{"id":183747,"date":"2018-06-27T07:49:40","date_gmt":"2018-06-27T10:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=183747"},"modified":"2018-06-27T07:49:40","modified_gmt":"2018-06-27T10:49:40","slug":"na-russia-ha-moradores-que-nem-sabem-que-esta-tendo-copa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/na-russia-ha-moradores-que-nem-sabem-que-esta-tendo-copa\/","title":{"rendered":"Na R\u00fassia, h\u00e1 moradores que nem sabem que est\u00e1 tendo Copa"},"content":{"rendered":"<p>O monge budista Anatoly Ayuvith sabe prever o futuro, tem poderes para curar doen\u00e7as e ainda consegue saber se vai chover. Mas, num dos cantos mais remotos do imenso territ\u00f3rio da R\u00fassia, na Sib\u00e9ria, ele desconhece a exist\u00eancia da Copa do Mundo. \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o\u201d, lamentou o monge. \u201cSei que o Brasil sempre foi o melhor no futebol. Mas acho que nossa sele\u00e7\u00e3o est\u00e1 melhorando\u201d, comentou, hesitante e sem gra\u00e7a diante de um assunto que provara o limite de seus poderes.<\/p>\n<p>Poucas horas antes do pontap\u00e9 inicial do jogo entre R\u00fassia e Uruguai, que ocorreu na segunda-feira (25), a regi\u00e3o \u00e0 beira da fronteira com a Mong\u00f3lia parecia estar numa realidade distante. A menos de cinco quil\u00f4metros do monge, a produtora de leite Lyubila Tserenyona falava na beira da entrada com propriedade sobre a Copa. \u201cHoje n\u00f3s jogamos contra a Argentina ou algo assim&#8230;\u201d, dizia, numa refer\u00eancia aos uruguaios.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o nacional russa tamb\u00e9m \u00e9 um aspecto delicado num pa\u00eds continental com dezenas de rep\u00fablicas, na\u00e7\u00f5es e etnias. \u201cSou do povo buriato. N\u00e3o sou russa. Mas vivemos na R\u00fassia e vamos torcer pela R\u00fassia na Copa\u201d, disse. Ao saber que a reportagem era do Brasil, ela abriu um sorriso. \u201cEu adorava o Brasil nos anos 90 com Maradona e Pel\u00e9\u201d, insistiu.<\/p>\n<p>Ali, a mais de 5,1 mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia de Moscou e em plena Sib\u00e9ria Oriental, onde o inverno leva os term\u00f4metros a marcar 30 graus negativos por semanas, a Copa do Mundo da R\u00fassia \u00e9 apenas uma miragem, assim como \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o no desenvolvimento econ\u00f4mico do governo de Vladimir Putin. Com 1 milh\u00e3o de habitantes, a Rep\u00fablica da Buri\u00e1cia conta com 25% de budistas entre sua popula\u00e7\u00e3o, um dos n\u00fameros mais elevados em toda a Federa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Na prov\u00edncia ao lado, Irkutsk, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco mais c\u00f4moda no que se refere ao acesso \u00e0s imagens dos jogos. Mas, ainda assim, a Copa \u00e9 tratada como um sonho. Nas estradas que cruzam a imensid\u00e3o do territ\u00f3rio russo na Sib\u00e9ria, nenhuma faixa da Fifa. Nenhuma refer\u00eancia no aeroporto local e os \u00fanicos cartazes pelas cidades trazem os her\u00f3is do esporte mais popular da regi\u00e3o: o h\u00f3quei. Em nenhum canto das cidades de Irkurtsk se v\u00ea as imagens onipresentes de Lionel Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar.<\/p>\n<p>Grande parte da popula\u00e7\u00e3o local n\u00e3o tem sequer uma camisa da sele\u00e7\u00e3o para desfilar seu orgulho com a classifica\u00e7\u00e3o. Mesmo a imagem da partida mostrada numa televis\u00e3o chinesa s\u00f3 ocorre gra\u00e7as a antenas parab\u00f3licas instaladas nos telhados.<\/p>\n<p>Mas o jogo contra o Uruguai era, para parte da popula\u00e7\u00e3o siberiana, um raro momento de conex\u00e3o com o restante do pa\u00eds continental. \u201cEsses jogadores s\u00e3o da R\u00fassia europeia. N\u00f3s somos da R\u00fassia asi\u00e1tica\u201d, explicou o estudante Anton, em um dos poucos bares de Irkutsk que mostrava a partida contra o Uruguai. \u201cS\u00e3o dias assim que entendo melhor o que \u00e9 se sentir russo, mesmo t\u00e3o distante.\u201d<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a com a Copa \u00e9 um sintoma de uma dist\u00e2ncia que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsica. Baikalsk, com 14 mil habitantes e tamb\u00e9m na prov\u00edncia de Irkutsk, \u00e9 uma das 142 cidades na R\u00fassia que est\u00e3o a ponto de desaparecer. Ampliados ainda na era Sovi\u00e9tica, esses locais apenas se mantinham como fornecedores de m\u00e3o de obra para ind\u00fastrias que faziam a economia da cidade existir. Assim como em Baikalsk, outras cidades viam todos seus moradores terem um s\u00f3 empregador, num esquema centralizado a partir da c\u00fapula da ex-URSS.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica foi aberta em 1966 \u00e0 beira do lago Baikal, que cont\u00e9m um quinto da \u00e1gua doce n\u00e3o congelada do planeta. Em seu auge, ela empregava mais de 2 mil pessoas e produzia 100 mil toneladas de celulose por ano. As obras come\u00e7aram ainda nos anos 1950 e faziam parte de um amplo complexo militar sovi\u00e9tico. A ind\u00fastria aeroespacial necessitava de material de qualidade para pneus e outros itens de seus jatos.<\/p>\n<p><strong>Fal\u00eancia &#8211;<\/strong> Mas, no caso de Baikalsk e de tantas outras cidades com apenas uma ind\u00fastria, o sistema faliu. Em 2013, o governo russo chegou a avaliar que precisaria de US$ 33 bilh\u00f5es (R$ 124,6 bi) para modernizar as mais de cem cidades \u00e0 beira do colapso. Preferiu gastar US$ 50 bilh\u00f5es em Sochi para os Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno de 2014 e outros US$ 11 bilh\u00f5es na Copa.<\/p>\n<p>Sem dinheiro, o resultado foi o colapso de dezenas dessas cidades. Baikalsk era uma delas, devastada com a fal\u00eancia da papeleira BPPM que empregava praticamente todas as fam\u00edlias do condado. No fundo, a cidade perdeu sua raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p>\u201cO fim da f\u00e1brica mudou nossas vidas\u201d, contou Ludmilla, vendedora de legumes em uma feira local da cidade de Baikalsk. Seu marido, que dependia da produ\u00e7\u00e3o de celulose, passou a beber e a violent\u00e1-la. Os dois se separaram e, pouco tempo depois, ele morreu em consequ\u00eancia do alcoolismo. Ludmilla, mais preocupada em sobreviver, n\u00e3o sabia sequer que a R\u00fassia jogaria contra o Uruguai naquela noite.<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, a f\u00e1brica que por mais de meio s\u00e9culo funcionou \u00e0s margens de um dos maiores lagos do mundo faz sombra hoje a um povoado que nada tem em comum com as imagens da Copa e os fogos de artif\u00edcio organizados nas cidades-sede.<\/p>\n<p>\u201cO que muda na minha vida se a R\u00fassia ganhar?\u201d, perguntou Svetlana Nikolaivna, tamb\u00e9m de Baikalsk e vendedora de peixes. Questionada se iria esperar at\u00e9 a noite para ver o jogo, ela deixou claro que n\u00e3o. \u201cPreciso trabalhar cedo. A juventude toda j\u00e1 deixou a cidade. Se os velhos n\u00e3o trabalharem, quem vai fazer isso?\u201d<\/p>\n<p><strong>Expectativa de vida cai &#8211;\u00a0<\/strong>Longe da imagem que o presidente Vladimir Putin gostaria de passar ao mundo durante a Copa do Mundo de uma R\u00fassia soberana, autoconfiante, moderna e sofisticada, as cidades sat\u00e9lites da Sib\u00e9ria registram 25% da popula\u00e7\u00e3o vivendo hoje abaixo da linha da pobreza.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, em 2015, a popula\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia de Irkutsk surpreendeu o Kremlin ao eleger como seu governador Sergei Levchenko. Ele \u00e9 um dos poucos chefes locais n\u00e3o endossados por Putin, num voto que foi interpretado como um recado a Moscou sobre o abandono que vive a regi\u00e3o na Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje o car\u00e1ter rebelde do local. Ao final do s\u00e9culo 19, um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o era composta de exilados pol\u00edticos. No s\u00e9culo 17 e de olho no com\u00e9rcio com os chineses, Moscou enviou para a regi\u00e3o uma legi\u00e3o de cossacos. Nos anos 20, a morte do l\u00edder antibolchevique Alexander Kolchak foi orquestrada a partir de uma mil\u00edcia de Irkutsk.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, a periferia da prov\u00edncia \u00e9 o retrato de uma regi\u00e3o abandonada. Dados fornecidos ao Estado pela Caritas (organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria da Igreja Cat\u00f3lica) indicam que, das 30 milh\u00f5es de crian\u00e7as hoje na R\u00fassia, 15 milh\u00f5es delas vivem abaixo da linha da pobreza. Praticamente todas na Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>O que ainda preocupa a entidade \u00e9 o numero elevado de crian\u00e7as de rua na Sib\u00e9ria, o maior desde o fim da Guerra Fria. Segundo a Caritas, 4% dos menores s\u00e3o \u00f3rf\u00e3os, enquanto as altas taxas de desemprego e renda baixa t\u00eam levado a problemas graves de desnutri\u00e7\u00e3o e falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A preval\u00eancia de drogas aumentou em cinco vezes em apenas 20 anos e 30% das mortes de jovens s\u00e3o atribu\u00eddas ao alcoolismo. Cheirar cola entre menores e um salto de 10% nos casos de Aids em apenas um ano s\u00e3o outras marcas de uma sociedade que viu a sua expectativa de vida cair de 64 anos em m\u00e9dia na d\u00e9cada de 1990 para 55 anos em 2017.<\/p>\n<p>\u201cO processo de mudan\u00e7a depois do colapso do socialismo empurrou muitos para a exclus\u00e3o\u201d, alerta a Caritas, em um informe sobre a situa\u00e7\u00e3o siberiana. \u201cDe uma sociedade igualit\u00e1ria que a R\u00fassia tinha como objetivo, o pa\u00eds est\u00e1 mais longe do que nunca nessa realidade\u201d, continua a institui\u00e7\u00e3o. \u201cUm quinto da popula\u00e7\u00e3o russa tem hoje metade da renda do pa\u00eds, enquanto os 20% mais pobres det\u00eam apenas 6% do PIB.\u201d \u201cA disparidade entre os vencedores da moderniza\u00e7\u00e3o e os perdedores n\u00e3o necessariamente \u00e9 vis\u00edvel na R\u00fassia\u201d, alerta a institui\u00e7\u00e3o. \u201cMuitos dos velhos, doentes e deficientes est\u00e3o vivendo atr\u00e1s de muros da privacidade ou em regi\u00f5es remotas, como s\u00e3o os casos das cidades-sat\u00e9lites da Sib\u00e9ria\u201d, informa a Caritas num panorama local.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O monge budista Anatoly Ayuvith sabe prever o futuro, tem poderes para curar doen\u00e7as e ainda consegue saber se vai chover. 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