{"id":177761,"date":"2018-05-02T07:22:49","date_gmt":"2018-05-02T10:22:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=177761"},"modified":"2018-05-02T07:22:49","modified_gmt":"2018-05-02T10:22:49","slug":"love-love-love-conquista-ao-tratar-questoes-politicas-do-seculo-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/love-love-love-conquista-ao-tratar-questoes-politicas-do-seculo-21\/","title":{"rendered":"Love, Love, Love conquista ao tratar quest\u00f5es pol\u00edticas do s\u00e9culo 21"},"content":{"rendered":"<p>Todo jovem gosta de se julgar original. Dono das pr\u00f3prias ideias, inventor do pr\u00f3prio caminho. Mas a maturidade chega, invariavelmente, propondo um acerto de contas. O que antes parecia t\u00e3o pessoal, t\u00e3o \u00fanico, logo se mostra heran\u00e7a dos que vieram antes de n\u00f3s. E nem importa muito se aceitamos ou rejeitamos esse legado, se queremos ou n\u00e3o queremos ser como nossos pais. Existe uma esp\u00e9cie de armadilha inescap\u00e1vel nesse passado que nos precede. O espet\u00e1culo &#8220;Love, Love, Love&#8221;, em cartaz no Teatro Vivo, mostra a rela\u00e7\u00e3o de um casal ao longo de 40 anos e seu impacto sobre a trajet\u00f3ria de seus descendentes.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o se passa em 1967 &#8211; quando os universit\u00e1rios Sandra e Kenneth se conhecem. Pula para os anos 1990, quando os outrora hippies trocaram os sonhos de amor livre pelos pap\u00e9is de m\u00e3e e pai de uma disfuncional fam\u00edlia burguesa. Termina em 2014, com os filhos cobrando os pais por seus fracassos e incapacidades na vida adulta. Essa \u00e9 segunda vez que o Grupo 3 de Teatro &#8211; formado pelas atrizes D\u00e9bora Falabella e Yara de Novas e pelo iluminador Gabriel Fontes Paiva -, investe em um texto de Mike Bartlett (tamb\u00e9m conhecido pela s\u00e9rie da BBC, &#8220;Doctor Foster&#8221;). Em 2013, a companhia de Minas Gerais montou &#8220;Contra\u00e7\u00f5es&#8221;, pe\u00e7a com ares de teatro do absurdo em que uma funcion\u00e1ria tinha sua rotina invadida pela empresa na qual trabalhava.<\/p>\n<p>Aos 37 anos, Bartlett \u00e9 um dos mais interessantes nomes da safra de novos autores brit\u00e2nicos, j\u00e1 consagrado pela cr\u00edtica e pelas poderosas institui\u00e7\u00f5es teatrais de seu pa\u00eds. Preocupado em fazer um teatro menos voltado a inova\u00e7\u00f5es formais e mais interessado em temas de interesse p\u00fablico, o dramaturgo costuma navegar tanto pelo \u00e9pico quanto pelo drama em suas obras. &#8220;H\u00e1 sempre pol\u00edtica, economia e quest\u00f5es sociais no que escrevo. Porque n\u00e3o fazer isso seria se dedicar a uma arte para privilegiados. As \u00fanicas pessoas que n\u00e3o se preocupam com economia, pol\u00edtica e a sociedade s\u00e3o as que t\u00eam dinheiro suficiente para n\u00e3o ter que pensar nisso&#8221;, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em sua primeira visita, em 2011.<\/p>\n<p>Ainda que o prop\u00f3sito do amplo debate se mantenha firme, &#8220;Love, Love, Love&#8221; mira situa\u00e7\u00f5es de cunho privado: a rela\u00e7\u00e3o dos membros de uma fam\u00edlia atrav\u00e9s do tempo. \u00c9 interessante como o escritor encara os desatinos e acertos de uma gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas no discurso proferido em p\u00fablico. Vai desvelando aqui e ali como nossos comportamentos dentro de casa e, especialmente, nas rela\u00e7\u00f5es de afeto que constru\u00edmos carregam tamb\u00e9m um componente pol\u00edtico que nos escapa. O que a libert\u00e1ria gera\u00e7\u00e3o dos anos 1960 fez dos seus sonhos? Que mundo legaram a seus filhos? &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o mudaram o mundo. Voc\u00eas o compraram&#8221;, acusa Rose, a filha inconformada com o ego\u00edsmo dos pais, vivida por D\u00e9bora Falabella.<\/p>\n<p>Mike Bartlett est\u00e1 a examinar como a sua pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o &#8211; a dos filhos dos hippies &#8211; se relaciona com um passado que n\u00e3o chegou a conhecer. Mas que se faz presente. Em uma primeira an\u00e1lise, o texto pode soar rigoroso demais com os Baby Boomers. N\u00e3o parece justo, afinal, cobr\u00e1-los por todo o mal-estar atual. Os que nasceram depois da 2\u00aa. Guerra, encamparam uma revolu\u00e7\u00e3o sexual e de costumes, se opuseram \u00e0 viol\u00eancia no Vietn\u00e3 e foram \u00e0s ruas protestar por aquilo em que acreditavam. Deram a sua contribui\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que foi suficiente? O texto n\u00e3o toma partido apenas dos filhos malsucedidos. Vai abrindo fendas e questionamentos que colocam em d\u00favida todos os envolvidos nesse bal\u00e9 geracional.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o consegue demarcar as diferentes \u00e9pocas da narrativa com mudan\u00e7as pontuais no cen\u00e1rio e a caracteriza\u00e7\u00e3o proposta pelos figurinos de Fabio Namatame. A dire\u00e7\u00e3o de Eric Lenate \u00e9 feliz ao investir mais nas atua\u00e7\u00f5es, assegurando um bom ritmo, e deixando um pouco de lado os efeitos de cena. A proposta n\u00e3o \u00e9 propriamente minimalista ou asc\u00e9tica. Longe disso. Mas tem uma bem-vinda dose de limpeza que contrasta com certo exagero visual caracter\u00edstico de seus trabalhos mais recentes.<\/p>\n<p>Depois de estrear no Rio, &#8220;Love, Love, Love&#8221; chegou a S\u00e3o Paulo com algumas mudan\u00e7as no elenco. O que talvez explique certo desn\u00edvel entre as interpreta\u00e7\u00f5es. Alexandre Cioletti, que faz o papel de Kenneth quando jovem e depois assume o lugar do filho Jamie, ainda parece pouco \u00e0 vontade e recorre a fr\u00e1geis caricaturas nos tr\u00eas atos da pe\u00e7a. Em contraposi\u00e7\u00e3o, D\u00e9bora Falabella e Yara de Novaes vivem mais um frut\u00edfero encontro em cena. Vencedora do Pr\u00eamio Shell carioca de melhor atriz 2018, Yara toma todos os olhos e ouvidos dos espectadores quando surge no palco. Sua Sandra \u00e9 capaz de uma egolatria acachapante, maravilhosamente c\u00ednica e debochada. Certamente, umas das melhores atua\u00e7\u00f5es dessa temporada<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo jovem gosta de se julgar original. Dono das pr\u00f3prias ideias, inventor do pr\u00f3prio caminho. Mas a maturidade chega, invariavelmente, propondo um acerto de contas. O que antes parecia t\u00e3o pessoal, t\u00e3o \u00fanico, logo se mostra heran\u00e7a dos que vieram antes de n\u00f3s. 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