{"id":169086,"date":"2018-02-07T08:55:57","date_gmt":"2018-02-07T10:55:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=169086"},"modified":"2018-02-07T08:55:57","modified_gmt":"2018-02-07T10:55:57","slug":"uma-obra-menor-de-todd-mas-que-e-maravilhosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-obra-menor-de-todd-mas-que-e-maravilhosa\/","title":{"rendered":"Uma obra menor de Todd, mas que \u00e9 maravilhosa"},"content":{"rendered":"<p>Talvez n\u00e3o seja muito f\u00e1cil traduzir Wonderstruck &#8211; caminh\u00e3o de maravilhas, maravilhamento, maravilhado(a). Qualquer que seja a tradu\u00e7\u00e3o adotada, vai diferir radicalmente de Sem F\u00f4lego, que \u00e9 como se chama no Brasil o longa de Todd Haynes adaptado do livro de Brian Selznick. O autor \u00e9 o mesmo que inspirou A Inven\u00e7\u00e3o de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, que tanto sucesso fez &#8211; exagerado, at\u00e9 &#8211; de p\u00fablico e cr\u00edtica. Em contrapartida, Sem F\u00f4lego est\u00e1 sendo visto como uma obra menor do autor de Longe do Para\u00edso, N\u00e3o Estou L\u00e1 e Carol.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na moda criticar os filmes por excesso de beleza. Me Chame pelo Seu Nome, do italiano Luca Guadagnino, est\u00e1 sendo desqualificado sob esse argumento esdr\u00faxulo. Sem F\u00f4lego tamb\u00e9m \u00e9 bonito (demais?), realizado com aquele olho para o cuidado de \u00e9poca t\u00e3o caracter\u00edstico de Haynes. Longe do Para\u00edso j\u00e1 era uma revis\u00e3o do melodrama sirkiano e, agora, aprofundando a liga\u00e7\u00e3o, Haynes pega carona num cl\u00e1ssico de Douglas Sirk para elaborar (no plural) suas imita\u00e7\u00f5es da vida, como bem assinalou a cr\u00edtica do The New York Times.<\/p>\n<p>Duas hist\u00f3rias &#8211; dois espa\u00e7os, dois tempos. A menina em 1927 e o garoto em 1977, ambos deficientes auditivos. Rose abandona um lugarejo de New Jersey e busca em Nova York a m\u00e3e, famosa estrela que acolhe crian\u00e7as carentes na tela e no palco, mas ignora a pr\u00f3pria filha. Ben tenta resolver o mist\u00e9rio do desaparecimento do pai. Inicialmente, n\u00e3o \u00e9 surdo, mas \u00e9 atingido por um raio e perde a audi\u00e7\u00e3o. Haynes conta a hist\u00f3ria dela em preto e branco, como se fosse um filme do per\u00edodo silencioso. E inscreve a dele numa colorida e trepidante Nova York. Esses mundos naturalmente separados por 50 anos v\u00e3o colidir.<\/p>\n<p>Pode ser que seja por esse confronto, ou pela efervesc\u00eancia nova-iorquina, mas Sem F\u00f4lego \u00e9 realmente um pouco demais. Sem F\u00f4lego poderia ser a tradu\u00e7\u00e3o literal de \u00c0 Bout de Souffle, o grande filme de Jean-Luc Godard, marco definidor da nouvelle vague, lan\u00e7ado no Brasil h\u00e1 quase 60 anos como Acossado e que estar\u00e1 de volta \u00e0s salas do Pa\u00eds nesta quinta, 8, em c\u00f3pias estalando de novas. Michel Poiccard\/Jean-Paul Belmondo vai arrastar Patrici\u00e1\/Jean Seberg por aquele caminho sem volta, motivado pelo disparo daquele rev\u00f3lver louco (Gun Crazy\/Mortalmente Perigosa, o filme dentro do filme, projetado no cinema que a dupla invade). Esque\u00e7a Acossado. No quarto de Ben, no filme de Haynes, h\u00e1 uma cita\u00e7\u00e3o de Oscar Wilde. &#8220;Estamos todos na sarjeta, mas alguns olham para as estrelas.&#8221; Ben olha a frase e Haynes corta para Rose, que olha a foto da m\u00e3e na capa de uma revista.<\/p>\n<p>Mundos paralelos que se refletem como espelhos. Mais at\u00e9 do que em Hugo Cabret, \u00e9 o mist\u00e9rio do cinema &#8211; som, imagem, montagem &#8211; que une as hist\u00f3rias de Wonderstruck e permite ao cineasta retomar seus grandes temas. Identidade e linguagem. N\u00e3o Estou L\u00e1, em especial, n\u00e3o trata de outra coisa. As crian\u00e7as est\u00e3o tentando fugir de suas vidas. De alguma forma reescrevem suas hist\u00f3rias &#8211; como o Bob Dylan de muitas faces de Haynes. A arte, para o diretor, \u00e9 uma (re)constru\u00e7\u00e3o permanente. A arte de contar, de inventar, de se reinventar. N\u00e3o propriamente a realidade, mas o v\u00e9u pintado da sua imita\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as, e especialmente a menina, Millicent Simmonds, s\u00e3o maravilhosas. A trilha tem ecos de Major Tom, o astronauta m\u00edtico, e fict\u00edcio, criado por David Bowie e que atravessa toda uma fase da carreira do artista genial que morreu em janeiro de 2016 &#8211; em Manhattan, Nova York.<\/p>\n<p>No limite, o grande personagem da caixa de maravilhas de Haynes \u00e9 o pr\u00f3prio cinema. O segredo \u00e9 entregar-se \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, e ao convidar o espectador para essa viagem ele se cerca de uma equipe excepcional, formada por colaboradores habituais &#8211; fotografia de Edward Lachman, dire\u00e7\u00e3o de arte de Mark Friedberg, figurinos de Sandy Powell, etc. S\u00f3 sonhando, nesse estado do mundo, \u00e9 poss\u00edvel tocar as estrelas e o maior desafio, t\u00e9cnico e est\u00e9tico, do filme \u00e9 a sua cena final, que engloba tudo. A live action vira diorama, e sem esse modo de apresenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, tridimensional e realista, Wonderstruck talvez n\u00e3o resolvesse seu mist\u00e9rio. O mais fascinante \u00e9 que, sendo um autor racional, Haynes espera que essa viagem passe pela mente, antes que pelo cora\u00e7\u00e3o do seu p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez n\u00e3o seja muito f\u00e1cil traduzir Wonderstruck &#8211; caminh\u00e3o de maravilhas, maravilhamento, maravilhado(a). Qualquer que seja a tradu\u00e7\u00e3o adotada, vai diferir radicalmente de Sem F\u00f4lego, que \u00e9 como se chama no Brasil o longa de Todd Haynes adaptado do livro de Brian Selznick. 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