{"id":166005,"date":"2018-01-08T14:01:05","date_gmt":"2018-01-08T16:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=166005"},"modified":"2018-01-08T14:01:05","modified_gmt":"2018-01-08T16:01:05","slug":"gravidez-de-risco-e-como-epidemia-em-todo-o-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gravidez-de-risco-e-como-epidemia-em-todo-o-pais\/","title":{"rendered":"Gravidez de risco \u00e9 como epidemia em todo o Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>Dois meses depois de ter contado para sua m\u00e3e que estava gr\u00e1vida, Maria, de 14 anos, deu \u00e0 luz um menino. O filho nasceu prematuro &#8211; ela n\u00e3o sabe ao certo o tempo de gesta\u00e7\u00e3o. O medo da rea\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e o constrangimento com a gravidez fizeram com que ela s\u00f3 tivesse feito duas consultas de pr\u00e9-natal e n\u00e3o soubesse que desenvolveu hipertens\u00e3o e uma infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria que levaram ao nascimento prematuro do beb\u00ea.<\/p>\n<p>Maria faz parte da faixa et\u00e1ria considerada por especialistas como a de maior vulnerabilidade gestacional, para a m\u00e3e e o beb\u00ea Apesar do alto risco da gravidez em meninas com menos de 15 anos, o Brasil n\u00e3o avan\u00e7ou na \u00faltima d\u00e9cada na redu\u00e7\u00e3o desses casos. Enquanto o Pa\u00eds conseguiu reduzir o \u00edndice de beb\u00eas que nascem de m\u00e3es entre 15 e 19 anos de 20,1% do total, em 2007, para 16,7%, em 2016, a mudan\u00e7a \u00e9 lenta na faixa et\u00e1ria das m\u00e3es mais jovens. Nesse mesmo per\u00edodo, a taxa de beb\u00eas nascidos no Pa\u00eds filhos de meninas entre 10 e 14 anos oscilou de 0,94% para 0,85%, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Essas gesta\u00e7\u00f5es demonstram uma s\u00e9rie de falhas nos cuidados com essas jovens, como a falta de informa\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, acesso a anticoncepcionais e prote\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia sexual. Al\u00e9m dos riscos por fatores biol\u00f3gicos &#8211; j\u00e1 que muitas vezes o sistema reprodutor ainda n\u00e3o tem a maturidade completa -, especialistas apontam problemas ainda maiores nessa idade por quest\u00f5es sociais e comportamentais. Muitas jovens, como Maria (nome fict\u00edcio, assim como os demais usados na reportagem, para preservar as adolescentes), n\u00e3o t\u00eam compreens\u00e3o sobre cuidados na gravidez, nem mesmo o entendimento sobre como ela ocorre.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sabia que dava para engravidar na minha idade. Minha menstrua\u00e7\u00e3o veio a primeira vez um ano antes de eu engravidar e era sempre estranha, n\u00e3o vinha certinho todo m\u00eas, como a minha irm\u00e3 falou que seria&#8221;, conta Maria. A irm\u00e3, tr\u00eas anos mais velha, foi quem suspeitou da gravidez quando nadavam juntas em um rio e percebeu a barriga &#8220;despontando&#8221;.<\/p>\n<p>Maria fez um teste de farm\u00e1cia e, apesar do resultado positivo, esperou mais algumas semanas at\u00e9 contar para a fam\u00edlia por acreditar que poderia n\u00e3o estar gr\u00e1vida. &#8220;N\u00e3o senti nada durante a gravidez, nenhuma dor ou mal-estar. At\u00e9 que um dia meus p\u00e9s incharam, me deu tontura e fiquei enjoada. Cheguei no hospital e n\u00e3o sa\u00ed mais daqui&#8221;, disse ela, dois meses ap\u00f3s o nascimento do filho e sem ter sa\u00eddo nenhum dia do lado dele na Maternidade M\u00e3e Luzia, em Macap\u00e1, a \u00fanica p\u00fablica no Estado.<\/p>\n<p><b>Acompanhamento &#8211;\u00a0<\/b>O Amap\u00e1 \u00e9 um dos Estados que t\u00eam maior propor\u00e7\u00e3o de beb\u00eas nascidos de m\u00e3es com menos de 19 anos &#8211; um em cada quatro. Enquanto o Pa\u00eds registra 0,88% das crian\u00e7as nascidas de m\u00e3es com menos de 15 anos, o Estado tem propor\u00e7\u00e3o de 1,37%. Os m\u00e9dicos da M\u00e3e Luzia admitem n\u00e3o conseguir dar a aten\u00e7\u00e3o devida para todas as adolescentes.<\/p>\n<p>&#8220;Toda gravidez at\u00e9 17 anos deveria ter acompanhamento de pr\u00e9-natal de alto risco, mas n\u00e3o conseguimos fazer isso com todas. Para dar conta, restringimos o alto risco para at\u00e9 15 anos, mas ainda assim nem todas t\u00eam acesso&#8221;, explica o m\u00e9dico Carlos Filho, diretor da unidade.<\/p>\n<p>Prematuro, o beb\u00ea de Maria passou dois meses na UTI neonatal, entubado e medicado. Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que a situa\u00e7\u00e3o da adolescente e seu filho n\u00e3o \u00e9 caso isolado no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O grupo das gr\u00e1vidas de 10 a 14 anos \u00e9 o que tem a pior cobertura de pr\u00e9-natal. Segundo especialistas, isso explica outros dados preocupantes da faixa et\u00e1ria. S\u00e3o 15,1 \u00f3bitos fetais a cada mil nascidos vivos &#8211; ante m\u00e9dia de 10,9 no Pa\u00eds. A taxa de beb\u00eas com baixo peso (at\u00e9 2,5 quilos) \u00e9 de 13,7%, ante 8,4% na m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>&#8220;Sem ter um acompanhamento adequado na gravidez, elas podem desenvolver doen\u00e7as espec\u00edficas da gravidez que poderiam ser prevenidas ou controladas, como a s\u00edndrome hipertensiva, infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, hemorragias que levam \u00e0 prematuridade&#8221;, diz Maria Albertina Rego, da Sociedade Brasileira de Pediatria.<\/p>\n<p>Quando questionada sobre onde vai morar com o beb\u00ea ao sair do hospital, os olhos de Maria ficam marejados. Seu plano \u00e9 de morar com o namorado e os sogros. Apesar de j\u00e1 ter cuidado dos irm\u00e3os mais novos, ela nunca havia segurado um rec\u00e9m-nascido no colo e diz ter medo de n\u00e3o saber dar ao filho o que ele precisar &#8220;N\u00e3o sei quando ele vai querer mamar, trocar fralda. A mam\u00e3e est\u00e1 me falando o que tenho que fazer, mas s\u00f3 vou aprender com ele em casa&#8221;, conta.<\/p>\n<p><b>Abandono &#8211;\u00a0<\/b>Joana engravidou aos 14 anos de um homem que conheceu em uma viagem, que fazia com a fam\u00edlia, de barco entre o Par\u00e1 e o Amap\u00e1 O homem tinha 32 anos e mudou de cidade quando ela contou que estava gr\u00e1vida. &#8220;Um homem crescido fugiu da responsabilidade e deixou a crian\u00e7a para uma menina criar sozinha. Isso n\u00e3o \u00e9 certo, ele nem quis registrar a beb\u00ea, nunca deu nada pra ela&#8221;, critica a m\u00e3e de Joana, uma agricultora aposentada de 62 anos, que teve 12 filhos &#8211; o primeiro aos 13 anos.<\/p>\n<p>Av\u00f3, filha e neta moram em uma palafita na periferia de Macap\u00e1 e sobrevivem s\u00f3 com a aposentadoria de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. A beb\u00ea de Joana completou 7 meses sem ter conhecido o pai. &#8220;Quero dar o melhor pra minha filha, vou conversar muito quando ela for mais velha para que a vida dela seja diferente da minha&#8221;, diz Joana. Ela parou de frequentar a escola no 6.\u00ba m\u00eas de gravidez e ainda n\u00e3o retomou os estudos. &#8220;Ainda estou amamentando, e a escola fica longe&#8221;, acrescenta ela, que ainda pretende voltar \u00e0 sala de aula.<\/p>\n<p>Para Anna Cunha, do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a responsabilidade pela gravidez e os cuidados com o beb\u00ea ainda recaem desproporcionalmente sobre a m\u00e3e. &#8220;Isso precisa deixar de ser visto como escolha ou responsabilidade individual. \u00c9 dos sistemas educacionais e de sa\u00fade, da sociedade. Precisamos dar condi\u00e7\u00f5es para que voltem a estudar, trabalhar, ter sonhos novamente.&#8221; E a falta de perspectiva escolar ou profissional tamb\u00e9m leva \u00e0 gravidez precoce. &#8220;Sem enxergar possibilidade futura, muitas vezes a maternidade \u00e9 vista como a \u00fanica identidade socialmente valorizada para uma mulher.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Manuela, que aos 13 anos abandonou a escola, fugiu de casa e foi morar com o namorado, de 18, na zona rural de Macap\u00e1. Como ele trabalha o dia todo na horta, ela passava a maior parte do tempo sozinha. &#8220;A casa \u00e9 pequenininha. Eu arrumava tudo, fazia almo\u00e7o e n\u00e3o tinha mais nada pra fazer. Assistia novela o dia todo, mas comecei a sentir falta de companhia e pensei que seria bom ter um bebezinho.&#8221;<\/p>\n<p>Ela engravidou alguns meses depois e diz ter levado um susto quando descobriu que teria g\u00eameas. Como morava longe de unidades de sa\u00fade, Manuela s\u00f3 fez duas consultas de pr\u00e9-natal. Segundo os m\u00e9dicos, com o corpo ainda em desenvolvimento e o quadro agravado por uma infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, as meninas nasceram seis semanas antes do previsto. As duas est\u00e3o h\u00e1 mais de um m\u00eas na UTI neonatal.<\/p>\n<p>Enquanto espera as filhas terem alta do hospital, Manuela planeja como ser\u00e1 sua vida com as garotas. &#8220;Antes eu pensava em ser advogada ou m\u00e9dica. Agora s\u00f3 posso pensar no melhor para elas. Vou brincar e dar muito carinhos para as duas.&#8221;<\/p>\n<p><b>Novo hospital &#8211;\u00a0<\/b>Questionado pela reportagem sobre os dados, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade destacou a queda geral de gesta\u00e7\u00f5es entre adolescentes, dos 10 aos 19 anos, mas n\u00e3o se manifestou sobre a faixa et\u00e1ria espec\u00edfica at\u00e9 14 anos. A pasta atribui a redu\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o dos programas Sa\u00fade da Fam\u00edlia e Sa\u00fade na Escola, por terem aproximado os jovens dos profissionais de sa\u00fade, e a mais acesso a m\u00e9todos contraceptivos e \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirmou que, para aumentar a cobertura de cuidado pr\u00e9-natal \u00e0s adolescentes, trabalha com a busca ativa de gestantes &#8220;para que sejam acolhidas e recebam cuidados diferenciados, de acordo com as suas necessidades e demandas de sa\u00fade&#8221;, diz a nota.<\/p>\n<p>O governo do Amap\u00e1 informou que tem um programa de educa\u00e7\u00e3o sexual e planejamento familiar nas escolas estaduais e disse oferecer preservativos nas unidades. Tamb\u00e9m informou que a Secretaria Municipal de Sa\u00fade est\u00e1 construindo um &#8220;plano de a\u00e7\u00e3o emergencial&#8221; para desafogar o atendimento na maternidade. N\u00e3o informou, por\u00e9m, detalhes desse plano. O Estado disse que est\u00e1 em fase final de constru\u00e7\u00e3o a Maternidade de Parto de Risco Habitual, que deve absorver at\u00e9 40% da demanda da Maternidade M\u00e3e Luzia, a \u00fanica p\u00fablica do Estado. A previs\u00e3o \u00e9 que a obra seja entregue ainda no in\u00edcio deste ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois meses depois de ter contado para sua m\u00e3e que estava gr\u00e1vida, Maria, de 14 anos, deu \u00e0 luz um menino. O filho nasceu prematuro &#8211; ela n\u00e3o sabe ao certo o tempo de gesta\u00e7\u00e3o. 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