{"id":182017,"date":"2018-06-10T10:01:09","date_gmt":"2018-06-10T13:01:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=182017"},"modified":"2018-06-10T10:02:38","modified_gmt":"2018-06-10T13:02:38","slug":"trabalhador-informal-sofre-cansa-e-ganha-menos-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/trabalhador-informal-sofre-cansa-e-ganha-menos-10\/","title":{"rendered":"Trabalhador informal sofre, cansa e ganha menos 10%"},"content":{"rendered":"<p>O trabalhador brasileiro que exerce uma atividade informal hoje ganha em valores reais, j\u00e1 considerada a infla\u00e7\u00e3o, at\u00e9 10% menos do que ganhava h\u00e1 quatro anos, antes do in\u00edcio da crise, segundo c\u00e1lculos da consultoria LCA com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua.<\/p>\n<p>O rendimento real caiu para todas as faixas et\u00e1rias de trabalhadores que estavam fora do mercado formal, na compara\u00e7\u00e3o entre o primeiro trimestre de 2014, ano em que o Pa\u00eds vivia uma sensa\u00e7\u00e3o de pleno emprego, e os tr\u00eas primeiros meses deste ano.<\/p>\n<p>Sem direitos trabalhistas, esses brasileiros viram a renda diminuir e a vulnerabilidade aumentar. A renda real deles vinha aumentando entre o in\u00edcio de 2012, primeiro ano da Pnad Cont\u00ednua, at\u00e9 2014. A partir de 2015, com a recess\u00e3o e a revers\u00e3o do emprego, esse rendimento come\u00e7ou a cair.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros levam em considera\u00e7\u00e3o os empregados em empresas privadas sem carteira assinada e os trabalhadores por conta pr\u00f3pria. O total de trabalhadores nessa situa\u00e7\u00e3o aumentou de 35,7 milh\u00f5es, no primeiro trimestre de 2012, para 38 milh\u00f5es no mesmo per\u00edodo deste ano &#8211; a maioria deles com idades entre 26 e 50 anos.<\/p>\n<p>&#8220;A crise transformou formais em informais e colocou no mercado algumas pessoas que nunca tinham precisado trabalhar. Para essas pessoas, a porta de entrada foi a informalidade&#8221;, afirma Cosmo Donato, da LCA.<\/p>\n<p>Os informais brasileiros com idades entre 19 e 25 anos foram os que mais perderam &#8211; tiveram uma queda de 9,6% do rendimento m\u00e9dio mensal, passando de R$ 1.042 por m\u00eas para R$ 941,70, enquanto os trabalhadores mais velhos perderam entre 5% e 7% da renda.<\/p>\n<p>O rendimento real dos formais tamb\u00e9m caiu, mas a queda nas tr\u00eas principais faixas et\u00e1rias \u00e9 menor do que entre os trabalhadores informais que tinham a mesma idade.<\/p>\n<p>Segundo Donato, \u00e9 natural que o rendimento real do trabalhador tenha ca\u00eddo nesse per\u00edodo. &#8220;O trabalhador informal sempre teve de sobreviver em condi\u00e7\u00f5es complicadas, mas sua renda foi muito afetada porque a crise fez com que a \u00fanica forma de inser\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas no mercado fosse pelo trabalho sem carteira assinada ou por conta pr\u00f3pria.&#8221;<\/p>\n<p>Donato lembra que dois fen\u00f4menos costumam ocorrer durante per\u00edodos de recess\u00e3o: o trabalhador formal aceita ganhar menos para exercer a mesma fun\u00e7\u00e3o, e a falta de vagas empurra trabalhadores menos qualificados para a informalidade.<\/p>\n<p>&#8220;O grosso do emprego est\u00e1 nas empresas pequenas, que geralmente t\u00eam menos condi\u00e7\u00f5es de oferecer qualifica\u00e7\u00e3o ao trabalhador&#8221;, diz o professor do Insper, S\u00e9rgio Firpo. &#8220;Muitas dessas empresas n\u00e3o t\u00eam nem CNPJ e sobrevivem com uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es. O empregador acha que, se contratar formalmente, quebra.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Mais vulner\u00e1veis<\/strong> &#8211; A informalidade tamb\u00e9m cresceu mais entre os brasileiros que t\u00eam de 19 a 25 anos do que nas demais faixas et\u00e1rias: aumentou 5,4% entre 2016 e o ano passado, enquanto a m\u00e9dia, considerando as quatro faixas, foi de 2,5%.<\/p>\n<p>&#8220;Muitos jovens tiveram de antecipar a entrada no mercado para recuperar parte da renda da fam\u00edlia. Quando o chefe da casa, geralmente mais qualificado, perdeu o emprego, os outros componentes da fam\u00edlia acabaram aceitando o emprego que apareceu&#8221;, diz Donato.<\/p>\n<p><strong>Produtividade caiu<\/strong> &#8211; Carlos Augusto Porto tem 49 anos e \u00e9 trabalhador informal desde 2016. Antes da recess\u00e3o, o ajudante de pedreiro participou da constru\u00e7\u00e3o de terminais de \u00f4nibus na Grande S\u00e3o Paulo, trabalhou em obras da empresa de saneamento de S\u00e3o Paulo, a Sabesp, e ajudou a fabricar pe\u00e7as para trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Agora, torce para aparecer um &#8220;bico&#8221; na reforma de alguma resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Com a queda do mercado imobili\u00e1rio e a paralisa\u00e7\u00e3o das obras de infraestrutura nos anos de crise, as oportunidades de trabalho desapareceram. &#8220;Vim do interior de Minas Gerais para S\u00e3o Paulo h\u00e1 30 anos e quase sempre trabalhei na constru\u00e7\u00e3o civil. A gente sempre acha que as coisas v\u00e3o melhorar, mas os sinais ainda s\u00e3o muito fracos. Est\u00e1 ficando mais caro ser otimista&#8221;, diz Porto.<\/p>\n<p>Ganhando antes sal\u00e1rio mensal de R$ 1.400 na empresa terceirizada onde trabalhava, Porto agora recebe R$ 100 por dia. &#8220;Mas, \u00e0s vezes, s\u00f3 consigo trabalhar duas vezes na semana. Continuo deixando curr\u00edculos em empresas, mas tudo ainda est\u00e1 bem fraco. Hoje em dia, uma porta se fecha, mas n\u00e3o abre uma janela do lado. N\u00e3o abre nem basculante.&#8221;<\/p>\n<p>Porto \u00e9 um exemplo de como profissionais qualificados e experientes foram empurrados para o mercado informal pela recess\u00e3o, diz o economista Fernando Veloso, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas. &#8220;Esse movimento de aumento do emprego informal n\u00e3o apenas prejudicou a alta da renda das pessoas, mas acabou comprometendo o futuro do Pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>Estudo publicado por economistas do Ibre aponta que quase metade da perda de produtividade do Brasil durante os anos de crise se deve ao aumento da informalidade no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Entre 2014 e 2017, a queda acumulada da produtividade do trabalho foi de 3,6%, em parte pela redu\u00e7\u00e3o da efici\u00eancia das empresas, mas principalmente pelo aumento do emprego em empresas informais, de baixos resultados. Segundo os pesquisadores, 46% do recuo da produtividade do trabalho nesse per\u00edodo se deveu ao aumento da informalidade.<\/p>\n<p><strong>Retrocesso<\/strong> &#8211; Na avalia\u00e7\u00e3o e Fernando Veloso, economista do Ibre, os anos de crise ajudaram a reverter parte do ganho de produtividade que ocorreu no Pa\u00eds nos anos 2000, quando houve uma explos\u00e3o na formaliza\u00e7\u00e3o. Mais estruturadas, as empresas que se formalizam t\u00eam maior acesso a recursos tecnol\u00f3gicos e cr\u00e9dito e acabam atraindo empregados mais qualificados e produtivos, explica.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 dos Santos, de 59 anos, achava que nunca mais teria de voltar para a informalidade. Filho de feirantes, trabalhou como camel\u00f4 por mais de dez anos at\u00e9 conseguir montar uma pequena loja de roupas femininas em 2008, na regi\u00e3o da Rua 25 de Mar\u00e7o, em S\u00e3o Paulo, conhecida pela concentra\u00e7\u00e3o de lojas de com\u00e9rcio popular.<\/p>\n<p>&#8220;A crise me pegou e tive de fechar a loja em 2016. Cheguei a ter tr\u00eas funcion\u00e1rios, mas a cada feriado fraco de vendas tinha de demitir algu\u00e9m. Fui segurando as pontas at\u00e9 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel.&#8221; Hoje, ele trabalha como vendedor de a\u00e7a\u00ed pr\u00f3ximo \u00e0 Feirinha da Madrugada, no Br\u00e1s, e reclama das vendas mais fracas<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um fen\u00f4meno contr\u00e1rio ao que tinha acontecido no mercado de trabalho do Pa\u00eds antes. Mais de 80% do ganho de produtividade dos anos 2000 foi devido \u00e0 formaliza\u00e7\u00e3o. O trabalhador ganhou produtividade, de 2000 a 2009. Agora, o que se v\u00ea \u00e9 um fen\u00f4meno oposto, n\u00e3o chega a ser uma revers\u00e3o completa, mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito preocupante&#8221;, diz Veloso.<\/p>\n<p>Efeitos &#8211; O estudo aponta que a contribui\u00e7\u00e3o da informalidade para a redu\u00e7\u00e3o da capacidade produtiva aumentou ao longo do tempo. Nos \u00faltimos trimestres da recess\u00e3o, sobretudo a partir de 2017, o efeito da falta de formaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 maior.<\/p>\n<p>&#8220;Em contrapartida, uma empresa que mant\u00e9m o trabalhador fora do mercado formal acaba privando esse profissional de crescer, se especializar, ter contato com novas tecnologias. Isso \u00e9 claro, al\u00e9m de n\u00e3o conceder os mesmos direitos que um trabalhador formal&#8221;, diz Veloso. Em m\u00e9dia, um trabalhador formal \u00e9 quatro vezes mais produtivo do que um que est\u00e1 na informalidade.<\/p>\n<p>Ele lembra que, em geral, a informalidade aumenta em todas as crises. &#8220;Mas a recupera\u00e7\u00e3o est\u00e1 demorando, o que acaba fragilizando ainda mais o mercado de trabalho. Com a perspectiva de que o Pa\u00eds cres\u00e7a menos do que o esperado este ano, tamb\u00e9m fica mais dif\u00edcil que o impacto da informalidade na produtividade diminua.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalhador brasileiro que exerce uma atividade informal hoje ganha em valores reais, j\u00e1 considerada a infla\u00e7\u00e3o, at\u00e9 10% menos do que ganhava h\u00e1 quatro anos, antes do in\u00edcio da crise, segundo c\u00e1lculos da consultoria LCA com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad) Cont\u00ednua. 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