{"id":171347,"date":"2018-02-28T16:08:54","date_gmt":"2018-02-28T19:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=171347"},"modified":"2018-02-28T16:08:54","modified_gmt":"2018-02-28T19:08:54","slug":"venezuelanos-vivem-de-sonhos-em-abrigo-insalubre-de-roraima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/venezuelanos-vivem-de-sonhos-em-abrigo-insalubre-de-roraima\/","title":{"rendered":"Venezuelanos vivem de sonhos em abrigo insalubre de Roraima"},"content":{"rendered":"<p>Manuel e a mulher n\u00e3o param de tossir, mas sorriem, porque seu beb\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais com sarampo. H\u00e1 anos eles faziam parte da classe m\u00e9dia em sua Venezuela natal, mas agora compartilham o solo e as doa\u00e7\u00f5es brasileiras em um abrigo insalubre de Boa Vista com centenas de compatriotas que, como eles, fugiram da fome e da crise.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia vive h\u00e1 um m\u00eas no gin\u00e1sio Tancredo Neves, na capital de Roraima, a 200 km da fronteira com a Venezuela.<\/p>\n<p>O gin\u00e1sio foi declarado abrigo para os venezuelanos em 2017, quando o fluxo migrat\u00f3rio explodiu e ocupou pra\u00e7as, parques e esquinas da tranquila cidade de 330.000 habitantes.<\/p>\n<p>Barracas, redes, peda\u00e7os de papel\u00e3o: as pessoas dormem como podem em Tancredo Neves. Um ou outro privilegiado tem um colch\u00e3o. As roupas ficam penduradas por toda parte.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o deveria abrigar no m\u00e1ximo 180 pessoas, segundo a Ag\u00eancia da ONU para os Refugiados (Acnur). Mas as estimativas oficiais dizem que h\u00e1 mais de 600 refugiados. A prefeitura de Boa Vista calcula que s\u00e3o cerca de 40.000 venezuelanos em todo o estado.<\/p>\n<p>A maioria procede do leste da Venezuela, menos povoado. Pelo oeste, mais de meio milh\u00e3o j\u00e1 fugiu para a Col\u00f4mbia, buscando melhores horizontes, j\u00e1 que seu pa\u00eds est\u00e1 mergulhado numa terr\u00edvel crise econ\u00f4mica e o governo est\u00e1 cada vez mais isolado do cen\u00e1rio continental.<\/p>\n<p><strong>Sobreviv\u00eancia &#8211;\u00a0<\/strong>Os dois p\u00e1tios do gin\u00e1sio est\u00e3o impregnados com o cheiro de madeira queimada. Muitos cozinham em fogareiros improvisados com latas. Sopa, macarr\u00e3o ou arroz com algumas verduras ajudam a matar a fome, e isso para os mais afortunados.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o consegue alimentos depende da cozinha comunit\u00e1ria, um pequeno espa\u00e7o mal acondicionado, onde alguns volunt\u00e1rios se revezam para preparar refei\u00e7\u00f5es com produtos doados.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se pode comer isso&#8221;, lamenta Katiuska, de 43 anos, que questiona a higiene da cozinha e n\u00e3o olha com bons olhos o ensopado com arroz e verduras feito dentro de uma lata de \u00f3leo suja.<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro meses ela deixou a Venezuela com seu marido e dois filhos &#8220;para mudar de vida&#8221;. Mas, no abrigo improvisado, &#8220;n\u00e3o se vive e sim sobrevive&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Eles dormem em uma tenda de papel\u00e3o, sob uma \u00e1rvore. Uma localiza\u00e7\u00e3o privilegiada em uma cidade onde as temperaturas chegam a 36\u00baC, mas que de pouco servir\u00e1 quando come\u00e7arem as chuvas amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p>&#8220;A situa\u00e7\u00e3o dos venezuelanos est\u00e1 piorando neste tipo de ref\u00fagio porque \u00e9 insalubre e promove o aumento de doen\u00e7as como sarna, dermatites, gripe, asma e alergias&#8221;, afirma o m\u00e9dico da rede municipal, Raimundo de Sousa.<\/p>\n<p>Em um Estado dominado pelas florestas tropicais, doen\u00e7as contagiosas como o sarampo est\u00e3o reaparecendo e, segundo o dr. Sousa, a lota\u00e7\u00e3o do ref\u00fagio agrava a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 a Venezuela &#8211;\u00a0<\/strong>No fundo do p\u00e1tio, uma galinha corre em torno de uma fogueira onde jovens fervem \u00e1gua para fazer caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;Essa galinha s\u00f3 est\u00e1 viva porque aqui n\u00e3o \u00e9 a Venezuela&#8221;, afirma Luis, de 19 anos. &#8220;N\u00e3o sabemos quando chegou aqui, apenas apareceu; ela \u00e9 como a gente, sem casa, por isso cuidamos dela&#8221;, acrescenta Maikel, de 17. Eles riem e a comparam com a galinha que foge na primeira cena do filme &#8220;Cidade de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Os volunt\u00e1rios come\u00e7am a trabalhar na cozinha. A equipe diz que faz de tudo para que a comida d\u00ea para todos. At\u00e9 onde podem, respeitam a ordem de crian\u00e7as primeiro, depois as mulheres e os homens. Se sobra algo, podem repetir, mas nunca sobra.<\/p>\n<p>A poucos metros, M\u00f3nica Becker, de 31 anos, faz o asseio de seu filho mais novo, um beb\u00ea ainda de colo.<\/p>\n<p>Vendedora ambulante em Puerto La Cruz, no Caribe venezuelano, a mais de 1.000 km de dist\u00e2ncia, foi embora com seus dois filhos e ficou sem dinheiro na fronteira, mas conseguiu chegar a Boa Vista com passagens dadas pela igreja.<\/p>\n<p>A mulher est\u00e1 grata por ter onde dormir, mas lamenta o estado dos banheiros, apenas um para os homens e outro para mulheres e crian\u00e7as. Neste \u00faltimo, h\u00e1 cinco vasos sanit\u00e1rios e o mau cheiro chega at\u00e9 a entrada.<\/p>\n<p>As mulheres fazem o asseio com a \u00e1gua que recolhem em latas de torneiras que ficam \u00e0 altura dos joelhos. As duas pias servem de estantes para colocar toalhas e mudas de roupa. O ch\u00e3o est\u00e1 inundado.<\/p>\n<p>M\u00f3nica chora por ter deixado sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o na Venezuela. &#8220;N\u00e3o queria que meus filhos morressem de fome, por isso vim para c\u00e1&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Mas espera que a crise acabe para poder voltar pra seu pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Futuro &#8211;<\/strong> O gin\u00e1sio Tancredo Neves fica em um bairro de classe baixa na populosa zona oeste de Boa Vista. For\u00e7as de seguran\u00e7a tomam conta da entrada e acabam de instalar c\u00e2meras e um sistema de pulseiras para controlar o acesso.<\/p>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 horr\u00edvel. N\u00e3o quero isso para minhas filhas&#8221;, diz Norbelys Linares, que trabalha em um mercado em troca de comida e algum dinheiro. Em uma boa semana, envia para casa 20 reais para ajudar na educa\u00e7\u00e3o de suas filhas. &#8220;Prefiro que n\u00e3o comam, mas que estudem. Que sejam algu\u00e9m na vida&#8221;.<\/p>\n<p>Magro, pele curtida pelo sol e aparentando ter mais que seus 33 anos, Norbelys, que estudava contabilidade, espera alcan\u00e7ar uma situa\u00e7\u00e3o financeira para poder trazer suas filhas, de 9 e 12 anos. Ela tem apenas uma manta e uma mochila de onde tira uma boneca de pano.<\/p>\n<p>&#8220;Comprei para elas&#8221;, explica, embora n\u00e3o saiba quando poder\u00e1 dar o brinquedo para as filhas, e essa incerteza a faz chorar. Ela aperta a boneca nos bra\u00e7os. &#8220;Ao menos sinto que as tenho aqui comigo&#8221;, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel e a mulher n\u00e3o param de tossir, mas sorriem, porque seu beb\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais com sarampo. 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