{"id":164689,"date":"2017-12-26T13:25:19","date_gmt":"2017-12-26T15:25:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=164689"},"modified":"2017-12-26T13:29:24","modified_gmt":"2017-12-26T15:29:24","slug":"o-quanto-o-pessimismo-pode-nos-paralisar-diante-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-quanto-o-pessimismo-pode-nos-paralisar-diante-da-vida\/","title":{"rendered":"O quanto o pessimismo pode nos paralisar diante da vida"},"content":{"rendered":"<p>Frente \u00e0 descren\u00e7a total, tudo indica que temos op\u00e7\u00f5es para fazer surgir dias melhores.<br \/>\nEm uma entrevista \u00e0 r\u00e1dio p\u00fablica sueca Studio Ett, em 2016, uma ouvinte descreveu a situa\u00e7\u00e3o do mundo como &#8220;desgra\u00e7a e desola\u00e7\u00e3o por toda parte&#8221;.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil discordar dela com a maior crise de refugiados da Hist\u00f3ria, ataques terroristas frequentes, fome, assassinatos, crimes impunes, enchentes, aquecimento global, intoler\u00e2ncia tomada como pol\u00edtica p\u00fablica, enfraquecimento de democracias e falta de confian\u00e7a nos pr\u00f3prios representantes.<\/p>\n<p>Pouco antes de morrer, aos 90 anos, o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, not\u00f3rio por seus conceitos de modernidade l\u00edquida e amor l\u00edquido, transformou suas conversas com o jornalista e escritor italiano Ezio Mauro no livro Babel: Entre a Incerteza e a Esperan\u00e7a (Zahar). Com um olhar cr\u00edtico sobre as rela\u00e7\u00f5es humanas, ele descreve uma situa\u00e7\u00e3o bastante familiar para n\u00f3s brasileiros:<\/p>\n<p>&#8220;Cada vez menos os eleitores confiam nas promessas feitas pelas pessoas que elegem para governar; amargamente descrentes por causa das promessas n\u00e3o cumpridas do passado, os eleitores n\u00e3o chegam a esperar que desta vez as promessas sejam cumpridas. Com frequ\u00eancia cada vez maior, os eleitores apenas procedem mecanicamente \u2013 mais guiados por seus h\u00e1bitos adquiridos que por alguma esperan\u00e7a de mudan\u00e7a para melhor ensejada pelo seu voto. Na melhor das hip\u00f3teses, eles v\u00e3o \u00e0s cabines eleitorais para escolher males menores.&#8221;<\/p>\n<p>O di\u00e1logo prossegue com Mauro, que endossa a observa\u00e7\u00e3o de Bauman:<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas n\u00e3o votam mais, ou o fazem com indiferen\u00e7a, sem paix\u00e3o ou pelo menos sem muita convic\u00e7\u00e3o; elas n\u00e3o acreditam no direito de votar como o meio mais efetivo de recompensar, punir e escolher.&#8221;<\/p>\n<p>As afirma\u00e7\u00f5es de Bauman e Mauro s\u00e3o globais, mas encontram resson\u00e2ncia particular nos lares brasileiros: junto com os espanh\u00f3is e os franceses, somos o povo que menos confia em pol\u00edticos, segundo uma pesquisa da organiza\u00e7\u00e3o GfK Verein, feita em 27 pa\u00edses. Bombardeados diariamente com den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e de esquemas fraudulentos, \u00e9 dif\u00edcil esperar uma atitude perseverante. A resposta a isso, muitas das vezes, tem sido o asco, a melancolia e o afastamento de tudo que envolva pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP e doutor em Filosofia pela Universidade de Paris VIII, Vladimir Safatle chama a aten\u00e7\u00e3o para os efeitos da melancolia fomentada por aqueles que est\u00e3o no poder. A reflex\u00e3o, feita durante uma participa\u00e7\u00e3o no programa Caf\u00e9 Filos\u00f3fico, produzido pelo Instituto CPFL, parte do conceito freudiano estabelecido no texto Luto e Melancolia (1915), no qual a melancolia \u00e9 caracterizada por &#8220;um des\u00e2nimo profundamente doloroso, uma suspens\u00e3o do interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibi\u00e7\u00e3o de toda atividade e um rebaixamento do sentimento de autoestima, que se expressa em autorrecrimina\u00e7\u00f5es e autoinsultos, chegando at\u00e9 \u00e0 expectativa delirante de puni\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Em vez da rea\u00e7\u00e3o a uma pessoa amada que se foi, poder\u00edamos pensar na melancolia por um ideal perdido, argumenta Safatle.<\/p>\n<p>&#8220;Falar que o poder nos melancoliza significa dizer que um dos eixos fundamentais de sustenta\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e a lembran\u00e7a cont\u00ednuas do nosso v\u00ednculo a um ideal, a uma promessa que se perdeu. A fala p\u00fablica das pessoas melanc\u00f3licas \u00e9 uma resigna\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. &#8216;Tentamos tanto e deu tudo t\u00e3o errado&#8217;. &#8216;Acreditamos tanto e olha s\u00f3 o que aconteceu&#8217;. &#8216;Investimos tanto e o resultado foi t\u00e3o pouco&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto alguns diriam que essas frases s\u00e3o realistas ou fruto da sabedoria de quem leva em conta os fatos como eles s\u00e3o, Safatle afirma que s\u00e3o apenas melancolia. E ela alimenta o medo da mudan\u00e7a por um povo.<\/p>\n<p>&#8220;Ningu\u00e9m pede para voc\u00ea ter uma convic\u00e7\u00e3o. Em vez disso, pede para voc\u00ea ter uma rejei\u00e7\u00e3o e um medo a qualquer outra alternativa porque ela \u00e9 considerada como ruim. N\u00e3o \u00e9 que a que voc\u00ea tem seja boa &#8211; \u00e9 que as outras s\u00e3o ruins. Ningu\u00e9m pede para voc\u00ea acreditar que as normas da nossa sociedade sejam justas. Pede para voc\u00ea imaginar que qualquer mudan\u00e7a ser\u00e1 pior do que o que se tem.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo o professor de Filosofia, com a melancolia produzida e explorada pelo poder, os sujeitos se veem marcados pela impot\u00eancia e pela paralisia, cuja fun\u00e7\u00e3o fundamental \u00e9 bloquear toda e qualquer imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ele cita como exemplo o desencantamento em nossa \u00e9poca, apurado por pesquisas em que boa parte da popula\u00e7\u00e3o mundial diz acreditar que a vida dos seus filhos vai ser pior do que a vida que eles tiveram.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 nessa paralisia que o processo de poder se garante. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de produzir situa\u00e7\u00f5es ainda imposs\u00edveis. Mas tem certas \u00e9pocas em que toda uma popula\u00e7\u00e3o entra em paralisia e perde a cren\u00e7a na sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o, na sua pr\u00f3pria capacidade de produzir sa\u00eddas e alternativas. E a pergunta \u00e9 se n\u00f3s no Brasil n\u00e3o estamos de fato entrando em uma era melanc\u00f3lica, em que a experi\u00eancia da imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 colocada em quest\u00e3o porque o pr\u00f3prio campo da pol\u00edtica \u00e9 colocado em quest\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com Safatle, o afastamento dos cidad\u00e3os do campo da pol\u00edtica se reflete em posturas individuais, com pessoas se engajando menos na vida social e com a impress\u00e3o de que nenhuma transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 um interesse em fazer com que as pessoas acreditem nisso e se desengajem, porque o Estado n\u00e3o desaparece, nem sua for\u00e7a policial, ou sua classe pol\u00edtica. Continuam l\u00e1. Mas a\u00ed ningu\u00e9m mais olha para esse espa\u00e7o como um espa\u00e7o que lhe implique tamb\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Esse sumi\u00e7o de tudo que tenha a ver com pol\u00edtica parece vir bem a calhar para cada um de n\u00f3s, j\u00e1 que &#8220;ningu\u00e9m presta&#8221;. Quem nunca se cansou das not\u00edcias de roubos e conchavos para o enriquecimento il\u00edcito? Conversas pessoais ou opini\u00f5es compartilhadas via redes sociais transmitem o recado de um cansa\u00e7o bastante melanc\u00f3lico. Mas a professora de Filosofia Marcia Tiburi destaca o problema desse distanciamento em seu livro Rid\u00edculo Pol\u00edtico (Editora Record):<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 quem esque\u00e7a que o todo da vida \u00e9 pol\u00edtico. Precisamos saber que pol\u00edtica \u00e9 o todo da vida porque n\u00e3o se vive a vida humana como indiv\u00edduo ou esp\u00e9cie sem que estejamos relacionados uns aos outros e, inevitavelmente, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Em outras palavras, por sermos seres dependentes de rela\u00e7\u00f5es humanas, a pol\u00edtica \u00e9 essencial para nossa vida. A reuni\u00e3o de condom\u00ednio, a fila da padaria, a troca de conselhos s\u00e3o uma vida pol\u00edtica. Ao enfatizar a import\u00e2ncia da persist\u00eancia e evocar a criatividade, Tiburi parece corroborar com a defesa da imagina\u00e7\u00e3o proposta por Safatle.<\/p>\n<p>&#8220;Impotentes diante da deturpa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, dominados e enganados pela administra\u00e7\u00e3o astuciosa da apar\u00eancia, uns se ressentem, deprimem, tentam adequar-se, enquanto outros se aproveitam. Inevitavelmente, precisamos nos perguntar como sairemos disso, como desmancharemos esse processo, como desmontaremos o dispositivo est\u00e9tico-pol\u00edtico da publicidade pol\u00edtica. Sabemos que \u00e9 preciso pensar, que \u00e9 preciso refletir, que \u00e9 preciso produzir outras narrativas capazes de recriar o mundo das subjetividades aut\u00f4nomas e libert\u00e1rias.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 na esteira do pessimismo e de discursos fatalistas \u2013 &#8220;o mundo n\u00e3o tem mais jeito&#8221; \u2013 que crescem algumas das ret\u00f3ricas mais intolerantes e excludentes, alerta o documentarista sueco Johan Norberg, autor do livro Progresso (Editora Record), lan\u00e7ado no Brasil este ano.<\/p>\n<p>&#8220;Essas percep\u00e7\u00f5es alimentam o medo e a nostalgia sobre os quais Donald Trump construiu sua campanha \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos. Em um referendo recente, 58% dos que votaram pela sa\u00edda da Gr\u00e3-Bretanha da Uni\u00e3o Europeia disseram achar que a vida est\u00e1 pior hoje do que h\u00e1 30 anos.&#8221;<\/p>\n<p>Norberg tomou para si o desafio de escrever um livro otimista, no qual utiliza dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO), do Banco Mundial, da OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, da OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho) para mostrar que nunca na Hist\u00f3ria fizemos tanto progresso quanto nos \u00faltimos 100 anos. O sueco compara informa\u00e7\u00f5es e relat\u00f3rios sobre alimenta\u00e7\u00e3o, saneamento, expectativa de vida, pobreza, viol\u00eancia, meio ambiente, alfabetiza\u00e7\u00e3o, liberdade e igualdade, enfatizando este progresso como fruto do engajamento de muitas pessoas, de maneiras diferentes.<\/p>\n<p>&#8220;Calma a\u00ed&#8221;, parece dizer Norberg. Sob o v\u00e9u do pessimismo, dificilmente enxergamos este progresso compilado por ele. Nossas teorias sobre o quanto o mundo est\u00e1 acabando seriam produtos de nossa ignor\u00e2ncia ou hip\u00f3teses baseadas em informa\u00e7\u00f5es incorretas e desatualizadas? Para ele, s\u00e3o hip\u00f3teses muitas vezes formadas pela m\u00eddia, que refor\u00e7a uma maneira particular de olhar o mundo ao focar no que \u00e9 dramaticamente surpreendente, como m\u00e1s not\u00edcias, guerras, assassinatos e desastres naturais.<\/p>\n<p>&#8220;A despeito do que ouvimos nos telejornais e de muitas autoridades, a grande hist\u00f3ria de nossa era \u00e9 que estamos testemunhando o maior aumento nos padr\u00f5es de vida global de que j\u00e1 se teve not\u00edcia. Pobreza, desnutri\u00e7\u00e3o, analfabetismo, trabalho infantil e mortalidade neonatal decrescem mais rapidamente do que em qualquer outro per\u00edodo da hist\u00f3ria humana. Em rela\u00e7\u00e3o ao s\u00e9culo passado, a expectativa de vida no nascimento aumentou duas vezes mais do que nos 200 mil anos anteriores. O risco de que um indiv\u00edduo seja exposto \u00e0 guerra, submetido \u00e0 ditadura ou morra em um desastre natural \u00e9 o menor de todos os tempos. Uma crian\u00e7a nascida hoje tem mais chance de chegar \u00e0 aposentadoria que seus antepassados tinham de completar 5 anos de idade.&#8221;<\/p>\n<p>Imagina\u00e7\u00e3o, criatividade, conhecimento. Frente \u00e0 descren\u00e7a total, tudo indica que temos op\u00e7\u00f5es para fazer surgir dias melhores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frente \u00e0 descren\u00e7a total, tudo indica que temos op\u00e7\u00f5es para fazer surgir dias melhores. Em uma entrevista \u00e0 r\u00e1dio p\u00fablica sueca Studio Ett, em 2016, uma ouvinte descreveu a situa\u00e7\u00e3o do mundo como &#8220;desgra\u00e7a e desola\u00e7\u00e3o por toda parte&#8221;. 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