{"id":165230,"date":"2017-12-31T09:36:02","date_gmt":"2017-12-31T11:36:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=165230"},"modified":"2017-12-31T09:36:02","modified_gmt":"2017-12-31T11:36:02","slug":"brasileiro-deita-e-rola-fabricando-bitcoin-no-paraguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasileiro-deita-e-rola-fabricando-bitcoin-no-paraguai\/","title":{"rendered":"Brasileiro deita e rola fabricando bitcoin no Paraguai"},"content":{"rendered":"<p>Foi por acaso que o cearense Rocelo Lopez, de 45 anos, ficou milion\u00e1rio. Dono de uma empresa de tecnologia, ele aceitou, em 2013, a oferta de um cliente que queria quitar suas d\u00edvidas de uma forma nada convencional: pagaria tudo, mas com uma moeda at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, a bitcoin. &#8220;Era pegar ou largar. Eu decidi pegar e guardar&#8221;, conta. De l\u00e1 para c\u00e1, essa moeda teve uma valoriza\u00e7\u00e3o de 21.000%. S\u00f3 nos \u00faltimos 12 meses, foram 1.300%.<\/p>\n<p>Nenhum outro investimento formal conseguiu essa proeza, o que provocou um frenesi em torno da novidade por parte de investidores e levantou um alerta sobre o risco de uma bolha, por parte das autoridades monet\u00e1rias. A bitcoin \u00e9 uma moeda que n\u00e3o existe no mundo f\u00edsico, como as notas que carregamos na carteira. As transa\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam por bancos centrais nem por qualquer entidade regulat\u00f3ria. \u00c9 tudo virtual.<\/p>\n<p>Rocelo Lopez gostou da novidade e, ao tentar entender os meandros desse instrumento financeiro, descobriu que o dinheiro pesado viria n\u00e3o da compra e venda das moedas virtuais, mas da &#8220;produ\u00e7\u00e3o&#8221; delas. \u00c9 o que ele faz hoje no Paraguai.<\/p>\n<p>A emiss\u00e3o de bitcoins \u00e9 um processo industrial, de uso intensivo de energia el\u00e9trica, ainda n\u00e3o regulamentado em nenhum pa\u00eds. Lopez cruzou a Ponte da Amizade para reduzir custos, em busca de uma conta de luz mais barata, e acabou abrindo caminho para uma nova leva de jovens empres\u00e1rios brasileiros que atravessaram a fronteira para fabricar bitcoins.<\/p>\n<p><b>Equa\u00e7\u00f5es &#8211;\u00a0<\/b>Essa &#8220;produ\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 feita por supercomputadores, equivalentes a seis videogames de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o cada um, que realizam c\u00e1lculos matem\u00e1ticos de alta complexidade em mil\u00e9simos de segundos. Juntas, as m\u00e1quinas est\u00e3o ligadas a uma esp\u00e9cie de rede paralela na web. Tudo isso foi desenvolvido em 2009 por um programador an\u00f4nimo de computa\u00e7\u00e3o. Ele estabeleceu em seus c\u00f3digos computadorizados que, a cada dez minutos, o software da bitcoin lan\u00e7a uma equa\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica diferente na internet. O computador que desvendar primeiro a f\u00f3rmula \u00e9 recompensado com um lote de preciosos 12,5 bitcoins.<\/p>\n<p>Hoje, cerca de um milh\u00e3o de m\u00e1quinas funcionam ininterruptamente emitindo 3,6 mil novas unidades de bitcoins todos os dias e consumindo 30 terawatts por hora (Twh) de luz el\u00e9trica, mais do que um pa\u00eds como a Irlanda ou a Dinamarca. Segundo dados da empresa brit\u00e2nica Power Compare, o volume de eletricidade que j\u00e1 foi utilizado para colocar no mercado o estoque atual de bitcoins equivale ao consumo de 159 pa\u00edses por ano.<\/p>\n<p>Como todo produto, a viabilidade da moeda virtual depende do custo-benef\u00edcio de sua fabrica\u00e7\u00e3o. Para os brasileiros que est\u00e3o hoje dedicados a essa atividade, o valor da conta de luz \u00e9 o que mais pesa no bolso. Por isso, o Paraguai virou uma alternativa para alguns deles.<\/p>\n<p>Antonio Lin, dono de uma f\u00e1brica com 350 m\u00e1quinas, conta que o custo operacional pode ser quase dez vezes mais baixo no Paraguai em compara\u00e7\u00e3o com o Brasil. &#8220;Uma m\u00e1quina custa de US$ 2 mil a US$ 5 mil e, trabalhando, consegue se pagar em quatro meses, dependendo da cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar e do bitcoin. Mas a conta de luz, se for cara, coloca tudo a perder&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Um quilowatt custa para os fabricantes de bitcoin US$ 0,04 no pa\u00eds vizinho. No Brasil, o pre\u00e7o da energia mais barata \u00e9 sete vezes maior, em torno de US$ 0,28. Essa diferen\u00e7a se d\u00e1 porque o Paraguai ainda \u00e9 superavit\u00e1rio em eletricidade.<\/p>\n<p>Primeiro a se instalar em Ciudad del Este, Rocelo Lopez produz 8,3 bitcoins por dia, o que rende, segundo ele, um faturamento bruto de R$ 14,5 milh\u00f5es por m\u00eas. Hoje ele tem seis mil m\u00e1quinas em um espa\u00e7o de 750 metros quadrados. Elas consomem, por m\u00eas, 10 megawatts de energia, equivalente a 2 mil casas paraguaias &#8211; m\u00e9dia calculada com base nos dados da Ande, a estatal respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade no pa\u00eds. &#8220;Apesar de ser um neg\u00f3cio rent\u00e1vel, a bitcoin \u00e9 uma moeda vol\u00e1til. Temos de economizar bastante para n\u00e3o correr o risco de perder dinheiro&#8221;, afirma. Antes do Natal, em 24 horas, a moeda sofreu uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de 25%, com uma onda inesperada de vendas.<\/p>\n<p>Hoje, tr\u00eas grandes opera\u00e7\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o est\u00e3o em atividade na Ciudad del Este. Elas dividem um mesmo condom\u00ednio industrial a cerca de 20 km do lado brasileiro da Ponte da Amizade. A localiza\u00e7\u00e3o exata \u00e9 guardada sob sigilo pelos empres\u00e1rios, que temem principalmente pela seguran\u00e7a, al\u00e9m de receios com rela\u00e7\u00e3o a espionagem industrial.<\/p>\n<p><b>Sigilo &#8211;\u00a0<\/b>Esconder uma f\u00e1brica de bitcoin, entretanto, \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil. O barulho do sistema de ventila\u00e7\u00e3o das fontes de energia e o estalo dos HDs podem ser ouvido a um quarteir\u00e3o de dist\u00e2ncia. As f\u00e1bricas tamb\u00e9m operam sob forte calor e o respiro dos galp\u00f5es improvisados no teto e nas paredes entregam que, ali, as superm\u00e1quinas est\u00e3o em atividade. Com empres\u00e1rios jovens, sem forma\u00e7\u00e3o industrial e ainda sem o dom\u00ednio das principais tecnologias de refrigera\u00e7\u00e3o, a temperatura no interior de uma f\u00e1brica de bitcoin pode facilmente ultrapassar os 50\u00b0C.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um inferno l\u00e1 dentro&#8221;, diz Thiago da Silva Rodrigues, que tem 100 m\u00e1quinas em opera\u00e7\u00e3o em um espa\u00e7o locado dentro da empresa de Rocelo, mas est\u00e1 preparando um galp\u00e3o para instalar cerca de mil computadores. &#8220;O calor \u00e9 sufocante, \u00e9 dif\u00edcil trabalhar&#8221;, diz Fernando Zanatta, outro empres\u00e1rio do ramo. As m\u00e1quinas de bitcoin operam com uma fonte de alta rota\u00e7\u00e3o, que gera calor. &#8220;Se colocar ar-condicionado, o oxig\u00eanio condensa no teto da empresa e a \u00e1gua vai cair em forma de chuva aqui dentro. Vamos queimar todas as m\u00e1quinas&#8221;, diz Antonio Lin.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o contratar profissionais especializados e correr o risco de ter seus segredos desvendados, os brasileiros que foram &#8220;fabricar&#8221; bitcoins no Paraguai lan\u00e7aram m\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es caseiras e improvisadas para amenizar problemas como o da temperatura: criaram um t\u00fanel de vento com uma parede de radiadores refrigerados e fizeram buracos no teto para a troca de ar, por exemplo. Nenhum deles tem forma\u00e7\u00e3o para lidar com um processo fabril do porte que a atividade de emiss\u00e3o de moedas virtuais exige. S\u00e3o programadores, administradores de empresas e cientistas da informa\u00e7\u00e3o que mudaram de rumo para apostar no bitcoin.<\/p>\n<p>Em meio aos altos e baixos desse novo mercado, a empreitada no pa\u00eds vizinho parece estar dando certo para esse grupo de brasileiros. Pelo menos por enquanto, eles t\u00eam desfrutado de uma vida de milion\u00e1rios na Ciudad del Este.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi por acaso que o cearense Rocelo Lopez, de 45 anos, ficou milion\u00e1rio. Dono de uma empresa de tecnologia, ele aceitou, em 2013, a oferta de um cliente que queria quitar suas d\u00edvidas de uma forma nada convencional: pagaria tudo, mas com uma moeda at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, a bitcoin. &#8220;Era pegar ou largar. 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