{"id":165813,"date":"2018-01-06T16:11:03","date_gmt":"2018-01-06T18:11:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=165813"},"modified":"2018-01-06T16:11:03","modified_gmt":"2018-01-06T18:11:03","slug":"morre-o-pessimista-e-melancolico-carlos-heitor-cony","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/morre-o-pessimista-e-melancolico-carlos-heitor-cony\/","title":{"rendered":"Morre o pessimista e melanc\u00f3lico Carlos Heitor Cony"},"content":{"rendered":"<div id=\"Corpo\">\n<p>O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony morreu na noite de sexta-feira, 5, de fal\u00eancia m\u00faltipla de \u00f3rg\u00e3os. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele estava com 91 anos. Cony estava internado no Hospital Samaritano no Rio e sua morte foi confirmada pela Companhia das Letras, editora que atualmente lan\u00e7ava seus livros.<\/p>\n<p>Membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony nasceu no Rio em 1926. Sua estreia na literatura se deu com os romances A Verdade de Cada Dia e Tijolo de Seguran\u00e7a. Lan\u00e7ados em 1957 e 1958, os dois livros receberam o Pr\u00eamio Manuel Ant\u00f4nio de Almeida &#8211; abrindo uma carreira de distin\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que mais tarde incluiriam o Pr\u00eamio Jabuti (em 1996, 1998 e 2000) e o Pr\u00eamio Machado de Assis, em 1996, pelo conjunto da obra, al\u00e9m da comenda de Artes e Letras concedida em 2008 pelo governo franc\u00eas<\/p>\n<p>Antes da estreia na fic\u00e7\u00e3o, ele iniciara a vida profissional como jornalista &#8211; fun\u00e7\u00e3o que nunca abandonaria. Em 1952, entrou para o Jornal do Brasil e mais tarde foi redator do Correio da Manh\u00e3. Foi preso diversas vezes durante a ditadura militar. E, em 2004, o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a concedeu a ele uma pens\u00e3o vital\u00edcia de R$ 23 mil, valor correspondente ao sal\u00e1rio que receberia como redator-chefe de uma publica\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s deixar o Correio da Manh\u00e3, entrou para a Manchete, onde atuou tamb\u00e9m no departamento de teledramaturgia, participando de projetos como as novelas A Marquesa de Santos e Dona Beija.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 60, Cony j\u00e1 tinha 8 livros publicados &#8211; al\u00e9m de fic\u00e7\u00e3o, colet\u00e2neas de cr\u00f4nicas. &#8220;Todos eram romances de forte afirma\u00e7\u00e3o do individualismo, numa \u00e9poca e num pa\u00eds com pouca toler\u00e2ncia para com individualismos. As esquerdas viam Cony com desconfian\u00e7a, apesar de seus livros sa\u00edrem por uma editora sobre a qual n\u00e3o restava a menor d\u00favida: a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, de \u00canio Silveira, um homem ligado ao Partido Comunista. \u00canio podia n\u00e3o concordar com Cony quanto \u00e0 linha apol\u00edtica e alienada que imprimia a seus romances, mas n\u00e3o abria m\u00e3o de t\u00ea-lo entre seus editados. Cony era talvez o maior escritor profissional do Brasil &#8211; produzia um romance por ano, firmara um p\u00fablico certo e n\u00e3o dava bola para os cr\u00edticos&#8221;, escreveu Ruy Castro sobre o autor no Estado no final dos anos 90.<\/p>\n<p>Em 1967, no entanto, lan\u00e7aria um livro seminal em sua trajet\u00f3ria: Pessach, a Travessia. A obra retrata um escritor carioca que, em pleno regime militar, rejeita qualquer tipo de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais radical, assim como renega sua origem judaica. Pouco depois de completar 40 anos, no entanto, acaba se comprometendo, involuntariamente, com quest\u00f5es pol\u00edticas. O livro continha cr\u00edtica dura ao Partido Comunista. Em 1999, o autor voltaria ao tema com Romance Sem Palavras, no qual continuava a hist\u00f3ria do escritor Paulo.<\/p>\n<p><b>Ditadura &#8211;\u00a0<\/b>Em entrevista publicada em 2008, Cony relembrou o per\u00edodo da ditadura ao falar do romance O Ventre &#8211; e tratar da melancolia e do pessimismo que s\u00e3o normalmente associados \u00e0 sua obra, influ\u00eancia, naquele instante, do pensamento de Sartre. &#8220;Havia nessa \u00e9poca um tom exagerado de bossa nova, de desenvolvimento, que n\u00e3o me encantava. Da mesma forma que n\u00e3o aderi \u00e0 literatura engajada que surgiu depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1964, mesmo depois de preso pelos militares. Nessa \u00e9poca, escrevi Antes, o Ver\u00e3o, um romance completamente alienado, sem nenhum refer\u00eancia pol\u00edtica, assim como Bal\u00e9 Branco, que veio em seguida. Mesmo Pilatos, que saiu em 1973, quando a situa\u00e7\u00e3o continuava dif\u00edcil. \u00c9 curioso que alguns cr\u00edticos entenderam ao contr\u00e1rio, identificando o homem castrado do romance como uma alus\u00e3o ao que viviam os cidad\u00e3os, alijados politicamente. Mas n\u00e3o era nenhuma met\u00e1fora para mim. Minha cr\u00edtica aberta estava nos textos que escrevia para os jornais, especialmente o Correio da Manh\u00e3&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Pilatos \u00e9 ainda hoje considerado por muitos o grande livro de Cony &#8211; inclusive pelo pr\u00f3prio autor. Lan\u00e7ado em 1973, narra a hist\u00f3ria de um homem que, ap\u00f3s sofrer um acidente, vaga pelas ruas do Rio com o \u00f3rg\u00e3o sexual mutilado em um jarro, encontrando diferentes personagens pelo caminho. Havia na obra uma s\u00e1tira sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a contesta\u00e7\u00e3o no Brasil. E o autor, feliz com o resultado, decidiu abandonar a escrita de romances. Foi o que fez, ao menos pelos pr\u00f3ximos 20 anos, at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o, em 1995, de Quase Mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nele, o escritor explora territ\u00f3rio nem sempre claro que existe entre a fic\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria &#8211; e o faz a partir das lembran\u00e7as que t\u00eam do pai. O cineasta Ruy Guerra trabalha h\u00e1 anos na adapta\u00e7\u00e3o para o cinema da obra e, em 1996, em texto publicado no caderno Cultura, explicaria como a rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos o levou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. &#8220;Houve mesmo uma vez que cheguei a aflorar o assunto e dediquei-lhe um r\u00e1pido par\u00e1grafo, quando falava de algumas lembran\u00e7as da minha juventude. S\u00f3 que depois achei que ele merecia mais, e melhor, e resolvi deixar para outra ocasi\u00e3o. S\u00f3 que agora a quest\u00e3o se tornou muito mais dif\u00edcil. Surgiu um livro. Um livro magn\u00edfico, que conta as aventuras de um pai que faz lembrar o meu. Talvez por isso me tenha tocado t\u00e3o profundamente o seu humor e sua ternura. Quase Mem\u00f3ria \u00e9 o livro que eu gostaria de ter escrito sobre o meu pai. Como escrever agora algo sobre a mat\u00e9ria? S\u00f3 me resta aceitar a sabedoria do destino, fazer um filme com o seu romance, e assim cumprir a minha promessa de inf\u00e2ncia, de outro modo, sob uma outra forma, com um outro pai.&#8221;<\/p>\n<p><b>Rela\u00e7\u00f5es humanas &#8211;\u00a0<\/b>Ainda que toque em temas pol\u00edticos, a obra de Cony tem como foco, antes de mais nada, as rela\u00e7\u00f5es humanas &#8211; e, em dire\u00e7\u00e3o ao final da vida, essas rela\u00e7\u00f5es se transformam na possibilidade de reencontro. Quase Mem\u00f3ria, na aproxima\u00e7\u00e3o que o autor tenta com a figura paterna, faz parte desse processo, assim como A Casa do Poeta Tr\u00e1gico, lan\u00e7ado em 1997, que evoca a ideia de que todo homem tem a capacidade de distinguir entre o bem e o mal, mas nem sempre a sabedoria de se decidir por um ou outro. Como coloca o professor ga\u00facho Antonio Hohlfedt, em texto publicado na edi\u00e7\u00e3o dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicada a Cony, o autor lan\u00e7a m\u00e3o de recursos memorial\u00edsticos para contar hist\u00f3rias da classe m\u00e9dia urbana, no quadro da fal\u00eancia da fam\u00edlia e da busca da identidade e do sentimento de vazio dos narradores&#8221;, dentro do conceito de que &#8220;a literatura \u00e9 um modo de resist\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>O modo como tratou esses temas deu ao autor a pecha de pessimista inveterado. O jornalista Zuenir Ventura, amigo do escritor, discordaria, no entanto, em texto tamb\u00e9m publicado nos Cadernos de Literatura Brasileira. &#8220;Desconfiem do auto-proclamado Cony pessimista e muito menos acreditem no Cony c\u00ednico. Ou melhor, acreditem, mas considerem que \u00e9 uma atitude filos\u00f3fica, moral, intelectual, uma vis\u00e3o do mundo que \u00e9 desmentida a cada dia por sua pr\u00e1tica de vida. Gozador, ele deve se divertir com o efeito sobre os outros da imagem que criou de pessimista, mal-humorado e rabugento.&#8221;<\/p>\n<p>Na mesma entrevista de 2008 citada acima, Cony falava dos problemas de sa\u00fade &#8211; &#8220;Segundo Ruy Castro, eu j\u00e1 me tornei o mais antigo doente terminal do Brasil&#8221; &#8211; e da falta de disposi\u00e7\u00e3o para escrever novos romances. De l\u00e1 para c\u00e1, a Alfaguara realizou trabalho de reedi\u00e7\u00e3o de suas obras &#8211; mas Cony se dedicaria apenas ao jornalismo, seja nas colunas que publicava no jornal Folha de S. Paulo, seja na publica\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es de cr\u00f4nicas. &#8220;Com 60 anos de carreira jornal\u00edstica, \u00e9 s\u00f3 abrir a gaveta e sacar alguma&#8221;, brincava.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony morreu na noite de sexta-feira, 5, de fal\u00eancia m\u00faltipla de \u00f3rg\u00e3os. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele estava com 91 anos. Cony estava internado no Hospital Samaritano no Rio e sua morte foi confirmada pela Companhia das Letras, editora que atualmente lan\u00e7ava seus livros. 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