{"id":177377,"date":"2018-04-27T00:00:07","date_gmt":"2018-04-27T03:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=177377"},"modified":"2018-04-27T06:44:29","modified_gmt":"2018-04-27T09:44:29","slug":"violencia-aumenta-no-rio-apesar-da-intervencao-na-seguranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/violencia-aumenta-no-rio-apesar-da-intervencao-na-seguranca\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia aumenta no Rio, apesar da interven\u00e7\u00e3o na seguran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Nos dois meses de atua\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro, o n\u00famero de chacinas dobrou na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2017. No ano passado, foram seis epis\u00f3dios que resultaram na morte de 22 pessoas. De 16 de fevereiro a 15 de abril de 2018, foram registadas 12 chacinas, com a morte de 52 pessoas.<\/p>\n<p>O decreto do presidente Michel Temer autorizando a interven\u00e7\u00e3o federal, com o uso das For\u00e7as Armadas em opera\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a p\u00fablica, foi publicado em 16 de fevereiro deste ano.<\/p>\n<p>Os dados est\u00e3o no relat\u00f3rio \u00c0 deriva &#8211; sem programa, sem resultado, sem rumo, divulgado hoje (26) pelo Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, que re\u00fane v\u00e1rias entidades da sociedade civil e faz o acompanhamento di\u00e1rio dos trabalhos na seguran\u00e7a p\u00fablica desde fevereiro.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora do Observat\u00f3rio, S\u00edlvia Ramos, no per\u00edodo da interven\u00e7\u00e3o ocorreram epis\u00f3dios graves de descontrole policial. Ela cita, como exemplo, a chacina da Rocinha. \u201cNo dia anterior um policial tinha sido covardemente assassinado. Uma tropa de choque entra [na comunidade] de madrugada e mata oito pessoas, numa a\u00e7\u00e3o totalmente inexplicada, sobre a qual n\u00e3o h\u00e1 nem mesmo uma investiga\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ponto grav\u00edssimo.\u201d<\/p>\n<p>Ela citou tamb\u00e9m a chacina de Maric\u00e1, onde cinco jovens foram mortos por milicianos. De acordo com S\u00edlvia, os dados da viol\u00eancia no estado n\u00e3o estavam piores antes da interven\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o melhoraram depois da chegada das For\u00e7as Armadas. \u201cO quadro geral \u00e9 muito preocupante.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente compara o Rio sob interven\u00e7\u00e3o com o que havia antes, a gente percebe que as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e de criminalidade ou se mantiveram num n\u00edvel t\u00e3o alto como havia antes ou ent\u00e3o pioraram, como \u00e9 o caso dos crimes contra o patrim\u00f4nio, os roubos e roubos de rua\u201d, avaliou a especialista.<\/p>\n<p>\u201cNesses dois meses continua a descoordena\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de seguran\u00e7a. A sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a na cidade \u00e9 muito grande, os tiroteios aumentaram em rela\u00e7\u00e3o h\u00e1 dois meses e em rela\u00e7\u00e3o ao ano passado. O controle sobre as a\u00e7\u00f5es policiais \u00e9 muito pequeno e houve a multiplica\u00e7\u00e3o das chacinas, ou seja, epis\u00f3dios em que houve tr\u00eas mortes ou mais em um \u00fanico evento\u201d, completou.<\/p>\n<p>Dados &#8211; O Observat\u00f3rio monitorou 70 opera\u00e7\u00f5es desde o in\u00edcio da interven\u00e7\u00e3o, que tiveram o emprego de 40 mil agentes, resultaram na morte de 25 pessoas e na apreens\u00e3o de 140 armas, sendo 42 fuzis. Os dados do aplicativo Fogo Cruzado mostram que o n\u00famero de tiroteios aumentou no per\u00edodo. Nos dois meses antes da interven\u00e7\u00e3o, foram registrados 1.299 tiroteios no estado, enquanto nos dois meses seguintes ao decreto, o n\u00famero foi para 1.502, um aumento de 15,6%. Esses tiroteios deixaram 294 mortos e 193 feridos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores apresentaram a evolu\u00e7\u00e3o dos indicadores de seguran\u00e7a no estado nos \u00faltimos anos. Os dados revelam que n\u00e3o houve um aumento significativo da taxa de letalidade violenta de 2016 para 2017. Em fevereiro e mar\u00e7o deste ano foram 940 homic\u00eddios, 209 homic\u00eddios decorrentes de interven\u00e7\u00e3o policial e 19 policiais mortos.<\/p>\n<p>Sobre a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, o levantamento aponta que 92% da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro t\u00eam medo de ser atingida por bala perdida, de morrer ou ser ferido em assalto e de ficar no meio de tiroteio entre pol\u00edcia e bandidos. E 70% disseram ter medo de sofrer viol\u00eancia por parte da Pol\u00edcia Militar. \u201cNenhuma pol\u00edtica de seguran\u00e7a vai ter resultado no Rio de Janeiro se n\u00e3o for baseada em redu\u00e7\u00e3o de tiroteio\u201d, afirmou S\u00edlvia.<\/p>\n<p>Para a coordenadora de pesquisa da Anistia Internacional no Brasil, Renata Neder, a interven\u00e7\u00e3o federal aprofunda um modelo de pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica que n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 o modelo da militariza\u00e7\u00e3o, baseado na l\u00f3gica do confronto, da guerra, da guerra \u00e0s drogas. Esse modelo a gente j\u00e1 sabe que n\u00e3o d\u00e1 certo, que se traduz em opera\u00e7\u00f5es policiais de enfrentamento cotidiano em favelas e periferias. Ele n\u00e3o reduz a criminalidade, ele aumenta a viol\u00eancia, alimenta esse ciclo e essa espiral de viol\u00eancia e resulta em muitas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. N\u00e3o funcionou no Rio de Janeiro e n\u00e3o funcionou no M\u00e9xico.\u201d<\/p>\n<p>Propostas &#8211; O coronel Ibis Pereira, ex-comandante-geral da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro, destacou que os dados divulgados no relat\u00f3rio s\u00e3o muito ruins e indicam que a interven\u00e7\u00e3o encontra dificuldades no seu rumo. Para ele, \u00e9 uma oportunidade para os gestores corrigirem a rota.<\/p>\n<p>\u201cOs dados funcionam como cr\u00edtica, evidentemente, mas eles tamb\u00e9m funcionam como elemento a partir do qual essa medida possa ser repensada por aqueles que est\u00e3o conduzindo. Eu n\u00e3o tenho d\u00favidas que s\u00e3o pessoas bem-intencionadas. Ent\u00e3o eu penso que a gente tem um material de cr\u00edtica extraordin\u00e1rio para que a interven\u00e7\u00e3o possa encontrar um rumo que todos n\u00f3s esperamos, que \u00e9 diminuir o medo e os indicadores criminais no nosso estado.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, \u00e9 preciso reestruturar as pol\u00edcias e fazer um melhor controle do uso da for\u00e7a. \u201cAs pol\u00edcias precisam de uma reforma, est\u00e3o em frangalhos, se trata de reestruturar essas institui\u00e7\u00f5es policiais. Elas t\u00eam sido v\u00edtimas da viol\u00eancia, temos n\u00fameros assustadores de policiais mortos em servi\u00e7o e fora dele, mas, por outro lado, as nossas pol\u00edcias est\u00e3o matando demasiadamente, o que significa que a gente precisa melhorar esse controle do uso da for\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com S\u00edlvia, h\u00e1 consenso entre os pesquisadores da \u00e1rea de seguran\u00e7a de que a atual pol\u00edtica n\u00e3o funciona. \u201cSabe-se h\u00e1 muitos anos no Rio e no Brasil o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para reduzir a viol\u00eancia e a criminalidade. A receita hoje \u00e9 consensual. \u00c9 preciso mudar a pol\u00edcia, \u00e9 preciso fazer mais investiga\u00e7\u00e3o e menos confronto, \u00e9 preciso coordenar a\u00e7\u00f5es de Minist\u00e9rio P\u00fablico, pol\u00edcia e Poder Judici\u00e1rio, \u00e9 preciso acabar com a guerra \u00e0s drogas que justifica diariamente incurs\u00f5es \u00e0s favelas e os 60 mil mortos por ano no Brasil. N\u00f3s sabemos o que \u00e9 preciso ser feito, mas quem vai fazer isso?\u201d<\/p>\n<p>Durante o encontro foi lan\u00e7ado tamb\u00e9m o site do Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, que re\u00fane todos os dados e as informa\u00e7\u00f5es recolhidas pela iniciativa. O relat\u00f3rio n\u00e3o incluiu os valores das opera\u00e7\u00f5es da interven\u00e7\u00e3o porque o governo n\u00e3o divulgou os gastos.<\/p>\n<p>Governo &#8211; Em nota, o Gabinete de Interven\u00e7\u00e3o Federal informou que \u201cest\u00e1 dedicado aos objetivos estabelecidos de diminuir progressivamente os \u00edndices de criminalidade e fortalecer as institui\u00e7\u00f5es da \u00e1rea de seguran\u00e7a p\u00fablica do Estado do Rio de Janeiro\u201d. \u201cMedidas emergenciais e estruturantes est\u00e3o sendo tomadas e ser\u00e3o observadas ao longo do per\u00edodo previsto de interven\u00e7\u00e3o federal, conforme Decreto n\u00ba 9.288 de 16 de fevereiro de 2018\u201d, diz a nota.<\/p>\n<p>Perguntado sobre o aumento dos tiroteios, o ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jungmann, disse, ap\u00f3s cerim\u00f4nia de premia\u00e7\u00e3o do Selo Resgata, no Pal\u00e1cio do Planalto, que isso sempre ocorre quando se inicia um processo de mudan\u00e7a como o proporcionado pela interven\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cTodos os processos de mudan\u00e7a que voc\u00ea teve, por exemplo, em Medel\u00edn, em Bogot\u00e1, no in\u00edcio desse processo que levou \u00e0 supera\u00e7\u00e3o daquela situa\u00e7\u00e3o, houve um acr\u00e9scimo de casos como esse. N\u00e3o \u00e9 o caso de defender isso, estou apenas lembrando que quando acontece essa mudan\u00e7a tamb\u00e9m h\u00e1 um aumento da quest\u00e3o das armas, do tiroteio, etc\u201d, disse o ministro.<\/p>\n<p>\u201cMas isso, sem sombra de d\u00favidas, ser\u00e1 enfrentado e ser\u00e1 resolvido porque a interven\u00e7\u00e3o est\u00e1 no caminho. Agora, h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma mudan\u00e7a que inclusive rompe os la\u00e7os entre aqueles dentro do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica que est\u00e3o ligados. Isso gera rea\u00e7\u00e3o, gerou l\u00e1, est\u00e1 gerando aqui mas isso com o tempo vamos resolver\u201d, completou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos dois meses de atua\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o federal no Rio de Janeiro, o n\u00famero de chacinas dobrou na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2017. No ano passado, foram seis epis\u00f3dios que resultaram na morte de 22 pessoas. 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