{"id":168624,"date":"2018-02-03T07:53:46","date_gmt":"2018-02-03T09:53:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=168624"},"modified":"2018-02-03T07:53:46","modified_gmt":"2018-02-03T09:53:46","slug":"livro-de-contos-assustadores-consagra-autora-russa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/livro-de-contos-assustadores-consagra-autora-russa\/","title":{"rendered":"Livro de contos assustadores consagra autora russa"},"content":{"rendered":"<p>A carreira liter\u00e1ria da escritora russa Liudmila Petruch\u00e9vskaia divide-se em antes e depois de 1986 &#8211; at\u00e9 esta data, sua gaveta ficou abarrotada de textos originais, censurados pelo governo da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Naquele ano, com a instaura\u00e7\u00e3o da perestroika (a reconstru\u00e7\u00e3o e abertura pol\u00edtica e econ\u00f4mica comandada por Mikhail Gorbachev), Liudmila passou a ser lentamente publicada e festejada, gra\u00e7as a uma prosa seca e direta, mas tamb\u00e9m inc\u00f4moda e absorvente, o que a tornou para muitos uma herdeira de Edgar Allan Poe e Gogol.<\/p>\n<p>Afinal, a sombria realidade na qual era obrigada a viver sob o regime comunista moldou sua escrita, cujas hist\u00f3rias geralmente cont\u00eam elementos m\u00edsticos ou aleg\u00f3ricos e que s\u00e3o usados para iluminar as sombrias condi\u00e7\u00f5es de vida sovi\u00e9tica e p\u00f3s-glasnot. \u00c9 o que se observa em Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Beb\u00ea da Vizinha, sele\u00e7\u00e3o de assustadoras hist\u00f3rias e contos de fada que a Companhia das Letras lan\u00e7a agora no Brasil, depois de consagrada nos Estados Unidos. Basta ler A Vingan\u00e7a, narrativa que inspira o t\u00edtulo sobre uma amizade que se deteriora com o nascimento de uma menina.<\/p>\n<p>O universo retratado por Liudmila reflete os horrores da vida dom\u00e9stica de uma sociedade que aboliu a privacidade, obrigando fam\u00edlias a viver em apartamentos subdivididos, esp\u00e9cie de minigulags, nos quais n\u00e3o existia intimidade. Mesmo assim, \u00e9 poss\u00edvel encontrar um bom humor embutido entre as palavras de Liudmila que, aos 79 anos, vive com sofreguid\u00e3o, n\u00e3o apenas escrevendo fic\u00e7\u00e3o e pe\u00e7as de teatro, como tamb\u00e9m trabalhando com desenhos animados e desenvolvendo uma carreira de cantora &#8211; h\u00e1 duas semanas, ela fez um pocket show em S\u00e3o Paulo. Foi nessa oportunidade que Liudmila respondeu \u00e0s seguintes quest\u00f5es &#8211; ela escreveu em russo, material que foi devidamente traduzido para o Estado pelo jornalista Irineu Franco Perp\u00e9tuo.<\/p>\n<p><b>Na \u00e9poca em que a senhora escrevia hist\u00f3rias que iam para a gaveta, por causa da censura, como conseguia observar uma evolu\u00e7\u00e3o em sua escrita? Ou seja, como conseguiu tirar proveito da falta de repercuss\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>A coisa sempre veio de uma vez. Como se me ditassem de cima, da primeira \u00e0 \u00faltima palavra, muito breve, e eu anotasse em um caderninho (que sempre tinha comigo, assim como uma caneta, e, se n\u00e3o tivesse l\u00e1pis, nem caneta, o conto desaparecia, e era uma trag\u00e9dia, como uma perda s\u00e9ria). Eu datilografava na m\u00e1quina de escrever, e levava \u00e0 reda\u00e7\u00e3o. Nos debates da reda\u00e7\u00e3o, riam de forma totalmente aberta de mim, e tamb\u00e9m daqueles que apreciavam meus textos. Mas, que estranho: meus contos, e depois tamb\u00e9m minhas pe\u00e7as, foram cair nas m\u00e3os de algu\u00e9m, e esses textos come\u00e7aram a ser datilografados em massa &#8211; isso se chamava samizdat. Com o tempo, passei a ser uma c\u00e9lebre escritora proibida, clandestina.<\/p>\n<p><b>Como a senhora, que n\u00e3o participa diretamente da pol\u00edtica, consegue manter uma arte politizada? Como separar uma coisa da outra?<\/b><\/p>\n<p>Meus contos n\u00e3o estavam impregnados de pol\u00edtica nenhuma, dessa luta dos dissidentes pelos direitos humanos. N\u00e3o escrevi nada contra o regime sovi\u00e9tico, contra o gulag, n\u00e3o era nem uma nega\u00e7\u00e3o das ideias do comunismo. Eu escrevia sobre as vidas das pessoas que se encontravam em situa\u00e7\u00e3o-limite. Sobre a infelicidade no amor e o peso da exist\u00eancia, sobre alco\u00f3latras e doentes, sobre velhos e crian\u00e7as pobres.<\/p>\n<p><b>Alguma vez a senhora mudou seu estilo de vida para ajudar seu trabalho como escritora?<\/b><\/p>\n<p>Sim, escrevi principalmente \u00e0 noite. Um marido, tr\u00eas filhos, depois uma m\u00e3e com paralisia. Tinha que alimentar todos, realizar as tarefas dom\u00e9sticas, lavar a lou\u00e7a, lavar a roupa, cuidar dos filhos, escrever contos para eles \u00e0 noite (tenho mais de 300 contos). E meu primeiro romance se chama A Hora: Noite.<\/p>\n<p><b>Suas hist\u00f3rias muitas vezes t\u00eam uma sensibilidade c\u00f4mica e um subconsciente dark. \u00c9 assim que a senhora v\u00ea o mundo?<\/b><\/p>\n<p>O mundo era assim para a mulher sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><b>Qu\u00e3o importante \u00e9 a perspectiva do narrador? Existe uma conex\u00e3o entre perspectiva e verdade?<\/b><\/p>\n<p>O leitor \u00e9 quem decide se o autor escreve a verdade. Sempre consideraram que eu escrevo a verdade.<\/p>\n<p><b>Obsess\u00f5es habitualmente s\u00e3o influ\u00eancias &#8211; quais seriam as da senhora?<\/b><\/p>\n<p>Deixei de beber, de fumar e de comer carne no meio da vida, e meus filhos, j\u00e1 crescidos, n\u00e3o bebem, n\u00e3o fumam e n\u00e3o comem carne. Depois, eu me proibi de jogar jogos de computador. Os filhos tamb\u00e9m. Meu mau h\u00e1bito agora \u00e9 n\u00e3o dormir \u00e0 noite. Fa\u00e7o qualquer coisa &#8211; escrevo, leio, desenho, assisto a filmes ou concursos de canto.<\/p>\n<p><b>Como define que um escrito ser\u00e1 prosa, teatro ou letra de m\u00fasica?<\/b><\/p>\n<p>\u00c0s vezes, entendo o que escrevi j\u00e1 &#8216;post factum&#8217; (depois de terminado). Aos versos, de repente, chega a m\u00fasica, surge uma can\u00e7\u00e3ozinha, e a pe\u00e7a, \u00e0s vezes, se torna t\u00e3o grande que voc\u00ea entende: isso \u00e9 um romance, s\u00f3 que em di\u00e1logos. Seja novela ou conto, \u00e0s vezes come\u00e7am a encenar a hist\u00f3ria no teatro, como mon\u00f3logo (recentemente, Fi\u00f3dor P\u00e1vlov Andr\u00eaievitch encenou no teatro o conto Novas Aventuras de Ielena Prekr\u00e1snaia, e o conto m\u00edstico O Sobretudo Preto foi encenado alternadamente em algumas esta\u00e7\u00f5es de Moscou como espet\u00e1culo no estilo de rap).<\/p>\n<p><b>Quais escritores que derrubaram barreiras que a senhora hoje admira?<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1, h\u00e1 muito tempo, s\u00f3 leio prosa documental e hist\u00f3rias de detetives. No passado, gostava dos cl\u00e1ssicos russos dos s\u00e9culos 19 e 20, do Bunin tardio; de Dostoievski, apenas O Idiota e, de Chekhov, apenas os quatro primeiros tomos. Gostava de \u00c0 Sombra das Raparigas em Flor, de Proust, de Jos\u00e9 e Seus Irm\u00e3os, de Thomas Mann, de O Grande Gatsby, O Apanhador no Campo de Centeio, Bonequinha de Luxo e A Ponte de San Luis Rey, e tamb\u00e9m Cem Anos de Solid\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Muitas de suas hist\u00f3rias s\u00e3o consideradas &#8216;fant\u00e1sticas&#8217;, mas trazem um conte\u00fado muito realista. Acredita que chegar\u00e1 o dia em que as pessoas v\u00e3o notar o verdadeiro terror, ou seja, a mis\u00e9ria implac\u00e1vel que transforma os seres humanos em monstros?<\/b><\/p>\n<p>Os monstros se tornam doentes, ou naqueles que o poder corrompeu, ainda que em uma mesma pessoa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A carreira liter\u00e1ria da escritora russa Liudmila Petruch\u00e9vskaia divide-se em antes e depois de 1986 &#8211; at\u00e9 esta data, sua gaveta ficou abarrotada de textos originais, censurados pelo governo da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Naquele ano, com a instaura\u00e7\u00e3o da perestroika (a reconstru\u00e7\u00e3o e abertura pol\u00edtica e econ\u00f4mica comandada por Mikhail Gorbachev), Liudmila passou a ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":168625,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-168624","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=168624"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":168626,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168624\/revisions\/168626"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/168625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=168624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=168624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=168624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}