{"id":178628,"date":"2018-05-10T07:01:29","date_gmt":"2018-05-10T10:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=178628"},"modified":"2018-05-10T07:03:10","modified_gmt":"2018-05-10T10:03:10","slug":"brasil-tem-69-milhoes-de-sem-teto-e-6-milhoes-de-imoveis-vazios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-tem-69-milhoes-de-sem-teto-e-6-milhoes-de-imoveis-vazios\/","title":{"rendered":"&#8216;Brasil tem 6,9 milh\u00f5es de sem-teto e 6 milh\u00f5es de im\u00f3veis vazios&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O desabamento do edif\u00edcio Wilton Paes de Almeida, que pegou fogo e foi ao ch\u00e3o no centro de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o apenas escancarou o problema do d\u00e9ficit habitacional no Brasil como jogou luz sobre a situa\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis vazios que, mesmo sem condi\u00e7\u00f5es adequadas, atraem milhares de pessoas em busca de teto.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tem, pelo menos, 6,9 milh\u00f5es de fam\u00edlias sem casa para morar. Tem tamb\u00e9m cerca de 6,05 milh\u00f5es de im\u00f3veis desocupados h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Esse descompasso, que j\u00e1 havia sido indicado pelo Censo de 2010, tem motivado uma onda de ocupa\u00e7\u00f5es e invas\u00f5es em uma escala jamais vista no pa\u00eds, diz o urbanista Ed\u00e9sio Fernandes, professor de direito urban\u00edstico e ambiental da UCL (University College London).<\/p>\n<p>&#8220;A diferen\u00e7a das ocupa\u00e7\u00f5es tradicionais est\u00e1 no volume. N\u00e3o se sabe quantas pessoas vivem dessa forma, sem falar das pr\u00e1ticas prec\u00e1rias de aluguel e o surgimento dos corti\u00e7os, sobretudo nas \u00e1reas centrais, agravado pelo crescimento da popula\u00e7\u00e3o de rua&#8221;, diz Fernandes, pontuando que as novas ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o maiores que muitos munic\u00edpios brasileiros em termos populacionais.<\/p>\n<p>O professor cita como exemplo dessa nova onda a ocupa\u00e7\u00e3o batizada de Izidora, em Belo Horizonte. Formada por tr\u00eas vilas interligadas (Esperan\u00e7a, Rosa Le\u00e3o e Vit\u00f3ria), Izidora re\u00fane 30 mil pessoas numa \u00e1rea de cerca de 900 hectares ocupada a partir de 2013. Fernandes cita tamb\u00e9m a ocupa\u00e7\u00e3o Povo Sem Medo, de S\u00e3o Bernardo, que em uma semana j\u00e1 tinha reunido 6 mil pessoas no ano passado.<\/p>\n<p>Fernandes diz que o problema \u00e9 a falta de leis para definir onde os mais pobres v\u00e3o morar. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 planejamento e pensamento sobre onde v\u00e3o viver os pobres. (&#8230;) Os centros de cidades est\u00e3o perdendo popula\u00e7\u00e3o, mas o lugar dos pobres \u00e9 cada vez mais a periferia&#8221;, afirma o professor, que \u00e9 membro da Development Planning Unit da UCL.<\/p>\n<p>Para resolver esse problema, diz Fernandes, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa apenas por facilitar a aquisi\u00e7\u00e3o de propriedades para quem tem baixa renda. Ele defende uma mescla de pol\u00edticas p\u00fablicas, que incluem tamb\u00e9m propriedades coletivas, moradias subsidiadas e aux\u00edlio-aluguel como medidas necess\u00e1rias para acabar com o d\u00e9ficit habitacional, que \u00e9 maior entre fam\u00edlias que t\u00eam renda entre zero e tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos &#8211; cerca de 93% dos 6,9 milh\u00f5es de fam\u00edlias sem teto t\u00eam renda de at\u00e9 R$ 2,8 mil.<\/p>\n<p><strong>Cotas sociais e raciais para moradia<\/strong> &#8211; \u00c9 por isso que a arquiteta e urbanista Joice Berth defende reservar cotas habitacionais em espa\u00e7os com mais infraestrutura para negros.<\/p>\n<p>&#8220;A gente precisa desfazer o modelo de casa grande e senzala&#8221;, afirma Berth, dizendo que bairros como Pinheiros e Itaim Bibi, em S\u00e3o Paulo, s\u00e3o bairros mais brancos e com maior renda &#8220;onde a negritude n\u00e3o pode estar&#8221;.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m acredita que est\u00e1 na hora de radicalizar as pautas. &#8220;At\u00e9 porque com o advento das cotas (na educa\u00e7\u00e3o) temos pessoas com novo olhar&#8221;, observa. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es, Berth diz que a solu\u00e7\u00e3o pode passar por reformar esses im\u00f3veis e manter os moradores que l\u00e1 est\u00e3o.<\/p>\n<p>O professor Ed\u00e9sio Fernandes, no entanto, observa que o &#8220;Brasil n\u00e3o tem tradi\u00e7\u00e3o nem know how&#8221; para transformar im\u00f3veis comerciais em residenciais, e isso pode encarecer e dificultar essa convers\u00e3o. &#8220;Faltam tradi\u00e7\u00e3o e tecnologia&#8221;, salienta.<\/p>\n<p><strong>Perversidade &#8211;\u00a0<\/strong>Fernandes observa ainda que programas como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) deixaram a desejar. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, al\u00e9m de n\u00e3o atender com prioridade a popula\u00e7\u00e3o com renda mais baixa, o MCMV oferece im\u00f3veis de baixa qualidade construtiva e ambiental.<\/p>\n<p>O professor lembra, no entanto, que o Brasil n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds a enfrentar dificuldades para manter uma pol\u00edtica habitacional de qualidade. Fernandes cita o inc\u00eandio consumiu Grenfell Tower, pr\u00e9dio de 127 apartamentos para pessoas de baixa renda em Londres, que usou material de baixa qualidade e inflam\u00e1vel em uma reforma antes da trag\u00e9dia que matou 71 pessoas.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m compara o inc\u00eandio da torre brit\u00e2nica com o do pr\u00e9dio do centro de S\u00e3o Paulo. &#8220;Os dois inc\u00eandios revelam muito mais do que a fal\u00eancia de um modelo e de uma pol\u00edtica, revelam a perversidade dessa forma de se fazer cidade e moradia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A fal\u00eancia, acredita Fernandes, tamb\u00e9m se estende ao sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e reflete a falta de mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade para demandar seus direitos. &#8220;Sobretudo, \u00e9 a fal\u00eancia da nossa hist\u00f3ria de n\u00e3o confrontar a estrutura fundi\u00e1ria, segregada e privatista&#8221;, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O desabamento do edif\u00edcio Wilton Paes de Almeida, que pegou fogo e foi ao ch\u00e3o no centro de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o apenas escancarou o problema do d\u00e9ficit habitacional no Brasil como jogou luz sobre a situa\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis vazios que, mesmo sem condi\u00e7\u00f5es adequadas, atraem milhares de pessoas em busca de teto. 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