{"id":174271,"date":"2018-03-27T16:36:26","date_gmt":"2018-03-27T19:36:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=174271"},"modified":"2018-03-28T18:53:30","modified_gmt":"2018-03-28T21:53:30","slug":"icone-de-uma-geracao-renato-russo-faria-58-anos-nesta-terca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/icone-de-uma-geracao-renato-russo-faria-58-anos-nesta-terca\/","title":{"rendered":"\u00cdcone de uma gera\u00e7\u00e3o, Renato Russo faria 58 anos nesta ter\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Aos 81 anos, Maria do Carmo Manfredini conserva mem\u00f3ria privilegiada, principalmente quando o assunto \u00e9 a hist\u00f3ria de Renato Russo, que completaria 58 anos nesta ter\u00e7a-feira (27). Ao falar do filho, que se transformou em figura ic\u00f4nica do rock brasileiro, n\u00e3o foge de quest\u00f5es pol\u00eamicas, como a homossexualidade e a depend\u00eancia de drogas do \u00eddolo. Mas, como m\u00e3e, prefere se ater \u00e0 rela\u00e7\u00e3o dele com a fam\u00edlia &#8211; principalmente no per\u00edodo que antecedeu \u00e0 fama e ao sucesso \u00e0 frente da Legi\u00e3o Urbana.<\/p>\n<p>Uma das lembran\u00e7as que ainda leva Dona Carminha &#8211; como ficou conhecida &#8211; a se emocionar \u00e9 de quando Renato, j\u00e1 em Bras\u00edlia, foi diagnosticado como portador de epifisi\u00f3lise, doen\u00e7a \u00f3ssea que o levou a ser submetido a uma cirurgia para a implanta\u00e7\u00e3o de tr\u00eas pinos de platina na bacia. &#8220;O J\u00fanior sofreu muito com a enfermidade e ficou seis meses de cama, praticamente sem movimentos. Naquela \u00e9poca, a \u00fanica coisa que aliava um pouco as dores era a audi\u00e7\u00e3o de discos, especialmente dos Beatles&#8221;.<\/p>\n<p>Ela conta que Renato, nascido no Rio de Janeiro, gostou de Bras\u00edlia desde a chegada. &#8220;Ao saber que vir\u00edamos morar aqui, procurou se informar bastante sobre a cidade e fez coment\u00e1rios elogiosos aos espa\u00e7os, \u00e0 arquitetura quando, em 6 de mar\u00e7o de 1973, entramos no Eix\u00e3o, indo para a 303 Sul, onde voltei a morar no ano passado&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Roqueiro &#8211;\u00a0<\/strong>Sem esquecer detalhes, relata: &#8220;Foi aqui, em nosso apartamento que surgiu o roqueiro. No quarto dele, al\u00e9m da cama de solteiro e de um guarda-roupa, havia uma estante, utilizada para guardar discos, fitas-cassetes, filmes, livros e os cadernos em que escrevia letras de m\u00fasica; e come\u00e7ou a projetar a imagin\u00e1ria 42nd Street Band. Ah, sim, numa das paredes do quarto, ele fazia colagem com fotos de \u00eddolos da m\u00fasica e do cinema, capas de revistas e mat\u00e9rias do jornal ingl\u00eas Melody maker, que comprava numa banca no aeroporto&#8221;.<\/p>\n<p>Outra recorda\u00e7\u00e3o de Dona Carminha \u00e9 a do filho ouvindo no r\u00e1dio programas da BBC de Londres, em especial os musicais. &#8220;O J\u00fanior n\u00e3o era muito exigente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comida. Preferia o trivial, arroz, feij\u00e3o, bife e batata, mas tamb\u00e9m, como descendente de italiano, gostava de massa. Nos fins de semana, costum\u00e1vamos ir ao restaurante La Gioconda, na 102 Sul e ao Nipon, na 403 Sul, que existem at\u00e9 hoje&#8221;.<\/p>\n<p>Aos 18 anos, Renato passou a dar aulas na Cultura Inglesa e a frequentar a sala de cinema que existia naquela escola, administrada por Jos\u00e9 da Mata. Mais ou menos no mesmo per\u00edodo, ele apresentava um programa na Planalto FM (atual Clube FM, dos Di\u00e1rios Associados). &#8220;Inicialmente era um programa voltado para cantores de jazz; e depois s\u00f3 com m\u00fasicas dos Beatles, dos quais falava com propriedade, pois tinha bastante conhecimento&#8221;, revela a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Para ela, o que ocorreu ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do Aborto El\u00e9trico, banda seminal do Rock Bras\u00edlia, mudou a rotina do filho. &#8220;Naquela fase punk, ele come\u00e7ou a sair mais de casa, indo para a Colina (conjunto de blocos residenciais na Universidade de Bras\u00edlia, habitados por fam\u00edlias de professores), onde se encontrava com sua turma, e para outros locais. O nosso apartamento passou a ser muito frequentado pelos m\u00fasicos da banda. Eles chegavam, \u00e0s vezes de madrugada, apertavam a campainha, eu abria a porta e, sem nenhuma cerim\u00f4nia, no m\u00e1ximo diziam &#8216;oi&#8217;. Isso quando diziam&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Dona Carminha, quando o Aborto come\u00e7ou a fazer shows e, mesmo depois, na fase do Trovador Solit\u00e1rio, Renato tinha o pai ao seu lado. &#8220;O Renato, pacientemente e at\u00e9 com um certo orgulho, enchia de instrumentos e equipamentos de som a Rural Willys verde e levava o J\u00fanior para os locais dos shows. A rela\u00e7\u00e3o entre eles era muito boa&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo a mudan\u00e7a para o Rio de Janeiro, com o advento da Legi\u00e3o Urbana, e o consequente afastamento f\u00edsico de Renato Russo da fam\u00edlia n\u00e3o impediram que se mantivessem unidos. &#8220;A partir do momento em que a banda lan\u00e7ou o primeiro disco, se acentuaram as solicita\u00e7\u00f5es \u00e0 gravadora (Odeon), por parte de emissoras de televis\u00e3o, para que a Legi\u00e3o participasse dos seus programas. O J\u00fanior n\u00e3o gostava muito n\u00e3o, mais ia. Antes ligava para n\u00f3s, para nos manter informados&#8221;.<\/p>\n<p><strong>&#8220;1980 &#8211; O ano em que minha vida mudou&#8221; &#8211;\u00a0<\/strong>&#8220;Numa tarde despretensiosa, voltando pra casa a p\u00e9 depois da escola, vi o Renato pela primeira vez. Eu tinha 16 anos. O Aborto El\u00e9trico estava tocando numa cal\u00e7ada entre a 110 e a 111 Sul para uma plateia de umas 10 pessoas. Eu j\u00e1 ouvia rock com um fervor quase religioso h\u00e1 alguns anos e qualquer m\u00fasica com alguma distor\u00e7\u00e3o me chamava a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Parei pra ver quem eram aqueles malucos com coleiras, alfinetes, cal\u00e7as rasgadas e cabelos espetados produzindo um som que tava mais pra cacofonia do que pra m\u00fasica. No meio do caos e do barulho, uma coisa se sobressaia &#8211; espantosamente &#8211; a voz e as palavras que saiam da boca do vocalista. Eu nunca tinha ouvido nada parecido. Era ao mesmo tempo visceral, urgente, pol\u00edtico e po\u00e9tico. Hoje, em retrospecto, percebo que naquela tarde minha vida mudou de rumo.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil saber exatamente a dimens\u00e3o do Renato na minha vida. Sei que eu nunca teria sido m\u00fasico se n\u00e3o o tivesse encontrado na 111. Sei que nunca conheci algu\u00e9m t\u00e3o talentoso. Acredito que ele continua sendo subestimado na medida em que, na minha opini\u00e3o, ele ainda n\u00e3o \u00e9 devidamente reconhecido como um dos maiores compositores da hist\u00f3ria da m\u00fasica popular. Acho que ele est\u00e1 em p\u00e9 de igualdade com v\u00e1rios nomes sagrados da can\u00e7\u00e3o brasileira. Tenho certeza de que ainda, durante muitos anos, no futuro, sua obra ser\u00e1 relevante e influente.<\/p>\n<p>Um dos aspectos mais interessantes da vida de artistas que t\u00eam uma dimens\u00e3o quase sobre-humana e justamente saber como eles eram no dia a dia, ou melhor ainda, como foram suas vidas antes do reconhecimento. Eu tive o privil\u00e9gio de conviver com o Renato antes do sucesso, antes da Legi\u00e3o Urbana. Est\u00e1vamos sempre em bando, e ele era um de n\u00f3s, aparentemente s\u00f3 mais um, mas, aos meus olhos era nosso l\u00edder.<\/p>\n<p>\u00c9ramos todos adolescentes e viv\u00edamos juntos, numa turma de dezenas de garotos e garotas que achavam que iam mudar o pa\u00eds. \u00c9ramos simultaneamente ing\u00eanuos e arrogantes, audaciosos e impotentes. Tudo que faz\u00edamos nos parecia subversivo. Nos nossos frequentes acampamentos, o cara tocava viol\u00e3o e cantava pra gente. Rolavam discuss\u00f5es sem fim em que pol\u00edtica estava sempre t\u00e3o presente quanto m\u00fasica, cinema e literatura. Pequena curiosidade: quando o Renato fala comigo pela primeira vez, \u00e9 pra perguntar o que eu gostava de ler.<\/p>\n<p>Frequentar sua casa era como ir \u00e0 Meca, um momento sublime. As paredes de seu quarto eram cobertas de recortes de mat\u00e9rias de jornais como NME e Melody Maker. Discos e livros estavam empilhados em todos os cantos. Sent\u00e1vamos e pass\u00e1vamos a tarde conversando sobre m\u00fasica e cinema.<\/p>\n<p>De tanto ler biografias de m\u00fasicos e atores, ele sabia detalhes da vida e da obra de todos os nossos her\u00f3is. Como tinha sido a filmagem de Cidad\u00e3o Kane; a grava\u00e7\u00e3o de Sgt. Pepper\u2019s; a composi\u00e7\u00e3o de alguma m\u00fasica Sex Pistols. Ele sabia dos pormenores, do dia a dia, das brigas, da inspira\u00e7\u00e3o, do processo inteiro. De todas as mem\u00f3rias que guardo do Renato, essas s\u00e3o as melhores e mais divertidas. Ele estava em casa, estava relaxado, era culto, generoso e engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Hoje, passado tanto tempo, a tend\u00eancia \u00e9 de que as pessoas se concentrem na sua obra. De fato, ela merece essa aten\u00e7\u00e3o. Mas, por tr\u00e1s de toda essa m\u00fasica e rara inspira\u00e7\u00e3o, havia um cara em carne e osso como eu e voc\u00ea; com defeitos e virtudes. As virtudes se sobressaiam de longe e s\u00e3o elas que fazem dele um sujeito singular, um artista \u00fanico &#8211; o maior e melhor roqueiro da hist\u00f3ria do Brasil.&#8221; &#8211; Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial<\/p>\n<p><strong>&#8220;Uma boa lembran\u00e7a&#8221; &#8211;\u00a0<\/strong>&#8220;Quando me perguntam sobre o meu irm\u00e3o Renato, muitas vezes cito o seu tom professoral, de como ele gostava de ensinar os outros e passar, de forma generosa, os seus conhecimentos sobre arte e cultura em geral. Quando gostava de algu\u00e9m, presenteava, e 99,9% desses regalos eram de cunho cultural: livros, CDs, LPs e fitas cassetes que ele mesmo gravava.<\/p>\n<p>Um pouco antes de sua morte, em 1996, tivemos uma longa, boa e animada conversa. Ele j\u00e1 estava cansado da banda Legi\u00e3o Urbana e de todas as press\u00f5es da gravadora EMI-Odeon, principalmente com os prazos dados para que ele escrevesse as letras. Come\u00e7ou a conversa dizendo que queria largar tudo e voltar a lecionar.<\/p>\n<p>Em vez de desencoraj\u00e1-lo, pois ele estava no auge da carreira, adorei a ideia e fiquei muito feliz, e sugeri que ele poderia ter uma ou duas turmas pequenas e dar tanto aula de l\u00edngua inglesa, quanto de cultura geral, em portugu\u00eas e ingl\u00eas. Ele dominava o ingl\u00eas como um nativo e com toda a sua bagagem de arte, m\u00fasica, literatura, filosofia e cinema, daria, com seguran\u00e7a, aulas din\u00e2micas, prazerosas e at\u00e9 divertidas. Seus olhos brilhavam. Ficamos tendo ideias e uma delas foi a de que ele voltasse para Bras\u00edlia, o que ele achou bem interessante.<\/p>\n<p>Recome\u00e7ar do zero? N\u00e3o exatamente, porque foi aqui, que antes de ser m\u00fasico e se tornar um \u00edcone do rock nacional, teve o seu primeiro emprego como professor na Cultura Inglesa. Nesse dia, vi o meu irm\u00e3o J\u00fanior empolgado novamente. Pena que n\u00e3o deu tempo. Mas, para mim, com tudo o que me ensinou, e ainda me ensina, ele recome\u00e7a sempre.&#8221; &#8211; Carmem Teresa, irm\u00e3 de Renato Russo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 81 anos, Maria do Carmo Manfredini conserva mem\u00f3ria privilegiada, principalmente quando o assunto \u00e9 a hist\u00f3ria de Renato Russo, que completaria 58 anos nesta ter\u00e7a-feira (27). Ao falar do filho, que se transformou em figura ic\u00f4nica do rock brasileiro, n\u00e3o foge de quest\u00f5es pol\u00eamicas, como a homossexualidade e a depend\u00eancia de drogas do \u00eddolo. 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