{"id":166466,"date":"2018-01-13T08:07:20","date_gmt":"2018-01-13T10:07:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=166466"},"modified":"2018-01-13T08:07:20","modified_gmt":"2018-01-13T10:07:20","slug":"carol-lanca-seu-clube-dos-jardineiros-da-fumaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/carol-lanca-seu-clube-dos-jardineiros-da-fumaca\/","title":{"rendered":"Carol lan\u00e7a seu &#8216;Clube dos Jardineiros da Fuma\u00e7a&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O terceiro romance da escritora ga\u00facha Carol Bensimon, O Clube dos Jardineiros de Fuma\u00e7a, pode ser definido como um livro sobre as gera\u00e7\u00f5es que testemunharam a Guerra \u00e0s Drogas &#8211; a pol\u00edtica global fundada nos EUA no in\u00edcio dos anos 1970 que ainda \u00e9 a narrativa dominante sobre a rela\u00e7\u00e3o das sociedades com as subst\u00e2ncias, e no caso espec\u00edfico, a maconha.<\/p>\n<p>Inteligente retrato da gera\u00e7\u00e3o hippie e dos millennials, o livro, seu terceiro pela Companhia das Letras, \u00e9 ambientado no condado de Mendocino, no norte da Calif\u00f3rnia, para onde um jovem professor ga\u00facho, Arthur, se muda em busca de uma nova vida e alguma paz de esp\u00edrito. L\u00e1 ele aprende que praticamente toda a economia do local gira em torno do cultivo (at\u00e9 ent\u00e3o ilegal) da planta &#8211; Mendocino faz parte do Tri\u00e2ngulo da Esmeralda, regi\u00e3o conhecida assim pelo formato das plantas de maconha.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se passa no momento anterior \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o do consumo recreativo da planta na Calif\u00f3rnia, efetivada no dia 1.\u00ba de janeiro de 2018. Proje\u00e7\u00f5es indicam que o com\u00e9rcio de maconha legal nos EUA chegue a US$ 23 bilh\u00f5es em 2021.<\/p>\n<p>A autora &#8211; selecionada em 2012 pela Granta como uma das melhores jovens escritoras brasileiras, com livros publicados na Espanha, Argentina e agora nos Estados Unidos, em 2018 &#8211; usa com habilidade a economia da maconha como pano de fundo para compor um romance com personagens de pelo menos quatro gera\u00e7\u00f5es, cujos interesses entram em conflitos (\u00e0s vezes involunt\u00e1rios) nas 360 p\u00e1ginas do livro.<\/p>\n<p>Uma frase sobre uma personagem resume: &#8220;(Ela) n\u00e3o sabe onde come\u00e7am os fracassos do seu filho e onde come\u00e7am as limita\u00e7\u00f5es de toda uma gera\u00e7\u00e3o azarada que est\u00e1 se tornando adulta em um mundo ultracompetitivo e economicamente inst\u00e1vel&#8221;, diz a narradora.<\/p>\n<p>Para a autora, o choque de gera\u00e7\u00f5es \u00e9 uma quest\u00e3o global. &#8220;Claro que, em cada lugar, isso se d\u00e1 com suas particularidades&#8221;, diz Bensimon, em uma troca de e-mails. &#8220;No caso de Mendocino, fica evidente que os fundadores da contracultura dos anos 60 n\u00e3o se sentem exatamente \u00e0 vontade com as mudan\u00e7as do condado, da Calif\u00f3rnia, do mundo: gentrifica\u00e7\u00e3o, Airbnb, e, de modo geral, s\u00edmbolos da contracultura sendo incorporados pelo mainstream.&#8221;<\/p>\n<p>A economia que gira em torno da maconha acaba sendo um exemplo &#8220;perfeito&#8221; desse choque, segundo a escritora.<\/p>\n<p>&#8220;A erva que eles cultivavam no jardim dos fundos agora movimenta bilh\u00f5es de d\u00f3lares e, com a legaliza\u00e7\u00e3o, ganha vitrines, embalagens perfeitas, torna-se um produto como qualquer outro&#8221; &#8211; e isso n\u00e3o ocorre porque o governo reviu suas posi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, mas sim porque a legaliza\u00e7\u00e3o vai movimentar muito dinheiro.<\/p>\n<p>Ela decidiu ambientar seu terceiro romance na regi\u00e3o americana depois de visitar o local em uma viagem de f\u00e9rias em 2014 &#8211; de l\u00e1 para c\u00e1, voltou e estudou a din\u00e2mica do local.<\/p>\n<p>No livro, o personagem Arthur decide se mudar de Porto Alegre ap\u00f3s um esc\u00e2ndalo midi\u00e1tico que envolvia a produ\u00e7\u00e3o caseira de maconha, para aliviar o sofrimento da m\u00e3e, em tratamento contra o c\u00e2ncer. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o pessoal de Bensimon. &#8220;Uma tia muito pr\u00f3xima morreu de c\u00e2ncer. Era bastante conservadora, mas, na \u00e9poca que estava doente, tentei falar com ela sobre a maconha, que alivia os efeitos nefastos da quimioterapia. Ela chegou a perguntar \u00e0 oncologista sobre o assunto, que desaconselhou o uso Sempre fico pensando se poderia ter sido diferente, se minha tia poderia ter tido um fim de vida mais tranquilo.&#8221;<\/p>\n<p>A escolha do pano de fundo salta aos olhos por n\u00e3o ser t\u00e3o comum (Silviano Santiago, por exemplo, j\u00e1 havia ambientado, com sucesso, Stella Manhattan em Nova York), mas n\u00e3o \u00e9 algo que preocupa Bensimon.<\/p>\n<p>&#8220;Na hist\u00f3ria da literatura brasileira, n\u00e3o encontraremos nenhum autor livre de influ\u00eancia estrangeira, e \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil, em um mundo globalizado como o de hoje, pensarmos em um todo coerente e nacional, o que seria, ali\u00e1s, bem reducionista e altamente prejudicial \u00e0 literatura&#8221;, acredita. &#8220;Na fic\u00e7\u00e3o que eu escrevo, os lugares t\u00eam uma import\u00e2ncia crucial, e eu acredito, como o Wim Wenders (diretor alem\u00e3o que filmou nos EUA, ali\u00e1s), que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel inventar uma hist\u00f3ria e ent\u00e3o situ\u00e1-la em qualquer lugar: o lugar \u00e9 parte integrante da hist\u00f3ria, ou talvez eu possa mesmo dizer que o lugar \u00e9 a hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O terceiro romance da escritora ga\u00facha Carol Bensimon, O Clube dos Jardineiros de Fuma\u00e7a, pode ser definido como um livro sobre as gera\u00e7\u00f5es que testemunharam a Guerra \u00e0s Drogas &#8211; a pol\u00edtica global fundada nos EUA no in\u00edcio dos anos 1970 que ainda \u00e9 a narrativa dominante sobre a rela\u00e7\u00e3o das sociedades com as subst\u00e2ncias, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":166470,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-166466","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166466","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=166466"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166466\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":166471,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/166466\/revisions\/166471"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=166466"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=166466"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=166466"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}