{"id":183756,"date":"2018-06-27T08:18:57","date_gmt":"2018-06-27T11:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=183756"},"modified":"2018-06-27T08:20:47","modified_gmt":"2018-06-27T11:20:47","slug":"elas-ganharam-as-arquibancadas-mas-machismo-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/elas-ganharam-as-arquibancadas-mas-machismo-continua\/","title":{"rendered":"Elas ganharam as arquibancadas, mas machismo continua"},"content":{"rendered":"<p>As mulheres ganharam as arquibancadas e recuperaram sua presen\u00e7a no gramado, mas o globalizado neg\u00f3cio da Copa do Mundo ainda promove nas ruas e nas \u00e1reas destinadas para os torcedores um espa\u00e7o muito hostil para elas, onde ainda reina o machismo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do futebol reflete a natureza da sociedade em que vivemos e, portanto, corre paralelamente ao decl\u00ednio gradual dos direitos das mulheres na primeira metade do s\u00e9culo XX, per\u00edodo obscuro de duas guerras mundiais, mas tamb\u00e9m do nascimento da carta dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Fotos e cr\u00f4nicas mostram que, nos \u00faltimos anos do s\u00e9culo XIX, homens e mulheres compartilhavam sem problemas os espa\u00e7os dos terrenos nos quais o rudimentar esporte do futebol eclodia como um fen\u00f4meno social e, gra\u00e7as \u00e0s apostas, tamb\u00e9m econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>As recorda\u00e7\u00f5es mostram tamb\u00e9m que as mulheres deixavam de lado seus enormes vestidos de \u00e9poca e colocavam longos cal\u00e7\u00f5es e camisetas de estilo esportivo, como se pode observar em diversas fotografias e gravuras da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Os registros da Federa\u00e7\u00e3o Inglesa de Futebol (FA) &#8211; que criou o esporte com o formato e as regras que conhecemos hoje &#8211; contam que a primeira partida oficial feminina foi disputada em 23 de mar\u00e7o de 1895, em Crouch End, Londres, e atraiu mais de 10 mil torcedores.<\/p>\n<p>A partida provocou os primeiros debates, a favor e contra \u00e0 pr\u00e1tica feminina. Segundo os mesmos registros da FA, no dia seguinte ao jogo, jornais brit\u00e2nicos como o &#8220;Bristol Mercury&#8221; e o &#8220;Daily Post&#8221; afirmavam que &#8220;as mulheres n\u00e3o jogam, nem nunca jogar\u00e3o o futebol como deve ser jogado&#8221;.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o futebol feminino cresceu e se desenvolveu em paralelo ao masculino at\u00e9 1921, data em que a FA imp\u00f4s um veto definitivo \u00e0 pr\u00e1tica feminina, alegando que &#8220;futebol n\u00e3o \u00e9 um jogo adequado para mulheres&#8221;.<\/p>\n<p>Mas nem sempre foi assim. Em 1920, logo ap\u00f3s a Primeira Guerra Mundial, o famoso &#8220;Boxing Day&#8221;, um dia em que se disputam muitos jogos nas principais divis\u00f5es dos campeonatos de futebol da Inglaterra e da Esc\u00f3cia, foi marcante para o futebol feminino.<\/p>\n<p>A partida entre o Dick Kerrs Ladies FC, uma equipe de mulheres que trabalhavam em uma f\u00e1brica de Preston, contra o St Helen&#8217;s Ladies, reuniu mais de 53 mil torcedores no Goodison Park Stadium, em Everton &#8211; um recorde de p\u00fablico do futebol feminino at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Mas a FA manteve a proibi\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres at\u00e9 1971, e a Fifa demorou mais 28 anos para organizar a primeira Copa do Mundo feminina, em 1999, disputada na China, e que teve uma excelente presen\u00e7a de p\u00fablico e recorde de audi\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo a emissora americana &#8220;ABC&#8221;, a final entre Estados Unidos e China tornou-se o jogo de futebol mais assistido da hist\u00f3ria nos EUA, com cerca de 40 milh\u00f5es de pessoas acompanhando a partida, que foi transmitida para mais de 70 pa\u00edses, e superou a audi\u00eancia das finais das Copas masculinas de 94 e 98, se igualando \u00e0s finais da NBA.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas mais tarde, as mulheres recuperaram o gramado, as arquibancadas e a paix\u00e3o com a qual disputavam o futebol no final do s\u00e9culo XIX, embora ainda continuem muito longe das cifras milion\u00e1rias e do impacto provocado pelo futebol masculino.<\/p>\n<p>No Mundial da R\u00fassia, uma conquista pode ser comemorada, gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o midi\u00e1tica e ao apoio da pr\u00f3pria Fifa: a presen\u00e7a das mulheres iranianas nas arquibancadas, uma luta delas para recuperar o direito de entrar em um est\u00e1dio, proibido pela religi\u00e3o e pelos governantes de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2018, a revista &#8220;Forbes&#8221; publicou uma lista com as cem mulheres mais influentes do esporte internacional e, nas primeiras posi\u00e7\u00f5es, apareciam tr\u00eas mulheres com cargos relevantes na Fifa e na Uefa.<\/p>\n<p>A primeira delas era Fatma Samba Diouf Samoura, uma senegalesa de 54 anos, ex-funcion\u00e1ria da ONU em zonas de conflito, que atua como secret\u00e1ria geral da Fifa, bra\u00e7o direito e n\u00famero dois do presidente, Gianni Infantino.<\/p>\n<p>A brecha foi aberta em 2013 por Lydia Nsekera, uma economista nascida no Burundi que se tornou a primeira mulher a ser eleita como membro do Comit\u00ea Executivo da federa\u00e7\u00e3o que gere os projetos do futebol mundial.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Comit\u00ea da Uefa est\u00e1, desde 2016, a francesa Florence Hardouin, mas ainda h\u00e1 outras, como a equatoriana Maria Sol Mu\u00f1oz Altamirano, que foi a primeira mulher a representar a Confedera\u00e7\u00e3o Sul-Americana de Futebol (Conmebol) no Conselho da Fifa.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio feminino contrasta com as atitudes abusivas e machistas que v\u00eam se repetindo nestes dias na Copa do Mundo, nas ruas, nas \u00e1reas para torcedores e no acesso aos est\u00e1dios da R\u00fassia, onde as mulheres est\u00e3o sofrendo um grave e amplo ass\u00e9dio f\u00edsico e verbal de muitos homens.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros oficiais de queixas policiais registradas desde o in\u00edcio da competi\u00e7\u00e3o ou outras estat\u00edsticas que permitam conhecer a verdadeira dimens\u00e3o de um problema com pouca repercuss\u00e3o na m\u00eddia.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tarefa cicl\u00f3pica, quase imposs\u00edvel. As torcedoras reclamam que n\u00e3o t\u00eam para quem recorrer, nem uma entidade do futebol internacional que as atenda, e tamb\u00e9m n\u00e3o contam com a pol\u00edcia russa, que encontra uma barreira no idioma e na falta de treinamento adequado para lidar com esse problema.<\/p>\n<p>&#8220;Sim, a verdade \u00e9 que \u00e9 muito desagrad\u00e1vel. Eles te olham feio, tentam te tocar com a desculpa de que &#8216;cantamos e pulamos para incentivar as equipes'&#8221;, declarou Gabriela \u00e0 Ag\u00eancia Efe, uma argentina que viajou para a R\u00fassia acompanhada pelo namorado.<\/p>\n<p>&#8220;Te pegam pela cintura e dizem coisas desagrad\u00e1veis, querem te tocar a todo momento&#8221;, acrescentou Francisca, enquanto caminhava com sua fam\u00edlia pelos arredores da Pra\u00e7a Vermelha, em Moscou.<\/p>\n<p>V\u00eddeos de torcedores, como o dos colombianos que humilharam torcedoras japonesas e tamb\u00e9m dos brasileiros que assediaram russas, se tornaram virais na internet e mostraram um pouco da situa\u00e7\u00e3o, mas s\u00e3o apenas a ponta do iceberg que se esconde debaixo da lama machista que, infelizmente, tamb\u00e9m \u00e9 gerada junto com a festa mundial do futebol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres ganharam as arquibancadas e recuperaram sua presen\u00e7a no gramado, mas o globalizado neg\u00f3cio da Copa do Mundo ainda promove nas ruas e nas \u00e1reas destinadas para os torcedores um espa\u00e7o muito hostil para elas, onde ainda reina o machismo. 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