{"id":176836,"date":"2018-04-23T07:21:41","date_gmt":"2018-04-23T10:21:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=176836"},"modified":"2018-04-23T07:21:41","modified_gmt":"2018-04-23T10:21:41","slug":"la-se-foi-nelson-o-pai-amavel-do-cinema-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/la-se-foi-nelson-o-pai-amavel-do-cinema-brasileiro\/","title":{"rendered":"L\u00e1 se foi Nelson, o pai am\u00e1vel do cinema brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>A dimens\u00e3o da perda de Nelson Pereira dos Santos, que morreu s\u00e1bado, com 89 anos, est\u00e1 para ser avaliada pelo cinema brasileiro. Em todo caso, ela \u00e9 enorme, e h\u00e1 o consenso de que Nelson foi uma esp\u00e9cie de pai do moderno cinema brasileiro, assim como Humberto Mauro havia sido de sua fase anterior.<\/p>\n<p>Basta lembrar que s\u00e3o de sua autoria os dois filmes que prepararam o terreno para o Cinema Novo &#8211; &#8220;Rio 40 Graus&#8221; (1955) e &#8220;Rio Zona Norte&#8221; (1957). E \u00e9 dele uma das obras vitais do mais importante momento do cinema nacional. &#8220;Vidas Secas&#8221;, que ele adaptou de Graciliano Ramos, comp\u00f5e, ao lado de &#8220;Deus e o Diabo na Terra do Sol&#8221;, de Glauber Rocha, e &#8220;Os Fuzis&#8221;, de Ruy Guerra, a chamada &#8220;Sant\u00edssima Trindade&#8221; do Cinema Novo.<\/p>\n<p>Paulistano, Nelson nasceu em 1928. Foi contempor\u00e2neo das iniciativas industriais dos est\u00fadios Vera Cruz e Maristela, que buscavam qualificar tecnicamente o cinema brasileiro, tido como tosco. Mas suas inclina\u00e7\u00f5es intelectuais e pol\u00edticas o levaram a novos caminhos. Estudou cinema na Fran\u00e7a e formou-se na pr\u00e1tica como assistente de dire\u00e7\u00e3o em filmes como &#8220;O Saci&#8221;, de Rodolfo Nanni, e &#8220;Agulha no Palheiro&#8221;, de Alex Viany. Em 1953 radicou-se no Rio. Ao morrer, deixa mulher, 4 filhos, 4 netos. E uma infinidade de amigos e admiradores de uma obra de muitas faces.<\/p>\n<p>Em 1955, veio o primeiro longa, &#8220;Rio 40 Graus&#8221;, que chegou a ser proibido. Diz a lenda, hist\u00f3ria que Nelson amava contar, que o chefe de pol\u00edcia o havia censurado sob alega\u00e7\u00e3o de que o filme era mentiroso j\u00e1 no t\u00edtulo, pois a temperatura jamais chegara a 40\u00ba no Rio. O filme recebe a influ\u00eancia do neorrealismo italiano e a acomoda ao h\u00e1bitat brasileiro. Comp\u00f5e um painel social do Rio e evidencia a estrutura de classes, dando protagonismo aos oprimidos sociais. Para a estudiosa do neorrealismo, Mariarosaria Fabris, \u00e9 na obra seguinte, &#8220;Rio Zona Norte&#8221;, que Nelson afina sua autoria de preocupa\u00e7\u00e3o socializante, que vai desembocar no Cinema Novo.<\/p>\n<p>Sua prov\u00e1vel obra-prima, &#8220;Vidas Secas&#8221;, viria em 1963. Foi, junto com &#8220;Deus e o Diabo na Terra do Sol&#8221; e &#8220;Os Fuzis&#8221;, a obra que projetou o Cinema Novo internacionalmente. A hist\u00f3ria da fam\u00edlia de retirantes da seca \u00e9 narrada em linguagem cinematogr\u00e1fica radical, que comoveu o mundo. Mostrou que no Brasil se fazia um cinema original, cr\u00edtico e de alt\u00edssima qualidade. Esse momento virtuoso jamais se repetiu, pelo menos n\u00e3o com a mesma intensidade.<\/p>\n<p>Com a ditadura de 1964 e a censura sobre as artes, Nelson, e tantos outros, recorreu \u00e0 forma da alegoria para passar seu recado \u00e0 guisa de resist\u00eancia. S\u00e3o dessa fase &#8220;Fome de Amor&#8221; (1969), &#8220;Azyllo Muito Louco&#8221; (1970), &#8220;Como Era Gostoso Meu Franc\u00eas&#8221; (1971) e &#8220;Quem \u00c9 Beta?&#8221; (1972).<\/p>\n<p>Nos anos 1970, Nelson volta-se a um cinema popular com obras como &#8220;O Amuleto de Ogum&#8221; (1974), &#8220;Tenda dos Milagres&#8221; (1977) e &#8220;Na Estrada da Vida&#8221; (1980). Em 1984, \u00e9 hora de saudar a redemocratiza\u00e7\u00e3o iminente e Nelson o faz com outra visita a Graciliano Ramos. &#8220;Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere&#8221; evoca o despotismo do Estado Novo para falar da decadente ditadura iniciada em 1964.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o desmonte do cinema na era Collor, conseguiu p\u00f4r de p\u00e9 sua vers\u00e3o de contos de Guimar\u00e3es Rosa, &#8220;A Terceira Margem do Rio&#8221;. Depois voltou-se para um trabalho documental (ou semidocumental) com &#8220;Cinema de L\u00e1grimas&#8221; (1995) sobre o melodrama latino-americano, e &#8220;Casa Grande &amp; Senzala&#8221; (2000) e &#8220;Ra\u00edzes do Brasil&#8221; (2004), tratando de dois &#8220;int\u00e9rpretes&#8221; do Pa\u00eds nos anos 1930, Gilberto Freyre e S\u00e9rgio Buarque.<\/p>\n<p>Nelson era j\u00e1 uma institui\u00e7\u00e3o em 2006, quando foi para a Academia Brasileira de Letras. Tornou-se &#8220;imortal&#8221;, condi\u00e7\u00e3o que apreciava muito, como falou v\u00e1rias vezes ao Estado, com seu inalter\u00e1vel bom humor.<\/p>\n<p>Uma nova tentativa de fic\u00e7\u00e3o, com o drama pol\u00edtico &#8220;Bras\u00edlia 18%&#8221; (2006), talvez n\u00e3o tenha recebido a devida aten\u00e7\u00e3o. Os tempos j\u00e1 eram outros e novos tipos de cinema ditavam a moda. Merece uma reavalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando todos j\u00e1 o supunham aposentado e dedicado ao ch\u00e1 das cinco na Academia, surge com &#8220;A M\u00fasica Segundo Tom Jobim&#8221;, extraordin\u00e1rio, sem voz narrativa, valendo-se apenas do monumento musical erguido por Tom. Sai-se do filme com a sensa\u00e7\u00e3o amb\u00edgua de euforia e depress\u00e3o ao pensarmos no Pa\u00eds que poderia ter sido e neste em que agora vivemos.<\/p>\n<p>A\u00ed encontramos, talvez, o fio invis\u00edvel que liga os elementos dessa obra multiforme: amor pelo Brasil no que ele tem de melhor e olhar cr\u00edtico sobre suas mazelas, como a injusti\u00e7a social e a indiferen\u00e7a das elites. Nelson traduziu esse pensamento de fundo em um cinema inteligente, simples, sem poses, livre de afeta\u00e7\u00e3o e elegante. Assim tamb\u00e9m era o homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A dimens\u00e3o da perda de Nelson Pereira dos Santos, que morreu s\u00e1bado, com 89 anos, est\u00e1 para ser avaliada pelo cinema brasileiro. Em todo caso, ela \u00e9 enorme, e h\u00e1 o consenso de que Nelson foi uma esp\u00e9cie de pai do moderno cinema brasileiro, assim como Humberto Mauro havia sido de sua fase anterior. 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