{"id":177268,"date":"2018-04-26T08:59:51","date_gmt":"2018-04-26T11:59:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=177268"},"modified":"2018-04-26T08:59:51","modified_gmt":"2018-04-26T11:59:51","slug":"ex-paje-fala-na-telona-de-indio-alijado-de-sua-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ex-paje-fala-na-telona-de-indio-alijado-de-sua-cultura\/","title":{"rendered":"&#8216;Ex-Paj\u00e9&#8217; fala na telona de \u00edndio alijado de sua cultura"},"content":{"rendered":"<p>Na abertura do Festival Melhores Filmes do CineSesc, Luiz Bolognesi subiu ao palco para receber o pr\u00eamio da cr\u00edtica que sua ex-mulher, La\u00eds Bodanzky, recebeu por Como Nossos Pais &#8211; e ele tem uma coautoria de roteiro. No fim de semana, teria sido a vez de o pr\u00f3prio Bolognesi comemorar outro pr\u00eamio da cr\u00edtica &#8211; o de melhor filme no Festival Internacional de Document\u00e1rios \u00c9 Tudo Verdade, que ele pr\u00f3prio recebeu, por Ex-Paj\u00e9.<\/p>\n<p>&#8220;Me falaram sobre a cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o no Ita\u00fa Cultural, mas n\u00e3o insistiram que fosse. Estava num debate sobre o Ex-Paj\u00e9, e o p\u00fablico foi muito receptivo. Fui ficando, ficando. Quando soube que havia ganho o pr\u00eamio da cr\u00edtica me deu uma dor de n\u00e3o ter estado l\u00e1. Afinal, o pr\u00eamio da cr\u00edtica \u00e9 sempre um xod\u00f3 para quem cria&#8221;, admite o diretor.<\/p>\n<p>Ex-Paj\u00e9 estreia nesta quinta-feira, 26, e tamb\u00e9m vai encerrar, em Bras\u00edlia, um j\u00e1 tradicional acampamento de \u00edndios que se realiza todo m\u00eas de abril. &#8220;O acampamento re\u00fane lideran\u00e7as, v\u00e3o ser milhares de \u00edndios, e eles est\u00e3o planejando uma coisa bonita. Depois da proje\u00e7\u00e3o, vai haver uma pajelan\u00e7a, uma sess\u00e3o de cantos ind\u00edgenas que vai ter tudo a ver com o ato de resist\u00eancia do pr\u00f3prio filme.&#8221; Al\u00e9m dos roteiros que escreveu para a ex-mulher, Bolognesi tem sua obra autoral, e ela tem privilegiado a quest\u00e3o ind\u00edgena. Ex-Paj\u00e9 j\u00e1 o levou ao Festival de Berlim, em fevereiro, e o filme encantou tanto o j\u00fari que ele recebeu uma men\u00e7\u00e3o. Veio depois a sele\u00e7\u00e3o para o \u00c9 Tudo Verdade, e nova premia\u00e7\u00e3o. Bolognesi anda feliz da vida.<\/p>\n<p>&#8220;Tanto em Berlim como aqui, em S\u00e3o Paulo e no Rio, o filme passou para plateias lotadas. Os debates, depois, foram sempre acalorados. Na Alemanha, eu sentia uma plateia mais indignada. No Brasil, as rea\u00e7\u00f5es t\u00eam sido mais emocionadas.&#8221; Document\u00e1rio, filme de \u00edndio, nada predisp\u00f5e a esperar, para Ex-Paj\u00e9, um grande sucesso de p\u00fablico. &#8220;A raz\u00e3o me diz para pisar no freio, mas, ao mesmo tempo, tenho sentido tanto carinho pelo temas, pelo personagem, que o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 apertado. Gostaria que as pessoas vissem Ex-Paj\u00e9, que refletissem, porque \u00e9 a nossa hist\u00f3ria, a nossa identidade&#8221;, ele avalia. Ex-Paj\u00e9 come\u00e7ou a nascer numa pesquisa que Bolognesi fez com os \u00edndios Paiter Suru\u00ed, de Roraima. &#8220;Eu estava pesquisando sobre a utiliza\u00e7\u00e3o, pelos jovens, de novas ferramentas (e tecnologias) para denunciar o que est\u00e1 ocorrendo com suas etnias.&#8221;<\/p>\n<p>E ele conta &#8211; &#8220;At\u00e9 1969, os Paiter Suru\u00ed n\u00e3o tinham contato com os brancos. E, ent\u00e3o, em menos de 50 anos, tudo ocorreu rapidamente. O avan\u00e7o dos evang\u00e9licos, das madeireiras, do agroneg\u00f3cio. Antes, os \u00edndios usavam arco e flecha para prote\u00e7\u00e3o e defesa. Agora, usam a internet, postando coisas, imagens. Dizem que os \u00edndios s\u00e3o atrasados, mas as ferramentas s\u00e3o modernas.&#8221; Paralelamente a essa pesquisa, Bolognesi iniciou outra, sobre a pajelan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Perguntava aos \u00edndios sobre o seu paj\u00e9, e eles respondiam que n\u00e3o tinham. Ele era um ex-paj\u00e9.&#8221; Como assim? &#8220;Foi uma consequ\u00eancia do avan\u00e7o da igreja evang\u00e9lica sobre a aldeia dos Paiter Suru\u00ed. A primeira coisa que esses novos evangelizadores fizeram foi demonizar a cultura ind\u00edgena. Sempre houve uma cultura, um poder dos paj\u00e9s, que se comunicavam com os esp\u00edritos da floresta. Perpera, nosso protagonista, foi for\u00e7ado a abrir m\u00e3o da sua liga\u00e7\u00e3o com a floresta, transformada em coisa do Diabo.&#8221;<\/p>\n<p>Perpera n\u00e3o fala portugu\u00eas, Bolognesi n\u00e3o fala a l\u00edngua dos \u00edndios, mas ele ficou fascinado. &#8220;Nos comunicamos por sinais, por m\u00edmica. E eu fui descobrindo esse homem desterrado na sua tribo. Perpera hoje tem de dormir com luz acesa porque os esp\u00edritos das floresta est\u00e3o bravos com ele, cobram-lhe haver abandonado a tradi\u00e7\u00e3o das flautas.&#8221; Esse homem dividido &#8211; esse estrangeiro &#8211; tornou-se um enigma que Bolognesi houve por bem tentar decifrar com sua ferramenta de cineasta, a c\u00e2mera. &#8220;Fiquei absolutamente fascinado quando vi o Perpera com seu terno de homem branco, muito maior que ele. Acompanhei-o na igreja, e vi como ele n\u00e3o participa do culto. Perpera limpa a igreja, acolhe os fi\u00e9is, mas permanece na porta, de costas para o que ocorre l\u00e1 dentro, voltado para a floresta.&#8221; Essa imagem fort\u00edssima &#8211; que parece filmada por um diretor de fic\u00e7\u00e3o, um ato de mise-en-sc\u00e8ne &#8211; adquire uma dimens\u00e3o metaf\u00f3rica sobre essa inclus\u00e3o for\u00e7ada que, na verdade, exclui nossos \u00edndios do pr\u00f3prio mundo em que vivem.<\/p>\n<p>&#8220;Em Berlim, j\u00e1 me havia perguntando se as cenas da igreja eram dirigidas. N\u00e3\u00e3\u00e3ooo. A mesma coisa para a cena em que a c\u00e2mera acompanha o Perpera de terno pela floresta, quando ele vai para a igreja. Achei a cena t\u00e3o surreal que pedi para film\u00e1-lo. Terminaram virando imagens emblem\u00e1ticas, conceituais, que sintetizam o tema de Ex-Paj\u00e9&#8221;, reflete o diretor.<\/p>\n<p>Nos debates sobre o filme, Bolognesi tem deixado claro que, por mais particular que pare\u00e7a a experi\u00eancia, a hist\u00f3ria de Perpera, ela lhe interessou pelo que, no fundo, \u00e9 a sua universalidade. No centro de Ex-Paj\u00e9 est\u00e1 a quest\u00e3o visceral do etnoc\u00eddio &#8211; o \u00edndio brasileiro, mais que nunca, est\u00e1 amea\u00e7ado. Bolognesi pega carona na frase de Pierre Clastres que escolheu para abrir o filme. &#8220;O etnoc\u00eddio n\u00e3o \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos homens, mas do seu modo de vida e pensamento&#8221;, exatamente como est\u00e1 sendo feito com Perpera (e os Paiter Suru\u00ed). N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ele, o ex (sempre) paj\u00e9 que resiste. O filme prescinde das entrevistas tradicionais, mostra os \u00edndios inseridos nas redes sociais e tamb\u00e9m com outros recursos que apontam para a sua modernidade. Bolognesi reconhece que est\u00e1 trabalhando nas bordas &#8211; document\u00e1rio, fic\u00e7\u00e3o. Seu compromisso, mais at\u00e9 que desejo, \u00e9 humanizar o olhar do espectador para o \u00edndio, de forma a permitir a integra\u00e7\u00e3o desse \u00faltimo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na abertura do Festival Melhores Filmes do CineSesc, Luiz Bolognesi subiu ao palco para receber o pr\u00eamio da cr\u00edtica que sua ex-mulher, La\u00eds Bodanzky, recebeu por Como Nossos Pais &#8211; e ele tem uma coautoria de roteiro. 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