{"id":168637,"date":"2018-02-03T08:27:39","date_gmt":"2018-02-03T10:27:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=168637"},"modified":"2018-02-03T08:27:54","modified_gmt":"2018-02-03T10:27:54","slug":"populacao-relata-clima-de-guerra-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/populacao-relata-clima-de-guerra-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"Popula\u00e7\u00e3o relata clima de guerra no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o poder sair para trabalhar por causa de tiroteios. Passar o dia deitado no ch\u00e3o de casa para n\u00e3o ser atingido. Testemunhar a execu\u00e7\u00e3o a sangue frio de vizinhos. Ter a casa completamente destru\u00edda por granadas e tiros de fuzil. O cotidiano de popula\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de guerra n\u00e3o difere muito do que as pessoas vivem em comunidades conflagradas no Rio.<\/p>\n<p>Cidade de Deus, na zona oeste, e Rocinha, na zona sul, foram as regi\u00f5es da cidade que mais registraram tiroteios neste ano: 41 e 32 confrontos armados, respectivamente, pelo menos um por dia. Os n\u00fameros s\u00e3o do aplicativo Onde Tem Tiroteio (OTT-RJ). Os conflitos acontecem basicamente entre grupos de traficantes de droga e policiais, que tentam retomar o controle das comunidades<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o vem se agravando a cada dia, desde o fim do ano passado, com a crise financeira do Estado e o desmantelamento das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), que durante alguns anos chegaram a garantir um cotidiano menos violento nas comunidades. \u00c9 o que aconteceu na Cidade de Deus, onde a situa\u00e7\u00e3o se agravou tanto nos \u00faltimos dias que a Linha Amarela, uma das principais vias que cortam a cidade e margeiam a favela, chegou a ser fechada por dois dias seguidos por tiroteios.<\/p>\n<p>As cenas de desespero de motoristas paralisados na Linha Amarela, se arrastando pelo ch\u00e3o, tentando proteger crian\u00e7as dos tiros s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o mais chocantes do que as vivenciadas pelos moradores das comunidades diariamente.<\/p>\n<p>&#8220;Desde o fim de outubro, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grave&#8221;, atesta Rafa Gufe, de 32 anos, produtora cultural, integrante do coletivo Hip Hop West Coast-RJ, moradora da localidade do Karat\u00ea, que ela compara \u00e0 Faixa de Gaza, onde ocorre a maior parte dos confrontos entre policiais e traficantes na comunidade. &#8220;Voc\u00ea acorda com helic\u00f3ptero da pol\u00edcia na janela, com rajadas (de submetralhadora) Z62, com gritos das pessoas pedindo socorro e sendo executadas na frente sem que voc\u00ea possa fazer nada.&#8221;<\/p>\n<p>O produtor cultural Bruno Rafael, de 38 anos, simplesmente n\u00e3o conseguiu voltar para casa, na quinta-feira, quando foi registrado um dos mais intensos tiroteios na comunidade, onde vivem pelo menos 38 mil pessoas. &#8220;Tive de ficar no centro, onde trabalho&#8221;, conta. &#8220;N\u00e3o passava nenhum \u00f4nibus para a Cidade de Deus.&#8221;<\/p>\n<p>Bruno e seu irm\u00e3o, o professor Leonardo Alves, de 36 anos, mant\u00eam uma escola de Muay Thai na comunidade h\u00e1 quatro anos e meio, que atende 350 pessoas, entre elas quase uma centena de crian\u00e7as. Com os fortes tiroteios dos \u00faltimos dias, a escola simplesmente n\u00e3o p\u00f4de abrir as portas. &#8220;Os pais n\u00e3o deixam as crian\u00e7as sa\u00edrem de casa por causa dos tiroteios e o n\u00famero de alunos s\u00f3 faz diminuir&#8221;, conta Alves.<\/p>\n<p><b>Rocinha &#8211;<\/b>\u00a0Encravada em parte dos bairros mais ricos do Rio, como S\u00e3o Conrado e G\u00e1vea, a Rocinha vem enfrentando um cotidiano semelhante. A guerra entre dois grupos de traficantes rivais se agravou em setembro e, na semana passada, atingiu seu auge, com mais uma invas\u00e3o violenta da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7ou 9h30 da quinta-feira e ficou muito intensa depois do meio-dia, com a chegada do Bope, ganhando contornos de guerra&#8221;, relata um analista de sistemas, morador da comunidade, que n\u00e3o quis se identificar e, com medo, se mudou esta semana de casa. &#8220;Foram armas de calibre que nunca tinha escutado, muita granada, muita bomba, fuzil. Os traficantes invadiram o pr\u00e9dio, a pol\u00edcia invadiu o pr\u00e9dio. Eu e minha esposa passamos o dia inteiro deitados no ch\u00e3o, no escuro, porque est\u00e1vamos sem luz, torcendo para que o pior n\u00e3o acontecesse. Quando ela se levantou para comer algo, quase foi alvejada.&#8221;<\/p>\n<p>No fim do dia, quando o tiroteio terminou, o cen\u00e1rio era devastador. &#8220;Come\u00e7amos a ouvir vozes de pessoas pedindo socorro. Sa\u00ed de casa para ver o que estava acontecendo e j\u00e1 mandei minha esposa fazer a mala para sairmos dali. Quando cheguei na rua, tinham umas tr\u00eas casas pegando fogo, um mar de c\u00e1psulas de bala, curto-circuito por todos os lados, corpo e restos de corpos pelos becos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o poder sair para trabalhar por causa de tiroteios. Passar o dia deitado no ch\u00e3o de casa para n\u00e3o ser atingido. Testemunhar a execu\u00e7\u00e3o a sangue frio de vizinhos. 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