{"id":170041,"date":"2018-02-16T09:01:38","date_gmt":"2018-02-16T11:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=170041"},"modified":"2018-02-16T09:01:38","modified_gmt":"2018-02-16T11:01:38","slug":"anelis-assumpcao-encerra-jejum-com-fartura-em-disco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/anelis-assumpcao-encerra-jejum-com-fartura-em-disco\/","title":{"rendered":"Anelis Assump\u00e7\u00e3o encerra jejum com a fartura em disco"},"content":{"rendered":"<p>Benedito, de 6 anos, j\u00e1 estava de banho tomado, dentes escovados, debaixo das cobertas. Dormia, enfim. Ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, Anelis Assump\u00e7\u00e3o caminhava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha. Sentava-se \u00e0 mesa, acendia um cigarro e punha-se a escrever naquele c\u00f4modo espa\u00e7oso, com uma mesa de seis lugares, decorado com uma parede pintada de rosa-choque. Escrevia, escrevia, escrevia, noite adentro, com fruteira ao lado, sobre a mesa. Come\u00e7ava por volta das 23h, sem hor\u00e1rio para acabar.<\/p>\n<p>Artista herdeira de um dos sobrenomes mais importantes e impactantes da m\u00fasica brasileira, Anelis \u00e9 a arte em processos, de degustar as fases, in\u00edcio, meio e fim dos seus discos. E dos per\u00edodos em \u00e1lbuns, tamb\u00e9m. Sua carreira nunca foi de pressa. Sozinha tinha dois \u00e1lbuns, Sou Suspeita, Estou Sujeita, N\u00e3o Sou Santa (2011) e Anelis Assump\u00e7\u00e3o e os Amigos Imagin\u00e1rios (2014). Antes disso, em 2010, celebrou a obra do pai Itamar com o lan\u00e7amento da Caixa Preta. Cantou no disco da irm\u00e3 Serena, lan\u00e7ado em 2016. Nesse meio tempo, realizou shows em homenagem a Paulo Vanzolini, Clara Nunes e a Peter Tosh. Ufa.<\/p>\n<p>Tudo isso para dizer que os quatro anos que separam o disco Amigos Imagin\u00e1rios e Taurina, lan\u00e7ado nesta sexta-feira, 16, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o distantes assim. Taurina sai pelo selo Scubidu Music e foi realizado com o aux\u00edlio do edital Natura Musical e tem a apresenta\u00e7\u00e3o de lan\u00e7amento marcada para o dia 16 de mar\u00e7o, no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros. \u00c9 um dia importante, com significados, dores e sabores. Taurina ter\u00e1 um m\u00eas de exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m \u00e9 a data na qual, dois anos antes, Serena Assump\u00e7\u00e3o, irm\u00e3 e tamb\u00e9m artista, se foi, ap\u00f3s lutar contra um c\u00e2ncer de mama. H\u00e1 muito a conectar esses dois sentimentos t\u00e3o difusos, contudo. Anelis \u00e9 uma artista de etapas. E eles, sacanas e inconscientes, misturam tudo.<\/p>\n<p>&#8220;E, para mim, os processos s\u00e3o longos&#8221;, explica Anelis Assump\u00e7\u00e3o, em entrevista ao Estado. &#8220;Eles deveriam ser assim, mesmo. A gente vive num momento de efemeridade, de coisas r\u00e1pidas.&#8221; S\u00e3o tempos de degusta\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, afinal, do ambiente de m\u00fasica por streaming, das playlists e das audi\u00e7\u00f5es rasas. &#8220;\u00c9 preciso tempo, tamb\u00e9m, para analisar uma obra, avali\u00e1-la, perceb\u00ea-la dentro do contexto hist\u00f3rico no qual ela se encontra. O disco ajuda a contar a hist\u00f3ria de um momento&#8221;, conclui.<\/p>\n<p>E, degustar Taurina, leva tempo. Inclusive para a pr\u00f3pria autora &#8220;Embora eu tivesse escrito um monte de coisa, comecei a ter uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente de alguns dos textos de quando eles surgiram. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o entendia porque escrevia daquela forma. Eu, mesma, n\u00e3o conseguia entender quem eram esses personagens ditos no disco. Depois, s\u00f3 depois, percebi e achei que tive instinto, ou previa algo, que depois aquilo tudo faria sentido no meu cora\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Taurina \u00e9, de fato, um \u00e1lbum de sentidos. De gostos. Anelis tem as sensa\u00e7\u00f5es, a culin\u00e1ria e os sabores como base para sua composi\u00e7\u00e3o h\u00e1 tempos, mas no seu terceiro \u00e1lbum, ela destrava a fechadura de vez, deixa as met\u00e1foras rechearem o disco de cores, cheiros e temperos.<\/p>\n<p>Mas cuidado, pede Anelis, ao conectar o t\u00edtulo do disco com o estere\u00f3tipo daqueles nascidos sob a constela\u00e7\u00e3o de touro, costumeiramente vistos como comil\u00f5es: \u00e9 reducionista. &#8220;N\u00e3o gostaria que as pessoas estacionassem na ideia de que o disco se chama Taurina por isso. H\u00e1 tantos outros crit\u00e9rios. Gosto de astrologia, mas n\u00e3o sou astr\u00f3loga&#8221;, diz Anelis. Taurina, o t\u00edtulo, leva a reflex\u00e3o para o animal, para a vaca, este animal que \u00e9 doa\u00e7\u00e3o por inteiro, do leite, da carne, do couro, do osso. E tamb\u00e9m \u00e9 sagrado, para as culturas orientais. Por fim, \u00e9 xingamento, \u00e9 ofensa. \u00c9 feminista, por fim, por ser um mergulho pela identidade feminina, pela transforma\u00e7\u00e3o social e for\u00e7a das mulheres. \u00c9 tamb\u00e9m um nado a bra\u00e7adas pela profundeza de sentimentos de Anelis ao longo dos \u00faltimos quatro anos, quando passou a reunir as can\u00e7\u00f5es que comporiam o \u00e1lbum e iniciava as conversas com Beto Villares, o produtor do disco &#8211; o parceiro Z\u00e9 Nigro \u00e9 coprodutor.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o escrita em parceria com Serena Assump\u00e7\u00e3o, a dolorida Ch\u00e1 de Jasmim, que versa um amor perdido e dolorido. De Itamar, vem Receita R\u00e1pida, uma can\u00e7\u00e3o quase in\u00e9dita, lan\u00e7ada apenas por Alzira E, no disco dela de 1996, Pe\u00e7a-Me. &#8220;Alzira sempre foi uma inspira\u00e7\u00e3o para mim, por ser essa cantora e compositora&#8221;, conta Anelis. &#8220;E gosto de sempre estar pr\u00f3xima de meu pai.&#8221; Bonita tamb\u00e9m \u00e9 Gosto Serena, desta vez s\u00f3 de Anelis, um tratado sobre a saudade &#8211; essa palavra sem gosto. &#8220;S\u00f3 depois percebi que tinha rela\u00e7\u00f5es profundas com a minha irm\u00e3 e a doen\u00e7a dela, com o fato de ela ter ido embora e eu ter perdido algu\u00e9m, mais uma vez. Escrevia no momento no qual n\u00e3o queria falar sobre isso&#8221;, explica.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia, em Taurina, \u00e9 fome, \u00e9 jejum, \u00e9 desgosto e falta de gosto. \u00c9 cesta vazia, \u00e9 xepa, \u00e9 estrago e azedo, como em Caro\u00e7o, can\u00e7\u00e3o escrita e cantada por Anelis e Russo Passapusso, da fundamental banda BaianaSystem. &#8220;Fiquei s\u00f3 pele e osso e o jejum \u00e9 voc\u00ea \/ Jejum, oh jejum! \/ Nunca mais eu comi teu feij\u00e3o \/ Oh Jejum! \/ Nunca mais segurei tua m\u00e3o \/ Oh jejum! \/ T\u00e1 sem sal sem tempero sem gosto \/ O sorriso saiu do meu rosto \/ At\u00e9 o brilho do sol ficou fosco \/ Me diz por qu\u00ea \/ T\u00f4 sem comer.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 seis anos atr\u00e1s, Anelis Assump\u00e7\u00e3o escrevia no escrit\u00f3rio da casa dela transformado em quarto do segundo filho, Benedito. Foi para a cozinha, onde a vida, para ela, pulsa. \u00c9 l\u00e1 que se ajuntam nas festinhas e de onde saem as mais mundanas refei\u00e7\u00f5es de caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o e jantar. Onde, de certo, riu e chorou. De l\u00e1 sai Taurina, do lado da fruteira, do cheiro de fruta, do azedo e do doce, como a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Benedito, de 6 anos, j\u00e1 estava de banho tomado, dentes escovados, debaixo das cobertas. Dormia, enfim. Ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, Anelis Assump\u00e7\u00e3o caminhava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha. Sentava-se \u00e0 mesa, acendia um cigarro e punha-se a escrever naquele c\u00f4modo espa\u00e7oso, com uma mesa de seis lugares, decorado com uma parede pintada de rosa-choque. 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