{"id":171473,"date":"2018-03-01T14:21:39","date_gmt":"2018-03-01T17:21:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=171473"},"modified":"2018-03-01T14:21:39","modified_gmt":"2018-03-01T17:21:39","slug":"intervencao-no-rio-traz-mas-lembrancas-aos-moradores-da-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/intervencao-no-rio-traz-mas-lembrancas-aos-moradores-da-mare\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o no Rio traz m\u00e1s lembran\u00e7as aos moradores da Mar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 se passaram tr\u00eas anos desde a ocupa\u00e7\u00e3o militar da Mar\u00e9, mas a perspectiva de volta das For\u00e7as Armadas n\u00e3o traz boas lembran\u00e7as aos moradores deste conjunto de favelas, um dos mais violentos do Rio de Janeiro. Algumas fam\u00edlias, como a de Vitor Santiago, ficaram marcadas para sempre.<\/p>\n<p>Vitor, um amante da dan\u00e7a, ficou parapl\u00e9gico aos 29 anos e precisou ter uma perna amputada, ap\u00f3s ser atingido por disparos de uma patrulha militar quando voltava para casa de carro com amigos depois de assistir a um jogo do Flamengo.<\/p>\n<p>Foi em 12 de fevereiro de 2015. Um grupo de soldados os havia revistado e, mais adiante, em outro ponto de revista, um militar atirou contra o carro sem motivo algum, segundo a den\u00fancia apresentada pela fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O cabo denunciado disse ter atirado porque o carro n\u00e3o obedeceu a ordem de parar.<\/p>\n<p>Para Irone, a aguerrida m\u00e3e de Vitor, essa situa\u00e7\u00e3o seria impens\u00e1vel em Copacabana ou Ipanema, bairros nobres da capital fluminense. Seu filho pagou por ser negro e favelado, garante.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 muitas pessoas que infelizmente n\u00e3o denunciam, n\u00e3o falam, mas eu falo, eu denunciei porque acho que quando a gente cala, est\u00e1 legitimando a a\u00e7\u00e3o dessa gente e n\u00e3o posso permitir que essa coisa se perpetue&#8221;, diz \u00e0 AFP esta costureira de 53 anos.<\/p>\n<div id=\"attachment_171475\" style=\"width: 930px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-171475\" class=\"wp-image-171475 size-full\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001.jpg\" alt=\"\" width=\"920\" height=\"613\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001.jpg 920w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001-696x464.jpg 696w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/imagens-do-dia-violencia-rio-brasil-20171130-001-630x420.jpg 630w\" sizes=\"auto, (max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><p id=\"caption-attachment-171475\" class=\"wp-caption-text\">Soldado do ex\u00e9rcito passa por uma crian\u00e7a, durante opera\u00e7\u00e3o. Foto: Leo Correa\/AFP<\/p><\/div>\n<p><strong>A experi\u00eancia da Mar\u00e9 &#8211;\u00a0<\/strong>O testemunho de Irone ganha for\u00e7a nestes dias, depois que o presidente Michel Temer decretou a interven\u00e7\u00e3o federal na seguran\u00e7a do estado do Rio, entregando-a \u00e0s For\u00e7as Armadas, sob cr\u00edticas e temores de que ocorram viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Em julho passado, 8.500 soldados j\u00e1 tinham sido enviados para refor\u00e7ar a seguran\u00e7a no Rio em a\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), mas \u00e9 uma inc\u00f3gnita como v\u00e3o atuar a partir de agora.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o interventor federal, general Walter Souza Braga Netto, descartou a ocupa\u00e7\u00e3o permanente de comunidades, mas para muitos moradores da Mar\u00e9, a presen\u00e7a dos militares fez voltar lembran\u00e7as&#8230; E fantasmas.<\/p>\n<p>Se os militares retornarem, &#8220;eu acho que vai ser ruim porque aumentam os \u00edndices de viol\u00eancia e porque nem sempre \u00e9 como eles falam, eles chegam de uma forma super diferente, tratando todo o mundo mal. Aqui costumamos dizer que \u00e9 melhor sem eles do que com eles&#8221;, diz Tauane Gonz\u00e1lez, dona de casa de 21 anos, que leva as duas irm\u00e3s mais novas \u00e0 escola em uma das ruelas da Mar\u00e9.<\/p>\n<p>Sem &#8216;eles&#8217;, o que se v\u00ea em uma tarde neste complexo de favelas de 140.000 habitantes \u00e9 um burburinho de m\u00fasica e vizinhos indo e vindo entre lojas e casas simples.<\/p>\n<p>Mas com um olhar mais atento, tamb\u00e9m se ver\u00e1 jovens passando com fuzis AK-47 pendurados no ombro, outros vendendo drogas nas esquinas e adolescentes montados em motos luxuosas que os superam em tamanho, vigiando a \u00e1rea com r\u00e1dio-transmissores.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia das comunidades com os traficantes \u00e9 cotidiana, &#8220;normal&#8221;, desde que o territ\u00f3rio n\u00e3o seja alvo de disputas entre fac\u00e7\u00f5es. Quando as for\u00e7as de seguran\u00e7a entram, os problemas explodem e todos parecem suspeitos.<\/p>\n<p>A ideia evocada inicialmente pelo governo de fazer buscas coletivas em quarteir\u00f5es ou bairros inteiros durante a interven\u00e7\u00e3o despertou na Mar\u00e9 a mem\u00f3ria das tens\u00f5es e dos tiroteios vividos entre abril de 2014 e junho de 2015, quando o Ex\u00e9rcito entrou com a inten\u00e7\u00e3o &#8211; nunca realizada &#8211; de instalar ali uma Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP).<\/p>\n<p>&#8220;Foi horr\u00edvel porque muitas pessoas diziam que n\u00e3o tinham habilita\u00e7\u00e3o e tomavam moto, tomavam carro, tinha hor\u00e1rio para dormir, quando tinha confus\u00e3o era spray de pimenta no olho de todo mundo, era muito ruim&#8221;, lembra Tauane.<\/p>\n<p>O medo de repres\u00e1lias &#8211; tanto das for\u00e7as de seguran\u00e7a quanto dos traficantes &#8211; faz com que poucos queiram opinar em voz alta. Mas Rog\u00e9rio Modesto, de 40 anos, funcion\u00e1rio de uma cafeteria, tamb\u00e9m lembra a tens\u00e3o daqueles meses.<\/p>\n<p>Seu tio, afirma, acordou um dia com os militares dentro de casa, revistando todos os seus pertences.<\/p>\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o sabem quem \u00e9 quem, entendeu? Para ser sincero, eles s\u00e3o bem despreparados para fazer toda essa ocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um trabalho de 5 minutos, \u00e9 um trabalho de anos. N\u00e3o vai ser efetivo, vai ser tempor\u00e1rio. Ent\u00e3o, s\u00e3o coisas que n\u00e3o funcionam&#8221;, alertou.<\/p>\n<p><strong>Resultados eficazes? &#8211;\u00a0<\/strong>O Ex\u00e9rcito assegura que, quando deixou a Mar\u00e9, houve uma redu\u00e7\u00e3o dos homic\u00eddios: de 21 mortes por 100.000 habitantes para 5\/100.000.<\/p>\n<p>E o governo Temer diz que uma pesquisa demonstrou que 83% dos cariocas apoiam a interven\u00e7\u00e3o militar diante da escalada de viol\u00eancia que assola o Rio desde as Olimp\u00edadas de 2016.<\/p>\n<p>&#8220;Claro que essas pessoas com muito medo v\u00e3o apoiar qualquer medida que lhes traga algum alento&#8221;, diz Edson Diniz, coordenador de seguran\u00e7a da ONG Redes da Mar\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;Por conta de ter essa superfor\u00e7a maior, mais concentrada, a viol\u00eancia diminui em um primeiro momento. O problema \u00e9 que isso n\u00e3o se sustenta ao longo do tempo. A criminalidade voltou a aumentar, os \u00edndices voltaram a aumentar e quando [os militares] foram embora, esse processo meio que explodiu de vez&#8221;, acrescentou Diniz, que sugere que investir em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o seria mais eficaz.<\/p>\n<p>A Redes da Mar\u00e9 fez uma pesquisa com mil moradores sobre a ocupa\u00e7\u00e3o: 70% denunciaram as abordagens dos militares e um ter\u00e7o se declarou v\u00edtima de agress\u00f5es f\u00edsicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se passaram tr\u00eas anos desde a ocupa\u00e7\u00e3o militar da Mar\u00e9, mas a perspectiva de volta das For\u00e7as Armadas n\u00e3o traz boas lembran\u00e7as aos moradores deste conjunto de favelas, um dos mais violentos do Rio de Janeiro. Algumas fam\u00edlias, como a de Vitor Santiago, ficaram marcadas para sempre. 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