{"id":165416,"date":"2018-01-02T11:54:35","date_gmt":"2018-01-02T13:54:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=165416"},"modified":"2018-01-02T12:37:06","modified_gmt":"2018-01-02T14:37:06","slug":"a-nova-temporada-de-black-mirror-continua-falando-sobre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-nova-temporada-de-black-mirror-continua-falando-sobre-nos\/","title":{"rendered":"A nova temporada de Black Mirror continua falando sobre n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Ano novo, temporada nova. Como milh\u00f5es de pessoas, nas \u00faltimas semanas comemorei n\u00e3o apenas as festas de fim de ano, mas tamb\u00e9m a chegada da 4a. temporada de Black Mirror, da qual sou f\u00e3 confesso. As cr\u00edticas que li sobre essa nova temporada est\u00e3o mais negativas \u2013 parece que as pessoas se frustraram um pouco. Mas \u00e9 imposs\u00edvel se manter no topo a todo momento \u2013 e agora que Black Mirror j\u00e1 acumula 19 epis\u00f3dios, \u00e9 muita inoc\u00eancia acreditar que todos poderiam ser homogeneamente geniais, inovadores, surpreendentes.<\/p>\n<p>A maior diferen\u00e7a que notei \u00e9 que os seis novos epis\u00f3dios est\u00e3o mais concentrados em poucos temas \u2013 no fundo, exceto um, todos falam de neurotecnologia. Tr\u00eas hist\u00f3rias (USS Callister, Hang the DJ e Black Museum) expandem as implica\u00e7\u00f5es da codifica\u00e7\u00e3o total do c\u00e9rebro, o que possibilitaria o download (e upload) da consci\u00eancia humana. J\u00e1 presente em epis\u00f3dios como San Junipero e em White Christmas, essa tecnologia que permite criar clones virtuais, dotados de senso de identidade pr\u00f3pria, \u00e9 avaliada por novos \u00e2ngulos. Dos tr\u00eas epis\u00f3dios restantes, dois (ArkAngel e Crocodile) retomam a tecnologia apresentada em The Entire History of You (Toda a Sua Hist\u00f3ria): o acesso a nossas redes neurais que registra (ou resgata) tudo o que a pessoa v\u00ea e ouve, tornando eternas nossas mem\u00f3rias. S\u00f3 o p\u00f3s-apocal\u00edptico Metalhead escapa desse eixo, retratando um mundo no qual os seres humanos s\u00e3o ca\u00e7ados por misteriosos c\u00e3es-rob\u00f4.<\/p>\n<p>Como os epis\u00f3dios n\u00e3o s\u00e3o de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o \u2013 h\u00e1 que se digeri-los por um tempo, refletir, digerir \u2013 compreender as nuances do que se v\u00ea ali n\u00e3o \u00e9 tarefa r\u00e1pida. Resolvi ent\u00e3o escrever sobre cada um dos cap\u00edtulos, para ajudar em meu pr\u00f3prio processo digestivo. Claro que as reflex\u00f5es cont\u00eam spoilers, ent\u00e3o siga em frente por sua conta e risco.<\/p>\n<p><strong>USS Callister &#8211;\u00a0<\/strong>Um programador brilhante fica rico criando um jogo multiplayer, mas vive frustrado por n\u00e3o ser reconhecido por seus funcion\u00e1rios \u2013 todos v\u00eam seu s\u00f3cio, que faz a parte comercial da empresa, como chefe. Ele cria ent\u00e3o uma vers\u00e3o paralela desse jogo, e leva para l\u00e1 clones (virtuais) dos empregados. Nesse universo paralelo, contudo, ele assume o papel de um comandante cruel, torturando quem n\u00e3o o louva e obedece. Muitas pessoas vivem vidas paralelas no mundo virtual, livres das frustra\u00e7\u00f5es que o mundo real imp\u00f5e a todos n\u00f3s. Mas imagine um sujeito absolutamente frustrado a quem fosse dado poder absoluto sobre os outros. Sim, estamos falando de um personagem de fic\u00e7\u00e3o, mas d\u00e1 um certo medo pensar que tipo de comandante n\u00f3s nos tornar\u00edamos.<\/p>\n<p><strong>ArkAngel &#8211;\u00a0<\/strong>Se voc\u00ea n\u00e3o tem filhos, esse epis\u00f3dio \u00e9 apenas interessante. Mas se tem, \u00e9 um exerc\u00edcio profundo de autoavalia\u00e7\u00e3o. Na tentativa de manter sua filha segura, uma mulher instala nela o sistema ArkAngel, que al\u00e9m de rastrear seus passos por GPS, monitora seus sinais vitais e registra tudo o que ela v\u00ea e ouve. Conta ainda com um filtro anti-estresse, que ao detectar aumento s\u00fabito de cortisol torna a vis\u00e3o emba\u00e7ada, impedindo-a de ver cenas supostamente traumatizantes. Se voc\u00ea pensou no helicopter parenting, essa tend\u00eancia rodear os filhos a todo instante, livrando-os dos perigos do mundo, o autor da s\u00e9rie tamb\u00e9m pensou. Por mais que saibamos que isso \u00e9 tanto prejudicial como in\u00fatil, a tend\u00eancia pode ser t\u00e3o forte que \u00e9 dif\u00edcil se segurar, como mostra a protagonista. \u00c9 bom mesmo ent\u00e3o imaginar tudo o que pode dar errado.<\/p>\n<p><strong>Crocodile<\/strong> &#8211; Dizem que os crocodilos choram quando devoram suas presas \u2013 mas que se trata de mero reflexo por compress\u00e3o das gl\u00e2ndulas lacrimais, n\u00e3o \u00e9 d\u00f3 ou piedade. Eles precisam se alimentar, afinal, n\u00e3o tem outro jeito. Filmado na Isl\u00e2ndia, onde n\u00e3o existem crocodilos, imagino que o t\u00edtulo fa\u00e7a refer\u00eancia a suas famosas l\u00e1grimas. A protagonista se v\u00ea levada a cometer uma s\u00e9rie de crimes para encobrir um acidente do passado que poderia arruinar sua reputa\u00e7\u00e3o. Ela mata um ex-namorado para que ele n\u00e3o fale nada, mas o crime \u00e9 descoberto por uma investigadora que acessa suas mem\u00f3rias. Mata ent\u00e3o a investigadora e vai atr\u00e1s de seu marido, para que n\u00e3o haja testemunhas. Ap\u00f3s assassin\u00e1-lo ouve o choro de um beb\u00ea e decide por tamb\u00e9m mat\u00e1-lo, para evitar que os registros visuais da crian\u00e7a possam incrimin\u00e1-la. S\u00f3 se esquece de acabar com o porquinho-da-\u00edndia da fam\u00edlia, o que custar\u00e1 caro. Sim, ela chora. N\u00e3o \u00e9 uma assassina profissional atuando por prazer. Mas, como os crocodilos, ela n\u00e3o v\u00ea outro jeito. E n\u00f3s, ver\u00edamos alternativa quando precis\u00e1ssemos manter nossas mem\u00f3rias privadas?<\/p>\n<p><strong>Hang de DJ &#8211;\u00a0<\/strong>Esse talvez seja um dos poucos epis\u00f3dios otimistas de toda a s\u00e9rie. Muitas pessoas j\u00e1 recorrem \u00e0 tecnologia para encontrar o par ideal. \u00c9 o que os protagonistas desse epis\u00f3dio fazem. Mas nesse futuro o sistema \u00e9 bastante determinista, obrigando casais a se formarem por tempo pr\u00e9-determinado, impondo os rompimentos e in\u00edcios das rela\u00e7\u00f5es. Mesmo que burlar o sistema possa custar a vida esse casal se rebela para ficar junto. Quando fazem isso, descobrimos que na verdade eles s\u00e3o clones virtuais. As pessoas \u201coriginais\u201d fizeram o upload de suas consci\u00eancias num servi\u00e7o de relacionamentos, e o software correu mil simula\u00e7\u00f5es como a que acompanhamos ao longo do epis\u00f3dio. E em 998 das mil eles se rebelaram para ficar juntos. Logo, t\u00eam grande chance de se darem bem no mundo real. Trata-se, portanto, de um otimismo \u00e0 la Black Mirror: nos rebelamos contra a tecnologia para nos mantermos humanos. Mas a tecnologia conta com isso \u2013 ent\u00e3o ela vence? No fim mantemos nossa humanidade nos rebelando contra a tecnologia, e tamb\u00e9m gra\u00e7as e ela.<\/p>\n<p><strong>Metalhead &#8211;\u00a0<\/strong>Mais parecido com um exerc\u00edcio de estilo, acompanhamos nesse epis\u00f3dio os esfor\u00e7os de uma mulher para roubar uma carga e depois escapar da persegui\u00e7\u00e3o de um c\u00e3o-rob\u00f4 que tem o \u00fanico objetivo de elimin\u00e1-la. A tens\u00e3o \u00e9 grande, e quase total aus\u00eancia de di\u00e1logos s\u00f3 aumenta a expectativa pelos desdobramentos dessa ca\u00e7ada. No final do epis\u00f3dio descobrimos que a tal carga roubada era um ursinho de pel\u00facia, que ela queria dar para um sobrinho \u2013 que nunca \u00e9 mostrado \u2013 sofrendo com uma doen\u00e7a terminal. O tema do homem contra m\u00e1quina ganha contornos \u00e9picos de humanidade contra tecnologia. Os c\u00e3es, afinal, lembram muito os robozinhos sempre anunciados como nos novos bichos de pel\u00facia pela ind\u00fastria de brinquedos. Mas no fim eles acabam mesmo \u00e9 se interpondo entre n\u00f3s e o aconchego que sempre ser\u00e1 nosso desejo \u00faltimo.<\/p>\n<p><strong>Black Museum &#8211;\u00a0<\/strong>Se a ideia dessa temporada era explorar as consequ\u00eancias da transfer\u00eancia de consci\u00eancia para fora do corpo, nesse epis\u00f3dio tr\u00eas novos \u00e2ngulos s\u00e3o apresentados de uma vez. O museu de que fala o t\u00edtulo \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de objetos ligados a crimes. O primeiro \u00e9 uma touca de transfer\u00eancia de sensa\u00e7\u00f5es \u2013 com um implante cerebral, um m\u00e9dico passa a sentir as mesmas dores de quem veste a toca. Quando sente um senhor morrer, contudo, passa a sentir prazer (crescente) com a dor. O que o levar\u00e1 a se tornar um criminoso em busca desse prazer. (Curiosidade: essa hist\u00f3ria \u00e9 inspirada num conto de Penn Jillette, da dupla de m\u00e1gicos Penn and Teller). O segundo \u00e9 um urso de pel\u00facia no qual habita a consci\u00eancia de uma m\u00e3e morta por atropelamento \u2013 seu vi\u00favo tentou mant\u00ea-la dentro da pr\u00f3pria mente por um tempo, mas era torturante para ele a aus\u00eancia total de privacidade, e para a ela a aus\u00eancia total de controle. E o \u00faltimo \u2013 e mais arrepiante \u2013 \u00e9 a consci\u00eancia de um condenado \u00e0 morte que, uma vez retirada de seu corpo, permite a cria\u00e7\u00e3o de um holograma senciente que pode ser novamente eletrocutado pelos visitantes do museu, numa condena\u00e7\u00e3o eterna. O plot twist \u00e9 que a protagonista desse epis\u00f3dio \u00e9 filha do condenado, e usar\u00e1 as tr\u00eas tecnologias para se vingar do dono do museu.<\/p>\n<p>N\u00e3o, acho que Black Mirror n\u00e3o piorou. S\u00f3 que dessa vez, em lugar de explorar as possibilidades dist\u00f3picas de novas tecnologias para nos fazer pensar sobre n\u00f3s mesmos, optou por outro caminho. Aprofundou \u2013 talvez ao m\u00e1ximo \u2013 os limites de duas das tecnologias que mais nos aterrorizaram nas temporadas anteriores. O que, diga-se, serve bastante bem ao prop\u00f3sito de nos fazer refletir sobre elas.<\/p>\n<p>Nem sempre gostaremos de tudo o que vemos em Black Mirror. Afinal, nem sempre gostamos do que vemos no espelho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ano novo, temporada nova. Como milh\u00f5es de pessoas, nas \u00faltimas semanas comemorei n\u00e3o apenas as festas de fim de ano, mas tamb\u00e9m a chegada da 4a. temporada de Black Mirror, da qual sou f\u00e3 confesso. As cr\u00edticas que li sobre essa nova temporada est\u00e3o mais negativas \u2013 parece que as pessoas se frustraram um pouco. 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