{"id":183867,"date":"2018-06-28T08:44:35","date_gmt":"2018-06-28T11:44:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=183867"},"modified":"2018-06-28T08:44:35","modified_gmt":"2018-06-28T11:44:35","slug":"homens-transexuais-buscam-visibilidade-para-novas-geracoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/homens-transexuais-buscam-visibilidade-para-novas-geracoes\/","title":{"rendered":"Homens transexuais buscam visibilidade para novas gera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Ainda pequeno, quando fazia catequese, Patrick Lima repetia secretamente uma ora\u00e7\u00e3o antes de dormir: pedia para acordar no corpo de um menino. Naquela \u00e9poca, seus pais, professores e toda a sociedade ainda o chamavam pelo nome feminino com que foi batizado. Com o passar dos anos, na adolesc\u00eancia, ele teve acesso a \u00edcones transexuais como Roberta Close e Rog\u00e9ria, mas todas eram mulheres. Existir como homem trans, lembra ele, estava fora das possibilidades a que tinha acesso.<\/p>\n<p>&#8220;Me descobri com 17 anos. Eu sabia que existia a mulher trans, mas eu nunca tinha visto em lugar nenhum um homem trans&#8221;, conta ele, hoje com 27 anos. A descoberta veio com um personagem trans no seriado norte-americano The L Word. &#8220;Quando vi, eu pensei: &#8216;Eu tamb\u00e9m sou'&#8221;.<\/p>\n<p>Com uma luta pol\u00edtica historicamente menos evidente que de outros grupos que celebram hoje (28) o Dia do Orgulho LGBT, os homens transexuais vivem um &#8220;boom&#8221; atualmente, acredita Patrick. Ele cita canais no YouTube, personagens em novelas e o reconhecimento de figuras hist\u00f3ricas como Jo\u00e3o Nery, transhomem considerado pioneiro no Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;A gente tem um movimento de travestis e transexuais que tem 40, 50 anos. E a gente est\u00e1 no boom agora&#8221;, diz ele, que ainda v\u00ea pouca mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para enfrentar a invisibilidade. &#8220;Politicamente, a gente tem um caminho muito grande a seguir.&#8221;<\/p>\n<p>Morador de Vista Alegre, na zona norte do Rio de Janeiro, Patrick \u00e9 operador de c\u00e2mbio, mas se formou em jornalismo. A pr\u00f3pria escolha da gradua\u00e7\u00e3o foi um plano B, porque seu sonho era seguir a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica para continuar no mundo da nata\u00e7\u00e3o. Ele conta que praticou o esporte dos 3 aos 18 anos, mas a consci\u00eancia de sua identidade de g\u00eanero foi tornando o mai\u00f4 cada vez mais desconfort\u00e1vel. &#8220;Vi que n\u00e3o ia aguentar.&#8221;<\/p>\n<p>O meio jornal\u00edstico, por\u00e9m, n\u00e3o facilitou em nada. Se na faculdade as chamadas e provas ainda exigiam o nome feminino, na busca por est\u00e1gios, os documentos ainda inadequados ao seu g\u00eanero e o preconceito sabotavam suas oportunidades. &#8220;J\u00e1 ouvi: &#8216;tudo bem, voc\u00ea \u00e9 qualificado, mas em que banheiro a gente vai colocar voc\u00ea?&#8217; A gente nunca \u00e9 avaliado pelo potencial. Sempre pensam onde v\u00e3o nos colocar para n\u00e3o ter nenhum tipo de problema&#8221;, conta ele, que viu as portas se fecharem por n\u00e3o ter conseguido experi\u00eancia durante a faculdade. &#8220;Meu primeiro trabalho, com o diploma debaixo do bra\u00e7o, foi lavar copo.&#8221;<\/p>\n<p>Se para quem est\u00e1 iniciando a prepara\u00e7\u00e3o para uma carreira o caminho \u00e9 dif\u00edcil, para quem j\u00e1 est\u00e1 estabelecido a discrimina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m traz riscos. Leonardo Pe\u00e7anha, de 36 anos, \u00e9 ativista, especialista em g\u00eanero e professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Ele conta que o impacto da transfobia pode fazer a pessoa trans perder n\u00e3o somente o emprego, mas a carreira.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as pessoas trans que j\u00e1 tinham uma trajet\u00f3ria profissional perdem emprego, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no sentido de mandar embora. Elas perdem toda a carreira, porque todo mundo fica sabendo. Isso se espalha pelo meio profissional da pessoa, e ela fica desamparada.&#8221;<\/p>\n<p>Um exemplo disso \u00e9 a hist\u00f3ria de vida do pr\u00f3prio Jo\u00e3o Nery. Depois que ele se submeteu \u00e0s cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, ainda na d\u00e9cada de 1970, seu diploma de psic\u00f3logo foi cassado, e ele perdeu sua forma de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Para Leonardo, a fam\u00edlia pode fazer a diferen\u00e7a quando o mundo vira as costas para os homens trans. &#8220;Quando a fam\u00edlia acolhe, \u00e9 completamente diferente a vida da pessoa trans, porque ela n\u00e3o fica sozinha. As coisas se tornam menos dif\u00edceis, porque, quando acontecer algum caso de transfobia, voc\u00ea vai ter quem te acolher&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>Acesso \u00e0 sa\u00fade<\/strong> &#8211; Entre os obst\u00e1culos que os homens trans encontram em seu percurso, o acesso \u00e0 sa\u00fade continua a ser um dos mais dram\u00e1ticos. A necessidade de frequentar um ginecologista, a menor qualifica\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos para os procedimentos cir\u00fargicos e o acesso \u00e0 terapia hormonal com acompanhamento profissional podem se tornar barreiras at\u00e9 quando se disp\u00f5e de um plano de sa\u00fade. Patrick lembra que a fam\u00edlia o ajudou a pagar um plano na \u00e9poca em que nenhuma empresa o contratava.<\/p>\n<p>&#8220;A partir do plano, foi uma saga para conseguir um m\u00e9dico, porque a maioria diz &#8216;eu n\u00e3o entendo&#8217;, &#8216;eu n\u00e3o fa\u00e7o&#8217;, &#8216;n\u00e3o concordo&#8217;, &#8216;minha religi\u00e3o n\u00e3o permite&#8217;. Ainda tem isso, voc\u00ea est\u00e1 pagando e ainda tem que ouvir uma coisa dessas.&#8221;<\/p>\n<p>Leonardo concorda e conta que muitas vezes os endocrinologistas se recusam mesmo sabendo que os horm\u00f4nios s\u00e3o semelhantes aos usados em tratamentos comuns de reposi\u00e7\u00e3o hormonal. Na sala de espera do ginecologista, os constrangimentos s\u00e3o muitos e as consultas, muitas vezes, terminam em negativas de atendimento. &#8220;A sa\u00fade ainda \u00e9 bin\u00e1ria e est\u00e1 marcada pelas quest\u00f5es de g\u00eanero.&#8221;<\/p>\n<p>Integrante do do N\u00facleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis-RJ) da Defensoria P\u00fablica do Estado do Rio de Janeiro, a defensora p\u00fablica Let\u00edcia Furtado conta que as demandas de homens trans que chegam at\u00e9 o \u00f3rg\u00e3o est\u00e3o ligadas principalmente a servi\u00e7os de sa\u00fade. As dificuldades s\u00e3o ainda maiores que as encontradas pelas mulheres trans, conta a defensora, que exemplifica que a transgenitaliza\u00e7\u00e3o (corre\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o genital), no caso deles, ainda \u00e9 considerada um procedimento cir\u00fargico experimental por muitos profissionais. Para as cirurgias complementares, como a mastectomia, os obst\u00e1culos partem de planos de sa\u00fade ou unidades p\u00fablicas que consideram o procedimento est\u00e9tico.<\/p>\n<p>&#8220;Para um homem trans, [a mastectomia] muitas vezes \u00e9 fundamental e muitos relatam que \u00e9 o que faz a grande diferen\u00e7a na vida deles, que \u00e9 o momento que mexe com a masculinidade deles. Mas, como ainda consideram apenas uma cirurgia pl\u00e1stica, esse \u00e9 um enfrentamento que estamos fazendo.&#8221;<\/p>\n<p>Para o pesquisador da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (ENSP\/Fiocruz), Luiz Montenegro, a decis\u00e3o recente da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) de retirar a transexualidade da lista de doen\u00e7as mentais e inclu\u00ed-la como incongru\u00eancia de g\u00eanero nas quest\u00f5es de sa\u00fade sexual pode colaborar com um cen\u00e1rio de servi\u00e7os mais acess\u00edveis e profissionais mais sens\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8220;Havia uma patologiza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o humana, e que n\u00e3o tem nada a ver com doen\u00e7a&#8221;, argumenta. &#8220;A gente espera que os profissionais de sa\u00fade se sensibilizem. \u00c9 necess\u00e1rio ter mais ambulat\u00f3rios para pessoas trans ou que tenhamos profissionais de sa\u00fade engajados no cuidado das pessoas da maneira mais ampla poss\u00edvel?&#8221;, questiona.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda pequeno, quando fazia catequese, Patrick Lima repetia secretamente uma ora\u00e7\u00e3o antes de dormir: pedia para acordar no corpo de um menino. 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