{"id":181497,"date":"2018-06-05T09:02:43","date_gmt":"2018-06-05T12:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=181497"},"modified":"2018-06-05T09:02:43","modified_gmt":"2018-06-05T12:02:43","slug":"disco-com-musicas-escolhidas-por-ed-motta-faz-sucesso-la-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/disco-com-musicas-escolhidas-por-ed-motta-faz-sucesso-la-fora\/","title":{"rendered":"Disco com m\u00fasicas escolhidas por Ed Motta faz sucesso l\u00e1 fora"},"content":{"rendered":"<p>Assim que decidiu atender ao pedido de produtores alem\u00e3es para criar um \u00e1lbum com o que o final dos anos 1970 e quase todos os de 1980 produziram de melhor em m\u00fasica de r\u00e1dio FM rom\u00e2ntica no Brasil, Ed Motta foi ao pr\u00f3prio santu\u00e1rio, logo ali, a um palmo da cama.<\/p>\n<p>Investigou a cole\u00e7\u00e3o de 30 mil discos que toma as paredes de seu apartamento no Jardim Bot\u00e2nico &#8211; basicamente tudo o que existe a seu redor, tirando a TV, o banheiro e a cozinha &#8211; e puxou um \u00e1lbum de fundo azul com um jovem de cal\u00e7a jeans sentado no ch\u00e3o e um nome grafado em amarelo: Biafra.<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea encomendada para o mercado europeu com o nome de Too Slow To Disco saiu no exterior em CD, vinil e Spotify com cr\u00edticas elogiosas. A publica\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica Record Collector a considerou a &#8220;reedi\u00e7\u00e3o do m\u00eas&#8221; e os sites especializados foram atr\u00e1s com avalia\u00e7\u00f5es entre quatro e cinco estrelas, no in\u00edcio de um movimento curioso. Depois de Biafra e sua Le\u00e3o Ferido, entraram Fil\u00f3 Machado e sua Quero Pouco, Quero Muito; Roupa Nova, com Clarear; Banda Brylho, com Joia Rara; Jane Duboc, com Se Eu Te Pego de Jeito; Kiko Zambianchi, com Estreia; e Guilherme Arantes com Coisas do Brasil.<\/p>\n<p>E o que h\u00e1 de novo nessas velhas can\u00e7\u00f5es? Primeiro, o fato de estarem todas elas em uma compila\u00e7\u00e3o brasileira fazendo sucesso na Europa. Desta vez s\u00e3o eles, muitos nomes que a pr\u00f3pria opini\u00e3o cr\u00edtica no Brasil ainda tem dificuldades em reconhecer como produtores de uma m\u00fasica popular relevante, e n\u00e3o Jorge Benjor, Mutantes, Tim Maia, Jo\u00e3o Gilberto ou Tom Jobim, a desenhar um Brasil pop de exporta\u00e7\u00e3o. Segundo, ter um fio ligando Fil\u00f3 Machado a Roupa Nova, com pontos em Rita Lee e Roberto de Carvalho, Cassiano e Altay Veloso, \u00e9 um ensinamento aos ouvidos que deixaram se levar pela m\u00e1xima de que n\u00e3o havia intelig\u00eancia nas r\u00e1dios FM dos anos 80.<\/p>\n<p>Biafra estava l\u00e1 em 1981. A can\u00e7\u00e3o Le\u00e3o Ferido, feita por ele e Dalto, foi uma das que mais tocaram no ano a partir da R\u00e1dio Cidade do Rio. Aqui, sua imagem criada sobretudo em programas de audit\u00f3rio o associaria a uma cantor pop que praticamente enterraria a destreza harm\u00f4nica de Le\u00e3o Ferido. L\u00e1 fora, os europeus piraram. &#8220;Isso acontece porque eles, fora do Pa\u00eds, s\u00f3 ouvem a m\u00fasica, sem imagem ou filtro algum da \u00e9poca. \u00c9 apenas a m\u00fasica&#8221;, diz. &#8220;Foi um momento em que pod\u00edamos ser sofisticados e populares ao mesmo tempo, como foram os Beatles.&#8221; No time que o acompanha na grava\u00e7\u00e3o, nomes dignos de sele\u00e7\u00e3o: Lincoln Olivetti, o papa da d\u00e9cada, nos teclados; Robson Jorge na guitarra; Paulo Braga na bateria; e Serginho Trombone.<\/p>\n<p>Na outra ponta da hist\u00f3ria, Fil\u00f3 Machado aparece com Quero Pouco, Quero Muito, m\u00fasica sua para letra de Judith de Souza, de seu disco Origens, de 1983. Fil\u00f3, ent\u00e3o com 32 anos, j\u00e1 era uma pot\u00eancia criadora de ritmos ao viol\u00e3o e de um pensamento harmonizador impressionante que lhe garantia respeito no meio, mas que n\u00e3o parecia suficiente para aproxim\u00e1-lo de um p\u00fablico maior. Seu filho Marcelo, com 9 anos, faz a contagem e a m\u00fasica come\u00e7a nas alturas, com a parte instrumental executada pelo Placa Luminosa.<\/p>\n<p>Uma apresenta\u00e7\u00e3o para os m\u00fasicos e executivos de gravadoras em Canela, no Rio Grande do Sul, rendeu um f\u00e3 inusitado. &#8220;Jamel\u00e3o. Depois de me ouvir tocar essa can\u00e7\u00e3o com a banda, veio me abra\u00e7ar todo emocionado.&#8221; Ed Motta define Fil\u00f3 como &#8220;o mergulho mais profundo da piscina&#8221;, que o Brasil &#8220;criminosamente n\u00e3o conhece nem um ter\u00e7o&#8221;. Ele diz que decidiu abrir a colet\u00e2nea com sua m\u00fasica para, propositalmente, fazer os ouvintes perceberem o artista logo no in\u00edcio. &#8220;N\u00e3o \u00e9 ajud\u00e1-lo. Ele \u00e9 que me ajudou a chegar \u00e0 m\u00fasica que eu tenho hoje.&#8221;<\/p>\n<p>O que fazem esses artistas \u00e9 algo que os europeus, japoneses e norte-americanos chamam de AOR, uma sigla que em tradu\u00e7\u00e3o livre n\u00e3o explica tudo: album-oriented radio, ou disco orientado para tocar nas r\u00e1dios rom\u00e2nticas das madrugadas. Assim, os estrangeiros levam muito a s\u00e9rio tamb\u00e9m artistas como Christopher Cross, Doobie Brothers, Lionel Richie, Manhattan&#8217;s e muito do que come\u00e7a a entrar na programa\u00e7\u00e3o de emissoras como, em S\u00e3o Paulo, Alpha FM e Antena 1, a partir das 22h. As love songs equivalem no exterior \u00e0s pop bossa no Brasil, mas tudo \u00e9 chamado de AOR, um setor para o qual qualquer artista pode entrar mesmo sem saber exatamente o que significa.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o de Ed Motta tem, por exemplo, algo que pode estar no limite do AOR brasileiro. Atl\u00e2ntida, 1982, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, \u00e9 classificada em sites de pesquisa internacionais como &#8220;latin, funk, soul&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 entre as m\u00fasicas mais tocadas da dupla, mas foi o que parou na rede de Ed Motta. &#8220;Sei que eles nunca fora de escutar Steely Dan, mas essa m\u00fasica parece ter sa\u00eddo de l\u00e1&#8221;, arrisca Ed. Roberto de Carvalho confirma as suspeitas, ele e Rita n\u00e3o ouviam Steely Dan. &#8220;Acho que eu nunca ouvi muito nada&#8221;, diz, para se refazer. &#8220;Ouvi Stones e, antes, Beatles e Jimi Hendrix, mas nunca soube muito de AOR.&#8221; Antes que Atl\u00e2ntida tivesse a base eletr\u00f4nica reta, ele diz que tentou faz\u00ea-la ganhar uma segunda parte de tango. &#8220;A bateria n\u00e3o era como ficou, mas o tango n\u00e3o dava certo, quebrava muito, e a\u00ed ficou a bateria reta mesmo.&#8221;<\/p>\n<p>O t\u00edpico AOR Coisas do Brasil salvou Guilherme Arantes de um destino talvez menos glorioso. Por um lado, os roqueiros que o conheciam do grupo Moto Perp\u00e9tuo cobravam dele postura rock and roll. Por outro, depois de Cheia de Charme, em 1985, a gravadora CBS queria transform\u00e1-lo em um gal\u00e3 rom\u00e2ntico, submet\u00ea-lo a um &#8220;projeto Julio Iglesias&#8221;. &#8220;A palavra rock me perseguiu como uma peste, e Coisas do Brasil representou minha vit\u00f3ria diante dessa peste. Depois de ouvir sua pop bossa, Tom Jobim, que nunca saberia o que era o tal do AOR, falou ao seu ouvido: &#8216;Arantes, voc\u00ea \u00e9 um batuta&#8230; Essa a\u00ed eu tamb\u00e9m queria ter feito, rapaz&#8217; &#8220;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que decidiu atender ao pedido de produtores alem\u00e3es para criar um \u00e1lbum com o que o final dos anos 1970 e quase todos os de 1980 produziram de melhor em m\u00fasica de r\u00e1dio FM rom\u00e2ntica no Brasil, Ed Motta foi ao pr\u00f3prio santu\u00e1rio, logo ali, a um palmo da cama. 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