{"id":177554,"date":"2018-04-29T12:21:28","date_gmt":"2018-04-29T15:21:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=177554"},"modified":"2018-04-29T12:21:28","modified_gmt":"2018-04-29T15:21:28","slug":"embrapa-fica-caduca-e-perde-relevancia-para-o-agronegocio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/embrapa-fica-caduca-e-perde-relevancia-para-o-agronegocio\/","title":{"rendered":"Embrapa fica caduca e perde relev\u00e2ncia para o agroneg\u00f3cio"},"content":{"rendered":"<p>A Embrapa comemorou 45 anos, na semana passada, enfrentando as maiores cr\u00edticas de sua hist\u00f3ria. No mesmo dia em que o evento do anivers\u00e1rio aconteceu em Bras\u00edlia, a entidade foi duramente criticada, num debate sobre inova\u00e7\u00e3o no agroneg\u00f3cio realizado na Funda\u00e7\u00e3o FHC, em S\u00e3o Paulo. Nos meses anteriores, j\u00e1 enfrentara v\u00e1rios questionamentos, um dos quais resultou na demiss\u00e3o do pesquisador da institui\u00e7\u00e3o Zander Navarro, posteriormente reintegrado ao cargo pela Justi\u00e7a. Para os produtores rurais, principais interessados nas pesquisas da empresa, a verdade \u00e9 que ela vem a cada dia perdendo mais relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Oriundos das diferentes e principais regi\u00f5es rurais do Pa\u00eds, produtores de portes e culturas diversas ouvidos pelo Estado foram un\u00e2nimes em elogiar o passado da Embrapa (sigla para Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria). Sobretudo nos gr\u00e3os, lamentaram, por\u00e9m, o distanciamento e a perda de espa\u00e7o. &#8220;O come\u00e7o da expans\u00e3o no cerrado se deu gra\u00e7as \u00e0 Embrapa: eram os t\u00e9cnicos da entidade que consult\u00e1vamos sobre variedades de sementes, manejo de solo e formas de plantio, quando ainda n\u00e3o havia qualquer conhecimento sobre a agricultura tropical&#8221;, diz Jos\u00e9 Fava Neto, s\u00f3cio da Agrofava e grande produtor de soja, milho, feij\u00e3o e caf\u00e9 em Goi\u00e1s e na Bahia. &#8220;\u00c9 indiscut\u00edvel o papel e a relev\u00e2ncia da Embrapa, mas ela vem perdendo espa\u00e7o.&#8221;<\/p>\n<p>Quanto mais pr\u00f3ximo o interlocutor \u00e9 da opera\u00e7\u00e3o, maior \u00e9 a mudan\u00e7a percebida. &#8220;A Embrapa deixou de ser o grande banco intelectual da agricultura, como foi at\u00e9 os anos 90&#8221;, afirma In\u00e1cio Modesto Filho, diretor de produ\u00e7\u00e3o da Bom Futuro, grupo que cultiva 275 mil hectares de soja, 120 mil de algod\u00e3o e 120 mil de milho, al\u00e9m de ter 120 mil cabe\u00e7as de gado. &#8220;Podia ser em gen\u00e9tica, microbiologia, entomologia, fitopatologia, em qualquer campo do conhecimento eles tinham os grandes nomes e a serem consultados.&#8221;<\/p>\n<p>Hoje, segundo Modesto, 95% da pesquisa em milho, soja e algod\u00e3o s\u00e3o feitas pela iniciativa privada. &#8220;Como a soja movimenta valores altos, muitas empresas vieram para o Brasil para fornecer esse tipo de pesquisa&#8221;, afirma Era\u00ed Maggi, fundador do Bom Futuro e maior produtor de soja do Brasil. &#8220;As multinacionais ocuparam muito esse espa\u00e7o.&#8221; Segundo Maggi, o papel de vanguarda da Embrapa foi trocado pelo de &#8220;regulador de pre\u00e7o&#8221; das tecnologias demandadas pelos grandes produtores. &#8220;Ela n\u00e3o deixa o fil\u00e3o s\u00f3 para as multinacionais&#8221;, diz ele. &#8220;N\u00e3o vira as costas ao nosso mercado.&#8221;<\/p>\n<p>Nas fazendas do Bom Futuro, por\u00e9m, de cada 20 pesquisas realizadas pela iniciativa privada, s\u00f3 uma \u00e9 da Embrapa. H\u00e1 dez anos, diz Fava Neto, 60% das variedades de soja utilizadas no cerrado haviam sido desenvolvidas pela Embrapa e suas coligadas. Hoje, n\u00e3o chegam a 5%.<\/p>\n<p>Os produtores se ressentem pela falta da antiga parceria. &#8220;A Embrapa tem a faca e o queijo nas m\u00e3os, mas parece que n\u00e3o est\u00e1 sabendo cortar o queijo&#8221;, diz Rodrigo Pozzobon, produtor de soja e milho de m\u00e9dio porte em Sorriso (MT). &#8220;Ela poderia ser um norte mais seguro, se usasse sua estrutura de pesquisa para nos orientar em rela\u00e7\u00e3o ao que as multinacionais oferecem, por exemplo.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Estrutura<\/strong> &#8211; Al\u00e9m de as pesquisas pouco pr\u00f3ximas \u00e0s necessidades do produtor, s\u00e3o comuns relatos de trabalhos n\u00e3o conclu\u00eddos por equipamentos quebrados, falta de insumos ou pesquisadores que t\u00eam dificuldade de chegar ao campo por n\u00e3o terem transporte. A Embrapa prev\u00ea investir R$ 66,8 milh\u00f5es em pesquisa e inova\u00e7\u00e3o, em 2018. \u00c9 o equivalente a apenas 2% do or\u00e7amento anual de R$ 3,4 bilh\u00f5es. Para se ter uma base de compara\u00e7\u00e3o, apenas a TMG, que produz sementes e tem Maggi entre seus s\u00f3cios, recebe R$ 100 milh\u00f5es por ano para pesquisa. A Embrapa, que anunciou na semana passada uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as internas e as perspectivas que v\u00ea para o setor at\u00e9 2030 (leia texto ao lado), informou, por e-mail, que considera as despesas com pessoal, hoje em 68% do or\u00e7amento, como parte do gasto em pesquisa. S\u00f3 que, pelas regras cont\u00e1beis, gasto com pessoal entra na rubrica de custeio.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos fazendo uma pesquisa de manejo integrado de pragas com a Embrapa e, no dia em que o pesquisador precisava ir \u00e0 fazenda, n\u00e3o havia mais di\u00e1rias para que pudesse sair&#8221;, afirma Pozzobon. &#8220;Nos oferecemos para busc\u00e1-lo, mas ele disse que n\u00e3o poderia. Essa morosidade de \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico mata.&#8221; Pozzobon tamb\u00e9m diz que muitos pesquisadores usam recursos p\u00fablicos para completar sua forma\u00e7\u00e3o e, na hora de prestar servi\u00e7os aos produtores, acabam montando consultorias. &#8220;Nada contra ganhar dinheiro, mas acho que isso precisaria ser mudado&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Para os produtores rurais, a entidade precisa ser reestruturada. Sem exce\u00e7\u00e3o, todos falam de uma reaproxima\u00e7\u00e3o com o mercado. &#8220;Seria interessante se trabalhassem como uma empresa privada&#8221;, diz Fava Neto. Para Modesto, a redu\u00e7\u00e3o dos cargos comissionados tamb\u00e9m seria uma alternativa, bem como a redu\u00e7\u00e3o da burocracia e do peso estatal. &#8220;S\u00f3 quem vive no campo consegue entender o que foi a Embrapa no passado&#8221;, afirma. &#8220;Como entramos numa era muito din\u00e2mica, com in\u00fameras inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, ela seria ainda mais importante agora.&#8221;<\/p>\n<p>Para Marcos Neves, professor da USP e especialistas em planejamento estrat\u00e9gico do agroneg\u00f3cio, organiza\u00e7\u00f5es de pesquisa precisam ser reorientadas permanentemente. &#8220;Tal como a USP, a Embrapa tem \u00e1reas de excel\u00eancia e outras que est\u00e3o acomodadas&#8221;, diz ele. &#8220;Toda organiza\u00e7\u00e3o merece ser rediscutida o tempo todo, principalmente quando se tem uma estrutura estatal, em que \u00e9 dif\u00edcil romper com a resist\u00eancia da tecnocracia e do corporativismo.&#8221; Ele cita como exemplo um conselho formado por empres\u00e1rios do setor para a pr\u00f3pria USP. Eles ajudam a orientar sobre temas a serem ensinados, lacunas na forma\u00e7\u00e3o dos jovens, montagem e acompanhamento de projetos e alunos. &#8220;Uma parte do pessoal da USP abra\u00e7ou a mudan\u00e7a, mas outra nem participa das reuni\u00f5es&#8221;, diz. &#8220;A orienta\u00e7\u00e3o pelas necessidades do mercado e pelos &#8216;benchmarks&#8217; s\u00f3 pode ser vista como positiva, j\u00e1 que o objetivo \u00e9 a ajuda e o desenvolvimento m\u00fatuos.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Falta rumo \u00e0s pesquisa<\/strong> &#8211; A Embrapa lan\u00e7ou na semana passada um documento, como parte das comemora\u00e7\u00f5es de seus de 45 anos, no qual apontou sete eixos principais para a agricultura nacional at\u00e9 2030. Est\u00e3o l\u00e1, entre outras coisas, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, protagonismo dos consumidores e converg\u00eancia tecnol\u00f3gica e de conhecimentos. Segundo a empresa, o documento resume um trabalho feito ao longo de 18 meses, com a participa\u00e7\u00e3o de 370 funcion\u00e1rios e parceiros.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o, que se recusou a conceder entrevista para esta reportagem, enviou ao Estado alguns comunicados nos quais fala de suas contribui\u00e7\u00f5es ao setor. Num dos exemplos, um bioinsumo que fixa nitrog\u00eanio no solo, hoje usado em 34 milh\u00f5es de hectares de soja, permitiu que os agricultores economizassem R$ 42,3 bilh\u00f5es na \u00faltima safra. Em seu balan\u00e7o social, a Embrapa diz que, para cada real aplicado na empresa, foram devolvidos R$ 11,06 para a sociedade. A institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vive um processo de mudan\u00e7a interna, que inclui cortes de gastos e amplia\u00e7\u00e3o de receitas. Em 2017, o n\u00famero de \u00e1reas administrativas na sede caiu de 17 para seis e os centros de pesquisa de 46 para 42.<\/p>\n<p>&#8220;A Embrapa nunca teve uma atua\u00e7\u00e3o muito efetiva no nosso setor, mas temos alguns projetos juntos, nos quais estamos sendo muito bem-sucedidos&#8221;, diz Jacyr Costa Filho, diretor da regi\u00e3o Brasil do grupo Tereos, terceiro maior produtor de a\u00e7\u00facar do Brasil e do mundo. Entre eles est\u00e1 o RenovaCalc, ferramenta de c\u00e1lculo de intensidade de carbono dos biocombust\u00edveis do RenovaBio. &#8220;Ser\u00e1 uma refer\u00eancia mundial na \u00e1rea.&#8221; Segundo ele, a Embrapa deveria voltar sua pesquisa \u00e0 \u00e1reas em que n\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia de multinacionais, como a pr\u00f3pria cana.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas que a Embrapa vem sofrendo, por\u00e9m, n\u00e3o dizem respeito \u00e0 qualidade de sua atua\u00e7\u00e3o pontual. Afinal, uma institui\u00e7\u00e3o com or\u00e7amento de R$ 3,4 bilh\u00f5es, quase 10 mil funcion\u00e1rios e 2,4 mil pesquisadores &#8211; que recebem de duas a tr\u00eas vezes o sal\u00e1rio de um pesquisador de universidade federal &#8211; produz necessariamente conhecimento de qualidade. O problema, dizem os especialistas, \u00e9 a falta de uma pol\u00edtica clara que norteie essas pesquisas, hoje feitas sem prioridade.<\/p>\n<p>&#8220;Nossos concorrentes est\u00e3o no exterior e vemos os avan\u00e7os l\u00e1 fora na evolu\u00e7\u00e3o da biotecnologia, da nanotecnologia, do big data&#8221;, disse Pedro Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, num evento sobre inova\u00e7\u00e3o no agroneg\u00f3cio realizado dia 23, na Funda\u00e7\u00e3o FHC. &#8220;N\u00e3o adianta falar s\u00f3 na melhoria de t\u00e9cnicas de manejo. Ou conseguimos acompanhar esse outro tipo de evolu\u00e7\u00e3o, ou vamos para a decad\u00eancia.&#8221; Segundo ele, as grandes empresas multinacionais da \u00e1rea est\u00e3o atr\u00e1s dessas mudan\u00e7as. &#8220;S\u00f3 que elas decidem seus rumos por vari\u00e1veis atreladas ao lucro, e n\u00e3o ao interesse do Brasil&#8221;, afirma. &#8220;\u00c9 exatamente o papel que deveria ter uma empresa p\u00fablica de pesquisa como a Embrapa.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Embrapa comemorou 45 anos, na semana passada, enfrentando as maiores cr\u00edticas de sua hist\u00f3ria. No mesmo dia em que o evento do anivers\u00e1rio aconteceu em Bras\u00edlia, a entidade foi duramente criticada, num debate sobre inova\u00e7\u00e3o no agroneg\u00f3cio realizado na Funda\u00e7\u00e3o FHC, em S\u00e3o Paulo. 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