{"id":167166,"date":"2018-01-20T07:32:08","date_gmt":"2018-01-20T09:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=167166"},"modified":"2018-01-20T07:32:08","modified_gmt":"2018-01-20T09:32:08","slug":"o-espirito-dos-meus-pais-continua-subir-na-chuva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-espirito-dos-meus-pais-continua-subir-na-chuva\/","title":{"rendered":"O Esp\u00edrito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva"},"content":{"rendered":"<p>Depois de anos afastado de seu pa\u00eds, a Argentina, jovem escritor retorna da Alemanha porque seu pai, um jornalista, est\u00e1 morrendo. L\u00e1, em sua cidade interiorana que ele denomina *osario (refer\u00eancia a Ros\u00e1rio), o narrador se defronta com os fantasmas do passado, materializados em uma s\u00e9rie de recortes e mapas guardados pelo pai e que fornecem dicas sobre o recente desaparecimento de um habitante do lugar.<\/p>\n<p>Eis o ponto de partida de um grande romance e cuja escrita &#8211; direta, transparente, engenhosa &#8211; revela-se um de seus grandes trunfos. O Esp\u00edrito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva \u00e9 apontada como a obra principal de Patricio Pron, autor argentino radicado na Espanha e que ganha vers\u00e3o em portugu\u00eas pela editora Todavia. Mais que recorda\u00e7\u00f5es pessoais, o livro torna-se grandioso ao promover um reflex\u00e3o sobre o passado sombrio da Argentina, especificamente entre 1976 e 1981, per\u00edodo marcado por in\u00fameros assassinatos e desaparecimentos.<\/p>\n<p>Como pe\u00e7as de um macabro quebra-cabe\u00e7a, os fatos s\u00e3o revelados por Pron como uma narrativa policial. Tecnicamente, \u00e9 um romance de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, pois o autor viveu algo parecido e s\u00f3 publicou o livro depois da aprova\u00e7\u00e3o dos pais, que pertenceram a uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina. &#8220;No in\u00edcio, eles n\u00e3o queriam a publica\u00e7\u00e3o, pois acreditavam que o livro deveria ter uma voz coletiva e n\u00e3o pessoal&#8221;, conta Pron que, com a obra, busca elucidar um passado doloroso, mas ainda mal explicado. Por e-mail, ele respondeu \u00e0s seguintes quest\u00f5es.<\/p>\n<p><b>Seu romance surgiu da necessidade de aprofundar certos temas a partir da perspectiva da sua gera\u00e7\u00e3o? Qual foi a motiva\u00e7\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>Minha motiva\u00e7\u00e3o nasceu da percep\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m havia escrito algo assim antes, era o livro que eu necessitava ler para compreender o que restou e o quanto merece ser recuperado da experi\u00eancia pol\u00edtica dos meus pais e sua gera\u00e7\u00e3o. A persegui\u00e7\u00e3o, a tortura, o assassinato de ativistas pol\u00edticos durante a \u00faltima ditadura c\u00edvica e militar argentina n\u00e3o s\u00f3 constitu\u00edram uma trag\u00e9dia humana de enormes propor\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m uma fatalidade pol\u00edtica, uma vez que impediu a transmiss\u00e3o do conhecimento das pr\u00e1ticas e experi\u00eancias pol\u00edticas de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. Livros como este se tornaram necess\u00e1rios para que esse di\u00e1logo entre gera\u00e7\u00f5es pela primeira vez fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p><b>O livro foi qualificado como autofic\u00e7\u00e3o pela cr\u00edtica. Voc\u00ea concorda? E qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a verossimilhan\u00e7a?<\/b><\/p>\n<p>Quem conhece minimamente a hist\u00f3ria argentina dos \u00faltimos 6o ou 70 anos pode considerar que nem tudo que \u00e9 verdadeiro nela \u00e9 veross\u00edmil. Chamar de autofic\u00e7\u00e3o esse meu romance (inclusive cham\u00e1-lo de &#8220;romance&#8221;) \u00e9 uma forma de inscrever esta hist\u00f3ria dentro de um quadro poss\u00edvel. Mas meu livro resiste a se enquadrar em qualquer moldura &#8211; do mesmo modo que, na gera\u00e7\u00e3o dos meus pais, esse quadro \u00e9 aceito apenas para faz\u00ea-lo saltar pelos ares.<\/p>\n<p><b>A tentativa de estabelecer a verdadeira vers\u00e3o do passado tem possibilidade de \u00eaxito?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o. Acho que a revis\u00e3o permanente, com frequ\u00eancia passional, do seu passado \u00e9 que faz com que as sociedades se mantenham emocional e intelectualmente vivas e permite imaginar que n\u00e3o est\u00e3o condenadas a perpetuar seus erros.<\/p>\n<p><b>Os argentinos hoje necessitam confrontar o passado e admitir o seu papel nesse passado?<\/b><\/p>\n<p>Sim, absolutamente. Embora a busca da mem\u00f3ria, da verdade e da justi\u00e7a seja uma constante nos \u00faltimos 40 anos de hist\u00f3ria argentina (mais ainda: apesar de isso se ter convertido em pol\u00edtica de Estado durante alguns anos), ainda continuamos sem saber onde se encontram os restos mortais de milhares de desaparecidos, desconhecemos o paradeiro de centenas de pessoas sequestradas em sua inf\u00e2ncia que ainda n\u00e3o recuperaram sua identidade, e nem todos os culpados foram condenados, al\u00e9m do que (o que \u00e9 igualmente monstruoso) continuamos n\u00e3o admitindo o fato de que a ditadura n\u00e3o teve como \u00fanico objetivo extinguir o projeto pol\u00edtico revolucion\u00e1rio, mas tamb\u00e9m, e sobretudo, instalar um regime econ\u00f4mico que \u00e9 respons\u00e1vel pelas grandes desigualdades da sociedade argentina contempor\u00e2nea. As empresas mais pr\u00f3speras da economia argentina s\u00e3o as que mais e melhor se beneficiaram durante a ditadura; as bases econ\u00f4micas que ela criou s\u00e3o aquelas em que a nossa economia se baseia hoje. Diante de tudo isso confrontar o passado se torna perempt\u00f3rio na Argentina, n\u00e3o apenas em nome desse passado, como tamb\u00e9m para compreender o presente.<\/p>\n<p><b>Em uma entrevista, Juan Gabriel V\u00e1squez afirmou que recordar \u00e9 um ato moral. Concorda?<\/b><\/p>\n<p>Em parte sim. Para mim, recordar, como disse Rodolfo Walsh em sua Carta Aberta \u00e0 Junta Militar, escrita pouco antes de ser assassinado, sup\u00f5e &#8220;a satisfa\u00e7\u00e3o moral de um ato de liberdade&#8221; em uma \u00e9poca que n\u00e3o \u00e9 muito moral e fustiga esses atos tanto como ontem.<\/p>\n<p><b>Ali\u00e1s, voc\u00ea acredita que escritores t\u00eam uma obriga\u00e7\u00e3o moral para com seus personagens e seus leitores?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o. Penso que os escritores t\u00eam uma obriga\u00e7\u00e3o para com as discuss\u00f5es do nosso tempo e essa obriga\u00e7\u00e3o consiste em enriquecer essas discuss\u00f5es por meio de alguma coisa que n\u00e3o seja a repeti\u00e7\u00e3o dos mesmos velhos argumentos de sempre.<\/p>\n<p><b>Como conseguiu chegar a esse estilo de escrita t\u00e3o transparente, aparentemente antienf\u00e1tico?<\/b><\/p>\n<p>Vivi e cresci sob uma ditadura militar que perseguiu pessoas como meus pais e em que adotar uma identidade falsa e fingir transpar\u00eancia eram habilidades das quais as pessoas dependiam para sobreviver. Se a literatura \u00e9 o exerc\u00edcio de um engano calculado, crescer nessas condi\u00e7\u00f5es foi a melhor escola que algu\u00e9m pode ter. Adotar disfarces, passar despercebido, n\u00e3o revelar a profunda ferida que alguns arrastam consigo \u00e9 o que nos transformou em escritores.<\/p>\n<p><b>Provocar a simpatia e a compreens\u00e3o pela dor humana \u00e9 mais f\u00e1cil pela literatura?<\/b><\/p>\n<p>Acho que a literatura \u00e9 o \u00faltimo ref\u00fagio de uma vontade de ir ao encontro do outro e que, sob os nomes de empatia e compreens\u00e3o, est\u00e1 na base da arte e tamb\u00e9m da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Quero crer que esse livro n\u00e3o \u00e9 sobre mim ou sobre meus pais, mas sobre o descobrimento doloroso, por\u00e9m necess\u00e1rio, do outro.<\/p>\n<p><b>O que pensa sobre filhos de torturadores que repudiam seus pais e os que os defendem, mas rejeitam a barbaridade de seus atos?<\/b><\/p>\n<p>A dor que nos afligiu a todos que fomos tocados pela hist\u00f3ria nos coloca no limite da linguagem, uma vez que n\u00e3o parece poss\u00edvel dizer nada (sem ter vivido) sobre certas experi\u00eancias, como encontrar algu\u00e9m que tenha sido criado pelo assassino de seus pais verdadeiros. Como reagir, como viver depois disso, \u00e9 uma quest\u00e3o que nem mesmo quem atravessou essa experi\u00eancia pode responder. Mas acredito que essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da literatura: dizer o que n\u00e3o parece ser poss\u00edvel, pensar o que \u00e9 aparentemente impens\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de anos afastado de seu pa\u00eds, a Argentina, jovem escritor retorna da Alemanha porque seu pai, um jornalista, est\u00e1 morrendo. 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