{"id":169729,"date":"2018-02-14T07:45:21","date_gmt":"2018-02-14T09:45:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=169729"},"modified":"2018-02-14T07:45:21","modified_gmt":"2018-02-14T09:45:21","slug":"fera-na-selva-sobe-aos-palcos-em-otima-adaptacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fera-na-selva-sobe-aos-palcos-em-otima-adaptacao\/","title":{"rendered":"&#8216;A Fera na Selva&#8217; sobe aos palcos em \u00f3tima adapta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O amor \u00e9 um desencontro. H\u00e1 sempre um que ama mais que outro, aqueles que amam na hora errada ou que n\u00e3o sabem amar quem lhes quer bem. No espet\u00e1culo Aproximando-se de A Fera na Selva, em cartaz no Centro Cultural S\u00e3o Paulo, o ponto de partida \u00e9 um relacionamento amoroso desigual do final do s\u00e9culo 19. Uma mulher que \u00e9 toda zelo e abnega\u00e7\u00e3o; um homem que n\u00e3o consegue enxergar o que vai diante do nariz. Mote ao qual se somam dados hist\u00f3ricos, feitos extraordin\u00e1rios e dores comezinhas.<\/p>\n<p>Ao primeiro plano, saltam os elementos do romance de Henry James, A Fera na Selva. Estrutura ficcional \u00e0 qual s\u00e3o sobrepostas as biografias do autor norte-americano e da escritora Constance Fenimore Woolson. Por fim, o texto se ancora tamb\u00e9m no presente quando chama aten\u00e7\u00e3o para os int\u00e9rpretes, Hel\u00f4 Cintra Castilho e Gabriel Miziara. Aqui, eles entram e saem de seus personagens. Transformando-se, sobretudo, em narradores de uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assinada por Marina Corazza, a dramaturgia ilumina com propriedade os pontos de contato entre a vida e a obra dos literatos retratados. Mas n\u00e3o se det\u00e9m nesse jogo. Vai adiante ao explorar, por exemplo, o que teria relegado Florence ao esquecimento.<\/p>\n<p>Popular em vida, reconhecida por seus contos, poemas e novelas, ela sumiu do cen\u00e1rio intelectual, em percurso inverso ao de James. Para a hist\u00f3ria, sobrou como reminisc\u00eancia da vida privada do escritor; aquela que, abandonada, teria se matado por amor. Resgatar a personagem das sombras e dot\u00e1-la de brilho pr\u00f3prio \u00e9, ali\u00e1s, um dos m\u00e9ritos da montagem. Nesse percurso, a atriz encontra um belo ponto de equil\u00edbrio em sua interpreta\u00e7\u00e3o: o lugar de Constance era aquele reservado \u00e0s mulheres de seu tempo. A condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o a redime e sublima por completo sua personalidade e escolhas individuais.<\/p>\n<p>Paulatinamente, os tra\u00e7os de Constance s\u00e3o embaralhados aos da protagonista de A Fera na Selva. Escrito dez anos depois do seu suic\u00eddio, o livro d\u00e1 conta da amb\u00edgua rela\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o entre um homem, Marcher, e uma mulher, May. Convencido de que a vida lhe reservava alguma grande surpresa, algo t\u00e3o belo quanto terr\u00edvel, Marcher passa os anos \u00e0 espera do acontecimento. May, a \u00fanica que conhece esse seu segredo, decide aguardar ao seu lado. E ambos levam os anos de relacionamento assim: na expectativa de que uma s\u00fabita e magn\u00edfica revela\u00e7\u00e3o venha distingui-los do resto do mundo.<\/p>\n<p>Henry James escreveu e publicou algumas pe\u00e7as. As incurs\u00f5es pelo texto dram\u00e1tico nunca lhe renderam gl\u00f3ria e ele, for\u00e7osamente, aceitou que n\u00e3o levava jeito para o palco. Muito dessa experi\u00eancia, contudo, lhe foi \u00fatil para os romances e novelas que produziu no fim da vida &#8211; entre eles, A Fera na Selva, de 1903. Afiada e repleta de di\u00e1logos reluzentes, a prosa do americano cabe confortavelmente na boca dos atores.<\/p>\n<p>No por\u00e3o do Centro Cultural S\u00e3o Paulo, recentemente reformado, a ac\u00fastica costuma comprometer boa parte dos espet\u00e1culos apresentados. N\u00e3o \u00e9 o caso da atual cria\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o de Mal\u00fa Baz\u00e1n dribla as dificuldades sonoras com o uso de duas camadas de cortinas que cercam o palco. Os tecidos servem para conter a reverbera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o s\u00f3. S\u00e3o tamb\u00e9m um meio de delimitar tempos e espa\u00e7os. Com esses m\u00ednimos elementos de cena e poucas pe\u00e7as de figurino, entregam-se ao espectador as chaves necess\u00e1rias para que apreenda quebras e descontinuidades: o momento em que os int\u00e9rpretes representam os dois escritores, a passagem em que assumem o lugar dos personagens de A Fera na Selva, seus apartes como narradores. Tudo est\u00e1 transparente.<\/p>\n<p>Igualmente sem afeta\u00e7\u00f5es, mostram-se a trilha sonora e a ilumina\u00e7\u00e3o. Com simplicidade, a luz auxilia nesse tr\u00e2nsito pelos diferentes n\u00edveis da pe\u00e7a. Cria tamb\u00e9m um ambiente suficientemente austero para que, mesmo as cenas de maior poder emocional, n\u00e3o chafurdem no sentimentalismo: Caso da particular cerim\u00f4nia conduzida por James em Veneza, ap\u00f3s o suic\u00eddio da amiga. De g\u00f4ndola, ele atravessou os canais at\u00e9 chegar ao mar aberto, levando seus vestidos nos bra\u00e7os. Com o remo, tentou fazer as roupas afundarem. Mas elas retornavam \u00e0 superf\u00edcie. Inv\u00f3lucros vazios que insistiam em permanecer \u00e0 vista. Como recorda\u00e7\u00f5es dolorosas da vida inteira que poderia ter sido e n\u00e3o foi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor \u00e9 um desencontro. H\u00e1 sempre um que ama mais que outro, aqueles que amam na hora errada ou que n\u00e3o sabem amar quem lhes quer bem. 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