{"id":174664,"date":"2018-04-01T09:28:10","date_gmt":"2018-04-01T12:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=174664"},"modified":"2018-04-01T09:28:10","modified_gmt":"2018-04-01T12:28:10","slug":"bolsonaro-um-rebelde-com-causa-desde-a-epoca-da-farda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-um-rebelde-com-causa-desde-a-epoca-da-farda\/","title":{"rendered":"Bolsonaro, um rebelde (com causa) desde a \u00e9poca da farda"},"content":{"rendered":"<p>\u00c1udios in\u00e9ditos do Superior Tribunal Militar (STM) mostram a \u00edntegra de um julgamento de trinta anos atr\u00e1s: o do ent\u00e3o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Jair Messias Bolsonaro, \u00e0 \u00e9poca com 33 anos, hoje com 63 e bem cotado presidenci\u00e1vel da extrema-direita. Entre 1987 e 1988, Bolsonaro foi julgado duas vezes sob a acusa\u00e7\u00e3o de &#8220;ter tido conduta irregular e praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe&#8221;.<\/p>\n<p>Na primeira inst\u00e2ncia, em janeiro de 1988, foi considerado culpado pela unanimidade dos tr\u00eas julgadores, todos oficiais militares. Na \u00faltima &#8211; o STM, em sess\u00e3o secreta de 16 de junho de 1988, integralmente gravada &#8211; Bolsonaro foi considerado n\u00e3o culpado por 9 a 4.<\/p>\n<p>O julgamento do STM foi a \u00faltima etapa do longo e momentoso caso de rebeldia militar ocorrido durante a presid\u00eancia de Jos\u00e9 Sarney &#8211; a primeira depois da ditadura &#8211; e o desenrolar do segundo ano da Constituinte. O maior derrotado pela absolvi\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o Bolsonaro foi o general Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, ministro do Ex\u00e9rcito de Sarney, que avalizara publicamente a decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia, depois reformada.<\/p>\n<p>S\u00e3o 37 \u00e1udios n\u00edtidos, uns longos, outros mais curtos. Jogam luz numa hist\u00f3ria que vai sendo esquecida, e que esclarece uma parte importante na trajet\u00f3ria do pol\u00eamico personagem. Foi com esse epis\u00f3dio, cheio de vais e vens, que Bolsonaro saiu do anonimato, virou pol\u00edtico e agora se lan\u00e7a \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Um bom come\u00e7o \u00e9 v\u00ea-lo, ali pelo final de agosto de 1986, caminhando \u00e0 paisana em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sucursal da revista Veja, no Rio. Levava na bolsa a farda de capit\u00e3o &#8211; e com ela foi fotografado na reda\u00e7\u00e3o. A foto e o artigo &#8220;O sal\u00e1rio est\u00e1 baixo&#8221; &#8211; um petardo inusual contra a autoridade militar e o governo Sarney &#8211; foram publicadas na se\u00e7\u00e3o &#8220;Ponto de vista&#8221;, de 3 de setembro de 1986.<\/p>\n<p>Fruto de uma demorada negocia\u00e7\u00e3o, obtida por iniciativa de Veja, mas francamente colaborativa por parte do capit\u00e3o, o artigo precisou de mais de uma ida \u00e0 reda\u00e7\u00e3o, e de adapta\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com o estilo da se\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era sempre que um oficial do Ex\u00e9rcito dava a cara pra bater, com nome, sobrenome, clareza, radicalidade e contund\u00eancia. O p\u00e9 do artigo &#8211; dispon\u00edvel na internet &#8211; informava que seu autor era &#8220;capit\u00e3o do 8.\u00ba Grupo de Artilharia de Campanha, paraquedista, 31 anos, casado e pai de tr\u00eas filhos&#8221;.<\/p>\n<p>Foi levado \u00e0 pris\u00e3o disciplinar, por 15 dias, a partir de 1.\u00ba de setembro, determinada em boletim interno pelo comandante da Brigada de Paraquedistas, coronel Ary Schittiny Mesquita. Entre as raz\u00f5es da &#8220;transgress\u00e3o grave&#8221; estava &#8220;a de ter elaborado e feito publicar em revista de tiragem nacional, sem conhecimento e autoriza\u00e7\u00e3o de seus superiores, artigo em que tece coment\u00e1rios sobre a pol\u00edtica de remunera\u00e7\u00e3o do pessoal civil e militar da Uni\u00e3o&#8221;. E, tamb\u00e9m, &#8220;a de ter ferido a \u00e9tica gerando clima de inquieta\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O rebelde da ocasi\u00e3o ganhou admira\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is, espa\u00e7o na m\u00eddia, e simpatia da oposi\u00e7\u00e3o, inclusive \u00e0 esquerda. Cumprida a pris\u00e3o, seguiu a carreira no 8.\u00ba GAC de Paraquedistas. Continuou a receber elogios por desempenho &#8211; uma marca de sua trajet\u00f3ria desde que entrou no Ex\u00e9rcito, como registram os assentamentos militares que constam dos autos do processo e dos \u00e1udios.<\/p>\n<p>S\u00e3o tr\u00eas volumes, com 1.535 p\u00e1ginas, que o Estado consultou com aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 no primeiro deles que consta o que aconteceu em fevereiro de 1987, seis meses depois da pris\u00e3o: ao sair dos paraquedistas para a Escola Superior de Aperfei\u00e7oamento de Oficiais (ESAO) Bolsonaro recebeu elogios formais por &#8220;autoconfian\u00e7a, combatividade, coragem, idealismo, indiv\u00edduo de ideias e de ju\u00edzo, iniciativa e vigor f\u00edsico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;P\u00f4r bomba nos quart\u00e9is, um plano na ESAO&#8221;, publicou a Veja na edi\u00e7\u00e3o de 25 de outubro daquele 1987, terceiro ano do governo Sarney. A reportagem informava que Bolsonaro e seu colega da ESAO, F\u00e1bio Passos, prepararam um plano, &#8220;Beco sem sa\u00edda&#8221;, para explodir bombas em unidades militares do Rio. Tarde da noite da sexta-feira em que Veja sa\u00eda, os dois oficiais foram chamados ao comando da ESAO, e escreveram, de pr\u00f3prio punho, textos em que negavam a autoria do plano e contatos com a revista. Para Bolsonaro, o publicado foi &#8220;uma fantasia&#8221;.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o seguinte, de 1.\u00ba de novembro, a revista publicou &#8220;De pr\u00f3prio punho&#8221; &#8211; reafirmando a reportagem anterior e reproduzindo o que seria um fac-s\u00edmile de dois croquis, supostamente desenhados por Bolsonaro, indicando locais em que as bombas seriam detonadas. Inquirido e reinquerido em sindic\u00e2ncia da ESAO, Bolsonaro nega. Na quest\u00e3o mais delicada &#8211; a autoria dos croquis &#8211; dois exames grafot\u00e9cnicos, um da Pol\u00edcia Federal, outro do Ex\u00e9rcito, foram inconclusivos.<\/p>\n<p>Em 13 de novembro, o caso foi levado para um Conselho de Justifica\u00e7\u00e3o. Nomeado pelo ministro do Ex\u00e9rcito, Le\u00f4nidas Pires Gon\u00e7alves, o conselho se instala em 8 de dezembro. \u00c9 composto pelo coronel Marcos Bechara Couto, presidente, e pelos tenentes-coron\u00e9is Nilton Correa Lampert, interrogante e relator, e Carlos Jos\u00e9 do Couto Barroso, escriv\u00e3o. \u00c9 quando se formaliza a acusa\u00e7\u00e3o de &#8220;conduta irregular, pr\u00e1tica de atos que afetam a honra pessoal, pundonor militar e decoro da classe&#8221;.<\/p>\n<p>O conselho ouviu Bolsonaro meia d\u00fazia de vezes, al\u00e9m de seus advogados. A negativa foi mantida. Ouviu, ainda, jornalistas e editores da revista Veja, oficiais do Ex\u00e9rcito vizinhos de Bolsonaro, as esposas de alguns deles, incluindo Rog\u00e9ria Nantes, mulher do capit\u00e3o, que recusou-se a falar. Ouviu tamb\u00e9m generais indicados pela defesa &#8211; entre eles o general Newton Cruz, linha dura que Bolsonaro admirava superlativamente.<\/p>\n<p>Um novo laudo da Pol\u00edcia Federal cravou a culpa do acusado: &#8220;N\u00e3o restam d\u00favidas ao ser afirmado que os manuscritos promanaram do punho gr\u00e1fico do capit\u00e3o Jair Messias Bolsonaro&#8221;. Logo depois, a pedido do conselho, um quarto exame grafot\u00e9cnico dos peritos do Ex\u00e9rcito que fizeram o primeiro laudo n\u00e3o acusat\u00f3rio, acrescentou um &#8220;complemento&#8221; contr\u00e1rio, afirmando que os caracteres &#8220;promanaram de um mesmo punho gr\u00e1fico&#8221;. Quatro exames grafot\u00e9cnicos, portanto, empatando em 2 a 2.<\/p>\n<p>Em 25 de janeiro, Bolsonaro foi condenado pela unanimidade do conselho com um libelo duro em que se registra &#8220;desvio grave de personalidade e uma deforma\u00e7\u00e3o profissional&#8221;, &#8220;falta de coragem moral para sair do Ex\u00e9rcito&#8221; e &#8220;ter mentido ao longo de todo o processo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1udios in\u00e9ditos do Superior Tribunal Militar (STM) mostram a \u00edntegra de um julgamento de trinta anos atr\u00e1s: o do ent\u00e3o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Jair Messias Bolsonaro, \u00e0 \u00e9poca com 33 anos, hoje com 63 e bem cotado presidenci\u00e1vel da extrema-direita. 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