{"id":171029,"date":"2018-02-25T10:22:49","date_gmt":"2018-02-25T13:22:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=171029"},"modified":"2018-02-25T10:22:49","modified_gmt":"2018-02-25T13:22:49","slug":"jovens-militares-do-rio-temem-ir-guerra-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jovens-militares-do-rio-temem-ir-guerra-em-casa\/","title":{"rendered":"Jovens militares do Rio temem ir a &#8216;guerra em casa&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O soldado A. viveu dias de apreens\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras da opera\u00e7\u00e3o conjunta das For\u00e7as Armadas e da pol\u00edcia na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, pouco antes do carnaval. Seu temor era ser convocado para atuar na pr\u00f3pria comunidade onde nasceu, foi criado e ainda vive com a fam\u00edlia. A., a m\u00e3e e a av\u00f3 s\u00f3 se sentiram aliviados quando saiu a escala de servi\u00e7o: o rapaz, militar h\u00e1 um ano, fora designado para atividades no quartel.<\/p>\n<p>&#8220;Seria muito desconfort\u00e1vel. Tem gente que cresceu comigo e hoje est\u00e1 no tr\u00e1fico. N\u00e3o sei como ia reagir na hora H&#8221;, contou A., revelando um drama pelo qual v\u00eam passando pra\u00e7as envolvidos na interven\u00e7\u00e3o federal no Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Jovens como A., oriundos de comunidades pobres, que ingressaram nas For\u00e7as Armadas em busca de emprego est\u00e1vel e ascens\u00e3o social, temem ser vistos por traficantes no papel de inimigo. Isso poderia desencadear repres\u00e1lia para si e para parentes. Para se resguardar, quando em miss\u00f5es nas favelas, eles usam m\u00e1scaras que cobrem o rosto inteiro &#8211; apenas os olhos ficam de fora.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 hoje fui poupado, eles d\u00e3o prefer\u00eancia a pessoas de fora. Mas se tiver de ir, n\u00e3o vai ter jeito. Vou fazer tudo para n\u00e3o ser reconhecido&#8221;, disse A.. &#8220;Eu n\u00e3o me envolvo com ningu\u00e9m, mas tenho amigo do lado de l\u00e1. Todo mundo tem. Procuro nem passar perto. Acredito na interven\u00e7\u00e3o e na constru\u00e7\u00e3o de um Rio e um Pa\u00eds melhor se as opera\u00e7\u00f5es forem s\u00e9rias. S\u00f3 n\u00e3o adianta fazer opera\u00e7\u00e3o e sair. Tem de ficar&#8221;, continuou.<\/p>\n<p>Segundo A., \u00e9 comum que informa\u00e7\u00f5es sobre as investidas militares cheguem antes aos ouvidos dos traficantes, por causa da conviv\u00eancia natural nas favelas. &#8220;Eu nunca informei, mas um vai comentando com o outro, e todo mundo acaba sabendo&#8221;, explicou o jovem.<\/p>\n<p>O soldado n\u00e3o imaginava que o cerco \u00e0 Cidade de Deus antecederia a interven\u00e7\u00e3o, decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) ap\u00f3s o carnaval, com dura\u00e7\u00e3o prevista at\u00e9 31 de dezembro. A preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o dos jovens que servem nas comunidades j\u00e1 existia desde que foi decretada a opera\u00e7\u00e3o de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), h\u00e1 sete meses. Foi quando come\u00e7aram a\u00e7\u00f5es conjuntas entre militares e policiais no combate \u00e0 viol\u00eancia no Rio.<\/p>\n<p><b>Aux\u00edlio-moradia &#8211;\u00a0<\/b>Em janeiro, ao defender a volta do aux\u00edlio-moradia para militares, extinto em 2000, o comandante da Marinha, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, declarou que o benef\u00edcio era fundamental porque as fam\u00edlias do contingente empregado em \u00e1reas com tr\u00e1fico &#8220;ficam vulner\u00e1veis e s\u00e3o amea\u00e7adas&#8221;. O almirante tamb\u00e9m considerou que &#8220;o risco de contamina\u00e7\u00e3o da tropa (pela proximidade com os traficantes) \u00e9 grande&#8221;. A fala foi endossada pelo comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas Boas.<\/p>\n<p>Militares que participaram em 2017 de a\u00e7\u00f5es na Favela da Rocinha, zona sul, tamb\u00e9m temeram ser identificados. Ali, havia agravante: a comunidade era dominada por bandidos de uma quadrilha que se dividiu em duas fac\u00e7\u00f5es diferentes &#8211; Amigo dos Amigos e Comando Vermelho &#8211; e entraram em confronto.<\/p>\n<p>A parcela do efetivo de moradores de l\u00e1 ou de outras favelas sob o jugo de bandidos desses grupos se sentiu duplamente amea\u00e7ada. Alguns chegaram a usar m\u00e1scaras com desenho de caveira, o que causou medo na popula\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o nos superiores, que mandaram que fossem retiradas. &#8220;Incomoda demais (a m\u00e1scara). Gera terror&#8221;, contou um morador da Kelson&#8217;s que testemunhou opera\u00e7\u00f5es militares em sua comunidade no in\u00edcio da semana. Por\u00e9m, diz, \u00e9 compreens\u00edvel que os soldados queiram se resguardar.<\/p>\n<p>Uma representante comunit\u00e1ria da Cidade de Deus confirma que os jovens alistados no servi\u00e7o militar vivem o dilema entre o dever e o risco que correm. &#8220;Os rapazes da comunidade que servem nas For\u00e7as ficam nessa tens\u00e3o. Os moradores sabem quem se alistou, as m\u00e3es comentam, as fam\u00edlias comemoram. Com opera\u00e7\u00f5es frequentes, muda de figura. Eles saem \u00e0 paisana e trocam a roupa no quartel&#8221;, contou uma representante comunit\u00e1ria da Cidade de Deus.<\/p>\n<p><b>Guerra &#8211;\u00a0<\/b>Lideran\u00e7a do Complexo do Chapad\u00e3o, na zona norte, Gl\u00e1ucia dos Santos denunciou \u00e0 Anistia Internacional o barril de p\u00f3lvora que pode se tornar um confronto que divide jovens que foram criados juntos e t\u00eam armas de alto calibre nas m\u00e3os. &#8220;Est\u00e3o tentando criar uma guerra nas favelas&#8221;, disse Gl\u00e1ucia, cujo filho de 17 anos foi morto pela pol\u00edcia em 2013. &#8220;A maioria que vai para o Ex\u00e9rcito \u00e9 favelada e h\u00e1 essa rivalidade com os que foram para o tr\u00e1fico. Eles v\u00e3o enfrentar o pr\u00f3prio povo: v\u00e3o se matar.&#8221;<\/p>\n<p>Fundador da ONG Rio de Paz, Antonio Carlos Costa foi um dos primeiros a chamar a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o. &#8220;Os soldados s\u00e3o moradores das comunidades, e isso causa dois problemas: a possibilidade de informa\u00e7\u00f5es sobre as opera\u00e7\u00f5es vazarem e os jovens sofrerem retalia\u00e7\u00f5es, virar alvo, especialmente se houver muitas baixas. O interventor deve cuidar.&#8221;<\/p>\n<p>O Comando Militar do Leste (CML) informou que j\u00e1 toma precau\u00e7\u00f5es para a seguran\u00e7a dos militares que moram em favelas e vai intensific\u00e1-las. Mas admitiu que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel alocar apenas jovens que n\u00e3o sejam das proximidades da \u00e1rea em que v\u00e3o atuar. O uso de balaclavas (toucas ninjas que cobrem o rosto) \u00e9 permitido. Mas o pano deve ser escuro e sem desenhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O soldado A. viveu dias de apreens\u00e3o \u00e0s v\u00e9speras da opera\u00e7\u00e3o conjunta das For\u00e7as Armadas e da pol\u00edcia na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, pouco antes do carnaval. Seu temor era ser convocado para atuar na pr\u00f3pria comunidade onde nasceu, foi criado e ainda vive com a fam\u00edlia. 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