{"id":178349,"date":"2018-05-07T08:07:11","date_gmt":"2018-05-07T11:07:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=178349"},"modified":"2018-05-07T08:07:11","modified_gmt":"2018-05-07T11:07:11","slug":"um-retrato-amplo-literal-e-silencioso-do-samba-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-retrato-amplo-literal-e-silencioso-do-samba-carioca\/","title":{"rendered":"Um retrato amplo, literal e silencioso do samba carioca"},"content":{"rendered":"<div id=\"Corpo\">\n<h6 class=\"Assina\">N\u00e3o \u00e9 sempre que uma exposi\u00e7\u00e3o contagia o visitante j\u00e1 \u00e0 entrada. Acontece com quem chega a O Rio do Samba &#8211; Resist\u00eancia e Reinven\u00e7\u00e3o, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR). A instala\u00e7\u00e3o sonora de Djalma Corr\u00eaa parte da batida de um cora\u00e7\u00e3o, acrescida passo a passo dos instrumentos que d\u00e3o corpo ao ritmo: a cu\u00edca, o cavaquinho, o pandeiro, o reco-reco. Quando adentra o espa\u00e7o expositivo, depois de ver nas paredes do corredor de acesso trechos de sambas fundamentais, de Noel Rosa, Candeia, Dorival Caymmi e Chico Buarque, o espectador j\u00e1 est\u00e1 conquistado.<\/h6>\n<p>&#8220;A gente j\u00e1 ouve essa batida nos nove meses no ventre da m\u00e3e. Por isso o samba \u00e9 universal. As pessoas inconscientemente fazem essa liga\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Corr\u00eaa, percussionista e um dos cinco artistas convidados a criar obras especialmente para a mostra. Os outros foram Jaime Lauriano, Gustavo Speridi\u00e3o, Jo\u00e3o Vargas, Ernesto Neto e Leandro Vieira &#8211; os dois \u00faltimos produziram juntos. Eles fazem companhia a artistas do acervo do MAR e de institui\u00e7\u00f5es como o Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio, o Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (Masp) e o Instituto Moreira Salles, que colaboraram tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Quadros de Portinari, Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, Guignard, fotografias de Marcel Gautherot, Walter Firmo, Bruno Veiga, Evandro Teixeira, r\u00e9plicas de parangol\u00e9s de Helio Oiticica, e objetos contam a trajet\u00f3ria de cem anos de samba. Dos terreiros das casas das tias baianas onde o samba carioca se firmou, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, \u00e0s escolas de samba e blocos de carnaval em sua vers\u00e3o do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>O samba \u00e9 retratado como parte da cultura do dia a dia do carioca, para al\u00e9m das apropria\u00e7\u00f5es pela ind\u00fastria cultural e mesmo pelo carnaval. Entre as raridades, o prato e a faca que o lend\u00e1rio m\u00fasico Jo\u00e3o da Baiana tocava, um turbante de 1946 de Carmen Miranda e um tabuleiro original de uma baiana, do s\u00e9culo 19. A narrativa come\u00e7a na &#8220;heran\u00e7a africana&#8221; e no &#8220;Rio negro&#8221;, passa pelo auge da Pra\u00e7a Onze, ber\u00e7o do samba, e chega ao samba e do carnaval como patrim\u00f4nios da cidade e do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pictoricamente, o samba \u00e9 lido como manifesta\u00e7\u00e3o popular de comunidades pobres. Na exposi\u00e7\u00e3o, sua ancestralidade negra \u00e9 destacada. &#8220;Os pintores quase sempre estereotiparam o universo do samba, pintando as mulheres pelo lado da sensualidade e os homens, pelo perfil de malandros e vadios. Mas n\u00e3o se poderia querer mais do que isso. Criar uma tela que traduza toda a riqueza r\u00edtmica, todo o encadeamento mel\u00f3dico e harm\u00f4nico que o samba tem me parece dif\u00edcil&#8221;, aponta o compositor e escritor Nei Lopes, um dos curadores, com Evandro Salles, Clarissa Diniz e Marcelo Campos.<\/p>\n<p>Da repress\u00e3o &#8211; que veio desde que o samba se mostrou &#8220;perigoso&#8221;, por seu poder aglutinador, como destaca Nei Lopes &#8211; veio a necessidade de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o. &#8220;J\u00e1 os escravos resistiram atrav\u00e9s de sua cultura. Os cantos de trabalho eram uma forma de se colocarem&#8221;, diz Evandro Salles. &#8220;Em meio a uma viol\u00eancia absurda, pessoas de origens e l\u00ednguas diferentes mantiveram suas tradi\u00e7\u00f5es religiosas e culturais, reinventaram suas tradi\u00e7\u00f5es, indo dar no samba, elemento fundamental da identidade nacional&#8221;.<\/p>\n<p>Sambistas de todos os tempos, como Martinho da Vila &#8211; que abriu a mostra com show gratuito no dia 28 de abril -, Jo\u00e3o Nogueira e Alcione est\u00e3o em retratos na sala Encontro, onde fica a instala\u00e7\u00e3o Carnaval &#8211; o grito do qu\u00ea?, de Ernesto Neto e Leandro Vieira. Uma escultura de rosto de 2,5 metros e express\u00e3o exacerbada criada por Vieira &#8211; artista pl\u00e1stico que \u00e9 carnavalesco da Mangueira, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio, e que completou 90 anos &#8211; \u00e9 contida por uma trama de Neto. O prazer e a dor do samba est\u00e3o ali. Ao lado, surdos podem ser tocados pelo p\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s fomos impactados pela morte da Marielle Franco (vereadora negra e representante de favelas), que reverberou em mim e nele&#8221;, conta Vieira. &#8220;A gente vive numa sociedade que extermina vidas negras e pobres e, ao mesmo tempo, essa cultura est\u00e1 sendo celebrada no museu. Por isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel identificar na obra se a express\u00e3o \u00e9 de alegria ou de dor&#8221;.<\/p>\n<p>Carlos Vergara, que h\u00e1 40 anos trabalha a tem\u00e1tica do carnaval em sua trajet\u00f3ria, &#8220;recheou&#8221; esculturas altas e ocas com restos de fantasias de desfiles. &#8220;O carnaval n\u00e3o \u00e9 apenas uma festa popular, \u00e9 um ritual da passagem do tempo. O ano n\u00e3o vira no 31 de dezembro nas comunidades das agremia\u00e7\u00f5es, mas no carnaval&#8221;, acredita. &#8220;Meu ateli\u00ea fica perto do Samb\u00f3dromo e os lixeiros levam as fantasias deixadas no ch\u00e3o para mim. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o tecidos, mas mem\u00f3ria, cor. Com todo o respeito ao Brancusi (escultor romeno), \u00e9 minha \u2018Coluna para o Infinito\u2019&#8221;.<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 sempre que uma exposi\u00e7\u00e3o contagia o visitante j\u00e1 \u00e0 entrada. Acontece com quem chega a O Rio do Samba &#8211; Resist\u00eancia e Reinven\u00e7\u00e3o, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR). A instala\u00e7\u00e3o sonora de Djalma Corr\u00eaa parte da batida de um cora\u00e7\u00e3o, acrescida passo a passo dos instrumentos que d\u00e3o corpo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":178350,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-178349","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178349"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":178351,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178349\/revisions\/178351"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/178350"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}