>\n<p>Essa atualidade, produto do comprometimento, fez com que, por volta de 1950, em plena era do macarthismo, Chaplin fosse considerado esquerdista e antiamericano. J. Edgar Hoover o considerava um inimigo pessoal e instruiu o FBI a criar um dossi\u00ea secreto sobre Chaplin, a quem sonhava banir dos EUA. Em 1952, foi para o exterior. Exilou-se com a fam\u00edlia &#8211; havia se casado com Oona O\u2019Neill, filha do escritor Eugene O\u2019Neill &#8211; na Su\u00ed\u00e7a, e l\u00e1 morreu. Voltou, em 1972, para receber um Oscar honor\u00e1rio. Tardiamente, a Academia fez-lhe justi\u00e7a, aplaudindo-o de p\u00e9. Nos 40 anos de sua morte, a obra de Chaplin segue viva. E \u00e9 necess\u00e1ria, nos tempos obscuros que vivemos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Completam-se, neste Natal, 40 anos da morte de Charles Chaplin. Ele morreu em 25 de dezembro de 1977 e, quase sem exce\u00e7\u00e3o, todos os obitu\u00e1rios destacaram a import\u00e2ncia da data. 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