{"id":169104,"date":"2018-02-07T09:31:21","date_gmt":"2018-02-07T11:31:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=169104"},"modified":"2018-02-07T09:54:14","modified_gmt":"2018-02-07T11:54:14","slug":"raca-genero-e-classe-determinam-se-jovem-continua-ou-nao-estudando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/raca-genero-e-classe-determinam-se-jovem-continua-ou-nao-estudando\/","title":{"rendered":"Ra\u00e7a, g\u00eanero e classe indicam se jovem continua estudando"},"content":{"rendered":"<p>Quando ingressou no curso de Economia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-SP), por cotas, em 2012, Gabriela Mendes Chaves j\u00e1 estava acostumada com a tripla jornada que desempenhava. Ainda durante o Ensino M\u00e9dio, al\u00e9m do estudo regular, ela fazia cursinho na Faculdade de Economia, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), aos s\u00e1bados, e ainda trabalhava.<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio das aulas, Gabriela percebeu ainda que o trabalho dom\u00e9stico, uma realidade para ela, n\u00e3o era comum aos cerca de 40 homens e nove mulheres que eram seus colegas de sala: &#8220;Essa quest\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e tripla jornada perpassa a vida sempre. No trabalho, na faculdade ou em outros espa\u00e7os h\u00e1 uma cobran\u00e7a para que a gente tenha o mesmo desempenho, tendo responsabilidades e fun\u00e7\u00f5es diferentes&#8221;, diz ao lembrar que apenas ela e outro homem eram negros em sua classe.<\/p>\n<p>Passados 14 anos da implementa\u00e7\u00e3o de cotas raciais na Universidade de Bras\u00edlia (UnB), a primeira a adotar o sistema, institui\u00e7\u00f5es ainda t\u00eam dificuldades de entender as especificidades de alunos ingressantes por esse meio.<\/p>\n<p>Rose de Paula, estudante de Pol\u00edticas P\u00fablicas na Universidade Federal do ABC (UFABC), ingressou na institui\u00e7\u00e3o por meio de cotas. Ela afirma que muitos professores ainda enxergam essa pol\u00edtica como privil\u00e9gio concedido a alguns estudantes. Para ela, no entanto, a medida \u00e9 um &#8220;ajustamento&#8221;, um &#8220;desagravo&#8221;, &#8220;como se fosse uma indeniza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de tudo que nos foi tirado&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Aos 30 anos e m\u00e3e de dois filhos, Rose s\u00f3 teve oportunidade de entrar na universidade depois que surgiram as pol\u00edticas inclusivas. Ela lembra uma ocasi\u00e3o em que discutiu com um dos seus professores durante um debate sobre cotas. Rose questionou se havia base de compara\u00e7\u00e3o entre a estrutura oferecida ao professor branco e de classe m\u00e9dia alta, com a que os negros obtiveram ao longo da hist\u00f3ria: &#8220;Enquanto os antepassados dele estavam construindo um futuro melhor para ele, os meus tamb\u00e9m estavam construindo esse mesmo futuro melhor para ele como escravos e sem condi\u00e7\u00e3o de preparar de forma alguma o terreno para os seus&#8221;.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a hist\u00f3rica, explica Rose, at\u00e9 hoje divide oportunidades entre brancos e negros, pobres e ricos e homens e mulheres.<\/p>\n<p>Alunos negros ainda se deparam com outro complicador: o fato de muitos deles morarem nas periferias das grandes cidades ou longe das institui\u00e7\u00f5es de ensino, demandando um grande tempo de deslocamento.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso de Rose que levava uma hora e meia entre o bairro do Jabaquara, na regi\u00e3o Sul da cidade de S\u00e3o Paulo, e a UFABC, no munic\u00edpio de S\u00e3o Bernardo do Campo. J\u00e1 Gabriela, gastava quase tr\u00eas horas. Ela morava na cidade de Tabo\u00e3o da Serra e estudava na PUC, localizada no bairro de Perdizes, na regi\u00e3o central da capital paulista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do deslocamento, se manter financeiramente na universidade \u00e9 outro desafio. Breno Rosa, que passou neste ano no curso de Jornalismo na Universidade Federal do Mato Grosso e se prepara para sair de S\u00e3o Paulo rumo ao centro-oeste do pa\u00eds, sabe que vai ter que conciliar estudo e emprego. O jovem negro passou por meio do Sisu, o Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada, criado em 2010 pelo ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o do governo Lula, Fernando Haddad.<\/p>\n<p>Breno Rosa explica que sem o Sisu n\u00e3o teria como ingressar na faculdade. &#8220;Para jovens negros negros de baixa renda, esses programas s\u00e3o muito ben\u00e9ficos. Sem eles, o ingresso na faculdade p\u00fablica seria bem mais dif\u00edcil&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Dados do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o revelam que, entre 2012, ano de san\u00e7\u00e3o da Lei de Cotas, e 2015, a participa\u00e7\u00e3o de negros na educa\u00e7\u00e3o superior passou de 2,6% para 5,3%. No caso de ind\u00edgenas, saltou de 10.282 matr\u00edculas para 32.147, no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Os alunos oriundos de escola p\u00fablica que acessaram a educa\u00e7\u00e3o superior passaram a representar 64,3% do total de matr\u00edculas em 2015. Tr\u00eas anos antes, esse n\u00famero era de 39,6%.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando ingressou no curso de Economia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-SP), por cotas, em 2012, Gabriela Mendes Chaves j\u00e1 estava acostumada com a tripla jornada que desempenhava. 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