{"id":171786,"date":"2018-03-04T05:51:26","date_gmt":"2018-03-04T08:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=171786"},"modified":"2018-03-04T08:54:49","modified_gmt":"2018-03-04T11:54:49","slug":"jeca-tatu-continua-vivo-na-terra-de-monteiro-lobato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jeca-tatu-continua-vivo-na-terra-de-monteiro-lobato\/","title":{"rendered":"Jeca Tatu continua vivo na terra de Monteiro Lobato"},"content":{"rendered":"<p>O olhar continua desconfiado. As vestimentas s\u00e3o as mesmas: botina, cal\u00e7a e camisa esgar\u00e7ados, chap\u00e9u de abas largas. Em vez de agregado, ele agora \u00e9 funcion\u00e1rio. Na choupana, ainda reinam o fog\u00e3o, a lenha e o banquinho de tr\u00eas p\u00e9s. Do lado de fora, uma antena parab\u00f3lica denuncia a modernidade. Nos bolsos, nada de telefone celular. A\u00ed seria demais.<\/p>\n<p>O caipira do s\u00e9culo 21 permanece nas terras da Buquira, a fazenda do Vale do Para\u00edba que j\u00e1 foi do escritor Monteiro Lobato e lhe serviu de cen\u00e1rio para seu primeiro livro, Urup\u00eas, cujo conto inicial foi publicado nas p\u00e1ginas do Estado. No livro, aparecia pela primeira vez a figura do Jeca Tatu, descrito como uma esp\u00e9cie de &#8220;piolho da terra&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da comemora\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio do livro, lan\u00e7ado em 1918, o Estado percorreu trilhas do conto. E na pr\u00f3pria Buquira, hoje desmembrada em v\u00e1rias pequenas propriedades, encontrou Ant\u00f4nio Donizete, de 41 anos. &#8220;Estou acostumado na ro\u00e7a, n\u00e3o quero sair daqui n\u00e3o&#8221;, diz. &#8220;Fa\u00e7o meu ro\u00e7adinho, vivo sozinho cuidando da terra do patr\u00e3o. N\u00e3o penso em outra vida.&#8221;<\/p>\n<p>Como o personagem de Lobato, s\u00e3o poucos os motivos que fazem Donizete deixar a fazenda. Um deles \u00e9 o dia de elei\u00e7\u00e3o. &#8220;Votei na prefeita&#8221;, lembra ele, referindo-se \u00e0 \u00faltima elei\u00e7\u00e3o na pequena Monteiro Lobato, cidade a cerca de 130 quil\u00f4metros de S\u00e3o Paulo que ganhou o nome do mais ilustre mun\u00edcipe. &#8220;Agora n\u00e3o sei n\u00e3o. \u00c9 elei\u00e7\u00e3o pra que mesmo?&#8221;<\/p>\n<p>A propriedade que Donizete administra, mediante o pagamento de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, fica numa encosta de morro. Ali se cria &#8220;um gadinho&#8221; &#8211; cinco vacas leiteiras. Planta-se verdura numa pequena horta. &#8220;Os dias custam a passar&#8221;, diz o caipira do s\u00e9culo 21. &#8220;A \u00fanica distra\u00e7\u00e3o que tem \u00e9 a novelinha que passa na televis\u00e3o \u00e0 noite.&#8221;<\/p>\n<p>Na \u00e1rea urbana da pequena cidade, hoje com 4,4 mil habitantes, tamb\u00e9m se percebe o tempo passar devagar. Moradores em cadeiras nas cal\u00e7adas, um carro vez ou outra na rua, o latido distante de um cachorro. Em dias de festa, por\u00e9m, a localidade se transforma O grupo de catira Tangar\u00e1, que surgiu na d\u00e9cada de 1930, mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o da cultura tropeira com sua dan\u00e7a de passos firmes e palmas sincronizadas, ao ritmo da viola caipira. No mais, tudo \u00e9 puro marasmo.<\/p>\n<p>Na zona rural, pouco adiante da casinha ocupada por Donizete, existe uma pequena vila, abandonada, com s\u00f3 uma moradia habitada Nela vivem Alessandra Vaz, de 38 anos, e seus tr\u00eas filhos. Alessandra \u00e9 a mais perfeita tradu\u00e7\u00e3o da &#8220;caipirinha cor de jambo&#8221; citada por Lobato. Com um adicional que lhe confere atualidade: vive dos R$ 202 mensais do Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Morava na cidade, vendia espetinho na pra\u00e7a&#8221;, conta. &#8220;Mas sou da ro\u00e7a, aqui \u00e9 meu lugar, e resolvi voltar. Vou fazer uma lavoura para tirar o que comer e com o dinheiro que ganho do governo pago o aluguel.&#8221;<\/p>\n<p>Casar\u00e3o. Mais \u00e0 frente fica a antiga sede da Fazenda Buquira. Foi no casar\u00e3o de 19 c\u00f4modos e 80 janelas, constru\u00eddo em 1870, que Lobato rascunhou a l\u00e1pis os contos de Urup\u00eas, numa escrivaninha que at\u00e9 hoje pode ser vista na sala principal. Ele herdou a fazenda do av\u00f4, o Visconde de Trememb\u00e9, em 1911. Era uma grande propriedade, de 1.515 alqueires, que o jovem se empenhou em tornar rent\u00e1vel: modernizou a agricultura, importou cabras, abriu novas frentes de planta\u00e7\u00e3o, introduzindo as culturas de caf\u00e9, milho e feij\u00e3o.<\/p>\n<p>A antiga sede da fazenda pertence hoje \u00e0 professora aposentada Maria L\u00facia Ribeiro Guimar\u00e3es, de 75 anos. Seu av\u00f4 comprou a propriedade de Lobato. Ela relembra as dificuldades do escritor, que, depois de exercer carreira de promotor de Justi\u00e7a na vizinha Areias, resolveu virar fazendeiro para cuidar da propriedade herdada.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui ele sentiu na pele a dureza que \u00e9 ser um produtor rural e foi registrando tudo isso nos seus escritos, muitos deles enviados ao jornal O Estado de S. Paulo&#8221;, relata Maria Lucia.<\/p>\n<p>De acordo com o bi\u00f3grafo Edgar Cavalheiro, em seu Monteiro Lobato: Vida e Obra, s\u00f3 um ano e pouco depois de se tornar fazendeiro \u00e9 que o jovem escritor passou a atentar para os homens que o rodeavam.<\/p>\n<p>&#8220;V\u00edtima, como tantos outros lavradores, do instinto depredador do colono ou agregado, ele medita sobre o assunto e, de passagem, anota a possibilidade de uma obra de car\u00e1ter profundamente nacional tendo como centro, ou personagem principal, o caboclo&#8221;, anota o bi\u00f3grafo.<\/p>\n<p>No primeiro desses escritos de Lobato, eis que surge o perfil do homem nativo que habitava e, como se v\u00ea, ainda habita aquelas paragens: &#8220;Jeca Tatu \u00e9 um piraquara do Para\u00edba, maravilhoso ep\u00edtome de carne onde se resumem todas as caracter\u00edsticas da esp\u00e9cie&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar continua desconfiado. 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