{"id":173065,"date":"2018-03-18T00:00:13","date_gmt":"2018-03-18T03:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=173065"},"modified":"2018-03-17T10:20:42","modified_gmt":"2018-03-17T13:20:42","slug":"brincar-de-esconde-esconde-com-tudo-em-seu-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brincar-de-esconde-esconde-com-tudo-em-seu-lugar\/","title":{"rendered":"Brincar de esconde-esconde, com tudo em seu lugar"},"content":{"rendered":"<p>Na bancada da cozinha n\u00e3o h\u00e1 nada que esteja fora do lugar. Mais do que isso, nada aparece que n\u00e3o esteja l\u00e1 intencionalmente. O mesmo acontece nos outros c\u00f4modos da casa, onde tudo o que vemos \u00e9 belo. Os m\u00f3veis parecem seguir uma dan\u00e7a cuidadosa, as linhas sinuosas de uma poltrona se ajustam \u00e0s curvas da mesa de centro, enquanto a leveza da estante se contrap\u00f5e \u00e0 concretude do pesado banco ancorado em sua frente. O di\u00e1logo entre as coisas sugere desde um pas de deux\u2019s harm\u00f4nico at\u00e9 choques de antagonismo profundo, embora sempre tendo como premissa m\u00e1xima a expressividade. A beleza \u00e9 a regente.<\/p>\n<p>Quantas casas conhecemos que encontram na descri\u00e7\u00e3o acima uma verdade? Eu j\u00e1 vi muitas. Inclusive muitas que eu mesmo ajudei a construir \u2013 e ainda ajudo. Vou al\u00e9m: minha pr\u00f3pria casa pode perfeitamente ser vista dessa forma em muitos aspectos por alguns que talvez se incomodem com meus padr\u00f5es est\u00e9ticos e minha necessidade de viver em um lugar regulado pela harmonia visual. E muitas vezes esses s\u00e3o lugares onde as necessidades pr\u00e1ticas e a funcionalidade ficam relegadas ao segundo plano. Ou mais do que isso, onde o pensamento espacial fica intrincado e a tentativa de controle sobre a ordem das coisas impera.<\/p>\n<p>Desde a minha \u00faltima reforma que n\u00e3o tenho uma lixeira pequena sobre a bancada minha da cozinha. A verdade \u00e9 que a lixeira antiga se danificou durante a obra. Lembro de um dia t\u00ea-la visto sendo usada para preparar uma massa. N\u00e3o se tratava de um bolo, mas de rejunte para revestimento cer\u00e2mico. L\u00e1 e foi a minha lixeira. Mas a verdade \u00e9 que uma vez pronta a obra, nunca me mobilizei para comprar uma nova lixeira. Apesar da falta gigantesca que ela me fazia, n\u00e3o encontrava for\u00e7as para descer e andar menos de 200 metros at\u00e9 a loja mais pr\u00f3xima. Por uma raz\u00e3o que as coloca\u00e7\u00f5es acima podem perfeitamente interpretar, eu n\u00e3o queria lixo aparente. Quase como se quisesse esquecer que os res\u00edduos fazem parte da vida. E mais uma vez a beleza ganhou a luta com a praticidade.<\/p>\n<p>Essa luta \u00e9 cotidiana. Todos os dias tento aceitar o que meus olhos as vezes veem como imperfei\u00e7\u00f5es, mas que s\u00e3o de fato retratos da vida em sua forma mais pura. Pulsante e viva. \u00c9 lindo quando encontro sapatos jogados sobre o tapete da sala e sinto uma alegria por saber que eles foram tirados para trazer conforto e l\u00e1 deixados por que estar o tempo todo alerta cansa. N\u00e3o conseguir relaxar \u00e9 um mal que acomete muitos de n\u00f3s que padecemos dessa neurose da vida muito organizada.<\/p>\n<p>O mais curioso \u00e9 que eu n\u00e3o sou uma pessoa organizada. Minha natureza \u00e9 rebelde, sou multi-tarefa e nas muitas coisas que fa\u00e7o ao mesmo tempo, sei que vou deixando fios soltos pelo caminho. Tamb\u00e9m sei que vou passando de novo por todas as atividades que est\u00e3o sendo feitas ao mesmo tempo como se estivesse olhando o mundo em camadas sobrepostas, o retorno para encaixar alguma coisa aqui, levar outra pra l\u00e1, limpar uma outra ainda acol\u00e1. E isso vira quase que uma gincana. Desafio cotidiano. Por outro lado, minhas gavetas s\u00e3o buracos negros, meus arm\u00e1rios sempre t\u00eam coisas empilhadas, meus documentos todos juntos, nada separado. Me vingo dessa patologia querendo mesmo \u00e9 que tudo seja mais livre \u2013 e meus pap\u00e9is o s\u00e3o, definitivamente.<\/p>\n<p>Esconder o que consideramos feio ou imperfeito \u00e9 uma sa\u00edda usual, mas sabemos que a f\u00f3rmula n\u00e3o \u00e9 boa. Um dia a casa cai, as portas dos \u2018arm\u00e1rios escuros\u2019 se rompem e teremos que lidar com o que guardamos sem distin\u00e7\u00e3o ou discernimento de uma s\u00f3 vez. Na vida como na casa, brincar desse esconde-esconde s\u00f3 \u00e9 legal na inf\u00e2ncia. E sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encarar tudo de frente, aceitar a concretude em tudo e de tudo que existe. Mas \u00e9 o \u00fanico caminho nesse planeta. Inclusive relembrando sempre da nossa responsabilidade em consumir menos, acumular menos, nos esconder menos a verdade. Substituir essa ilus\u00e3o escondida em n\u00f3s pelo encontro com o poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na bancada da cozinha n\u00e3o h\u00e1 nada que esteja fora do lugar. Mais do que isso, nada aparece que n\u00e3o esteja l\u00e1 intencionalmente. O mesmo acontece nos outros c\u00f4modos da casa, onde tudo o que vemos \u00e9 belo. 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