{"id":167280,"date":"2018-01-22T07:17:36","date_gmt":"2018-01-22T09:17:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=167280"},"modified":"2018-01-22T07:17:36","modified_gmt":"2018-01-22T09:17:36","slug":"kamau-revisita-disco-de-2008-e-marco-do-hip-hop-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/kamau-revisita-disco-de-2008-e-marco-do-hip-hop-nacional\/","title":{"rendered":"Kamau revisita disco de 2008 e marco do hip-hop nacional"},"content":{"rendered":"<p>Ao caminhar pelo Ateli\u00ea Studio, na Bela Vista, em S\u00e3o Paulo, Marcus Vinicius Andrade e Silva teve um encontro com sua vers\u00e3o de si de uma d\u00e9cada atr\u00e1s. Como se visse, diante dele, o Kamau de 2008, de caneta em punho, beats disparados pelas caixas de som e um punhado de ideias na cabe\u00e7a. &#8220;Isso t\u00e1 acontecendo neste momento&#8221;, ele diz, ao telefone, enquanto ri.<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, Kamau finalizava e lan\u00e7ava &#8220;Non Ducor Duco&#8221;, a estreia dele como artista solo &#8211; depois de ter se firmado como integrante de grupos como Instituto, Simples e Consci\u00eancia, todos respons\u00e1veis por ajudar a quebrar as correntes que teimavam em prender o hip-hop. O g\u00eanero \u00e9 outro hoje, est\u00e1 nas r\u00e1dios, soma milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no YouTube e de audi\u00e7\u00f5es nas plataformas de m\u00fasica digital. Profissionalizou-se, cresceu e se expandiu. Nomes do rap contempor\u00e2neo s\u00e3o os novos rock stars, gente que fala com a molecada, como Emicida, Rashid, Rincon Sapi\u00eancia, Baco Exu do Blues, Djonga, Flora Matos, Don L (a lista \u00e9 longa e poderia, facilmente, chegar at\u00e9 o fim desse texto).<\/p>\n<p>O rapper volta a mergulhar naquele universo de 2008 no pr\u00f3ximo domingo, 28, quando inicia a celebra\u00e7\u00e3o dos 10 anos de &#8220;Non Ducor Duco&#8221; com uma apresenta\u00e7\u00e3o no Centro Cultural S\u00e3o Paulo, \u00e0s 18h.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada passada, quando Kamau despontou e saiu-se bem na sua estreia solo, o hip-hop era outro. Existia um grande muro chamado preconceito, escalado aos poucos, um rapper puxando o outro at\u00e9 o topo. Principalmente, o movimento era mais desorganizado, mais sobrevivia do que vivia. Era comum encontrar can\u00e7\u00f5es de artistas com nomes trocados, t\u00edtulos errados e cr\u00e9ditos trocados, por exemplo. &#8220;Naquela \u00e9poca, lembro de encontrar m\u00fasicas que eram minhas creditadas como do Consequ\u00eancia, ou do Simples que diziam ser minha. Era uma bagun\u00e7a&#8221;, conta o Kamau de 2018. &#8220;Certa vez, me mostraram uma m\u00fasica chamada Princesa e o Plebeu, creditada a Kamau e Jackson. E eu fiquei confuso. Quando fui ver, era uma m\u00fasica chamada Sem Chance, do Simples&#8221;, diverte-se.<\/p>\n<p>Por isso, Kamau era corajoso ao entrar naquele est\u00fadio com quatro ou cinco batidas e algumas rimas anotadas para criar seu disco de estreia. Seu nome art\u00edstico havia sido escolhido em um livro de KL Jay, dos Racionais MCs, e significa &#8220;guerreiro silencioso&#8221;. Kamau fez o oposto. Fez barulho.<\/p>\n<p>Da\u00ed vem o t\u00edtulo do \u00e1lbum, &#8220;Non Ducor Duco&#8221;, frase escrita no bras\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo. &#8220;N\u00e3o sou conduzido, conduzo&#8221;, diz a tradu\u00e7\u00e3o. Era o que Kamau sentia, dez anos atr\u00e1s, nesse esfor\u00e7o de se colocar sozinho a gravar um \u00e1lbum. T\u00edtulo encontrado pelo rapper nos \u00f4nibus municipais, um daqueles milhares de detalhes da cidade grande que passam despercebidos durante o cotidiano e cantados no disco. &#8220;O t\u00edtulo seria Parte de Mim&#8221;, conta. Seria o mesmo de uma das faixas do disco, criada por volta de 2005, mas a ideia foi deixada para tr\u00e1s depois que ele viu, num outdoor, um artista sertanejo (&#8220;n\u00e3o lembro quem!&#8221;) cujo disco era esse.<\/p>\n<p>Kamau, ao entrar no est\u00fadio, sabia como seu disco come\u00e7aria e como chegaria ao fim. O miolo era a quest\u00e3o. No meio do processo, viveu um bloqueio que o fez ser incapaz de compor por seis anos. Como pagava o est\u00fadio por hora, rodou a cidade, encontrou os amigos, buscou sobre o que escrever. &#8220;Foi ent\u00e3o que fui para Curitiba&#8221;, ele conta. Passou uma semana na casa do produtor Vinicius Nave, com quem trabalhou em algumas batidas e, ao voltar, o n\u00f3 estava desatado.<\/p>\n<p>&#8220;Non Ducor Duco&#8221; \u00e9 um retrato de uma \u00e9poca, da vida noturna, do ritmo do rap de dez anos atr\u00e1s, das quest\u00f5es pessoais que afligiam o rapper (como &#8220;Vida&#8221;, uma despedida de duas pessoas importantes para ele que se foram). Inclui nomes como Rincon Sapi\u00eancia, Rashid, Emicida e Stefanie MC reunidos em &#8220;Porque Eu Rimo&#8221;, uma faixa direta, sem refr\u00e3o, com versos \u00edntimos sobre MCs que viriam a se tornar grandes.<\/p>\n<p>Kamau tem boa mem\u00f3ria, o que o ajuda a viver essa volta ao tempo por conta dos shows de &#8220;Non Ducor Duco&#8221; &#8211; o que n\u00e3o afasta a dor das partidas vividas na \u00e9poca. Dias depois do primeiro show do disco, ele perdeu o amigo DJ Primo, algu\u00e9m que o acompanhou durante todo o processo e participou da apresenta\u00e7\u00e3o. &#8220;Ele foi muito importante para esse disco&#8221;, conta.<\/p>\n<p>H\u00e1 um enigma temporal daqueles dignos de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica aqui, veja s\u00f3: talvez se &#8220;Non Ducor Duco&#8221; sa\u00edsse hoje, teria chegado a um p\u00fablico ainda maior; ao mesmo tempo, se n\u00e3o houvesse existido em 2008, o hip-hop de hoje seria outro. &#8220;Eu estava arriscando ali. Tinha que dar tudo de mim&#8221;, diz. &#8220;Hoje, vejo a galera ouvindo esse disco como se fosse de hoje. Isso me deixa feliz.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao caminhar pelo Ateli\u00ea Studio, na Bela Vista, em S\u00e3o Paulo, Marcus Vinicius Andrade e Silva teve um encontro com sua vers\u00e3o de si de uma d\u00e9cada atr\u00e1s. 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