{"id":184540,"date":"2018-07-05T14:09:18","date_gmt":"2018-07-05T17:09:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=184540"},"modified":"2018-07-05T15:00:27","modified_gmt":"2018-07-05T18:00:27","slug":"boa-vista-nunca-mais-voltara-a-ser-o-que-era-diz-prefeita-sobre-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/boa-vista-nunca-mais-voltara-a-ser-o-que-era-diz-prefeita-sobre-crise\/","title":{"rendered":"&#8216;Boa Vista nunca mais ser\u00e1 a mesma&#8217;, diz prefeita sobre crise"},"content":{"rendered":"<div class=\"n--noticia__state\">Mensalmente, mais de 12 mil venezuelanos entram em Roraima ap\u00f3s terem percorrido uma jornada de aproximadamente 200 quil\u00f4metros. Dependendo da cidade de que se parte, a viagem pode levar semanas. Quando n\u00e3o se consegue carona, o jeito \u00e9 seguir a p\u00e9.<\/div>\n<div class=\"n--noticia__content content\">\n<p>Al\u00e9m de carregar seus pertences, essas pessoas sofrem com a falta de comida, \u00e1gua, local para descansar. Crian\u00e7as precisam ser levadas no colo, sob sol e chuva. Muitas chegam com os l\u00e1bios ressecados, pela falta de hidrata\u00e7\u00e3o, com os p\u00e9s inchados e machucados.<\/p>\n<p>\u00c9 uma gente que chega deprimida e desolada por estar passando por uma situa\u00e7\u00e3o de extrema vulnerabilidade. Mas, todos esses sentimentos s\u00e3o minimizados pela esperan\u00e7a de futuro no Brasil, j\u00e1 que na Venezuela n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de melhora.<\/p>\n<p>Segundo pesquisa da ONU, a maior parte dos venezuelanos (71%) que chega ao Brasil tem entre 25 e 49 anos, s\u00e3o em sua maioria homens (55%), solteiros (50%), possuem n\u00edvel secund\u00e1rio de escolaridade (51%) e, no momento, est\u00e3o desempregados (57%).<\/p>\n<p>Dos 12 mil que chegam mensalmente, a grande maioria parte em v\u00f4os di\u00e1rios para Bras\u00edlia, de onde seguem para todos os cantos do pa\u00eds. Mas, algo em torno de 2.700 venezuelanos permanecem em Boa Vista, a capital roraimense que, com pouco mais de 330 mil habitantes, \u00e9 a segunda menos populosa do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O fluxo de venezuelanos mudou intensamente a rotina da cidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-526\" src=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-3-1024x829.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" srcset=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-3-1024x829.jpeg 1024w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-3-300x243.jpeg 300w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-3-768x622.jpeg 768w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-3.jpeg 1055w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"829\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-527\" src=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-1.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-1.jpeg 728w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-1-300x241.jpeg 300w\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"585\" \/><em>Fotos: Diego Dantas<\/em><\/p>\n<p>Os oito abrigos constru\u00eddos para atend\u00ea-los j\u00e1 est\u00e3o lotados. Sem ter para onde ir, o excedente ocupa os espa\u00e7os p\u00fablicos, passando o dia pelas ruas, espalhados pelas cal\u00e7adas, dormindo ao relento em pra\u00e7as municipais ou em tendas improvisadas ao lado de igrejas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-528\" src=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-2-1024x681.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px\" srcset=\"https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-2-1024x681.jpeg 1024w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-2-300x199.jpeg 300w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-2-768x511.jpeg 768w, https:\/\/brasil.estadao.com.br\/blogs\/inconsciente-coletivo\/wp-content\/uploads\/sites\/646\/2018\/07\/Diego-Dantas-2.jpeg 1280w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"681\" \/><\/p>\n<p>\u201cA \u00fanica forma que o Governo Brasileiro tem de ajudar \u00e9, realmente, na retirada do excedente de pessoas que est\u00e3o na cidade, porque n\u00e3o damos mais conta de atender a todos. E se isso n\u00e3o for feito logo, j\u00e1 em janeiro ou fevereiro do ano que vem a cidade vai colapsar\u201d, relata Teresa Surita, a prefeita da cidade, nesta entrevista.<\/p>\n<p>Surita foi eleita pelo MDB na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o municipal com mais de 79% dos votos v\u00e1lidos e est\u00e1 em seu quinto mandato como prefeita.\u00a0Em 2016, foi condenada em 1\u00aa inst\u00e2ncia \u00e0 perda do mandato em processo por improbidade administrativa, mas a a\u00e7\u00e3o foi arquivada.<\/p>\n<p>Nascida em S\u00e3o Manuel em uma fam\u00edlia de quatro irm\u00e3os, entre eles o radialista Em\u00edlio Surita (o apresentador do programa \u2018P\u00e2nico\u2019 na r\u00e1dio Jovem Pan), Teresa foi prefeita de Boa Vista pela primeira vez em 1992, quando ainda era casada com Romero Juc\u00e1, atual presidente do MDB.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, ela discorre sobre diversos aspectos da crise migrat\u00f3ria, como a xenofobia entre a popula\u00e7\u00e3o, o surto de sarampo (doen\u00e7a que estava erradicada no pa\u00eds), as dificuldades em garantir a vacina\u00e7\u00e3o de todos, as trapalhadas de Bras\u00edlia para lidar com o que acontece em Boa Vista e, tamb\u00e9m, a quest\u00e3o envolvendo o fechamento da fronteira \u2013 um delicado tema levado ao STF pela governadora do Estado, a quem Surita se op\u00f5e frontalmente.<\/p>\n<p>\u201cO mundo est\u00e1 passando por uma transforma\u00e7\u00e3o e os pa\u00edses n\u00e3o est\u00e3o sabendo lidar com tudo isso. A integra\u00e7\u00e3o vai se dando sempre com muita dificuldade, mas vejo o Brasil receber os migrantes e refugiados de uma maneira bastante humana\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, segundo ela, \u201co Brasil precisa aprender a dividir esse problema, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso, de Roraima, mas de todos os estados, de toda a federa\u00e7\u00e3o. O fato de estarmos muito longe do centro das aten\u00e7\u00f5es faz com que o grosso da popula\u00e7\u00e3o brasileira tenha somente no imagin\u00e1rio o que acontece por aqui\u201d.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o ponto mais cr\u00edtico dessa onda migrat\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>O que nos causa o maior estrangulamento \u00e9 que 12 mil novas pessoas entram a cada m\u00eas em Roraima. Dessa quantia, cerca de 2.700 pessoas permanecem em Boa Vista e 500 ficam totalmente desassistidas, sem ter onde morar e sem ter com o que trabalhar. S\u00e3o pessoas que v\u00e3o parar nas ruas, que ocupam os espa\u00e7os p\u00fablicos em frente de abrigos esperando vagas.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o perfil das pessoas que deixam a Venezuela e entram no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Os perfis s\u00e3o muito variados. Como a viagem \u00e9 muito cruel de se fazer, ent\u00e3o h\u00e1 poucos idosos e muitos jovens e adultos. A grande maioria \u00e9 de pessoas com at\u00e9 60 anos que j\u00e1 n\u00e3o tinham emprego na Venezuela, mas que s\u00e3o uma m\u00e3o de obra economicamente ativa.<\/p>\n<p><strong>E fam\u00edlias?<\/strong><\/p>\n<p>Embora a maior parte seja de homens e mulheres solteiros, existem casais que chegam com filhos pequenos e h\u00e1, claro, mulheres que chegam gr\u00e1vidas. Agora, muitos chefes de fam\u00edlia v\u00eam na frente trazendo um filho pequeno, mas com o plano de trazer o restante da fam\u00edlia para, ent\u00e3o, seguir viagem rumo a outro lugar.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea sabe sobre essa viagem que os venezuelanos fazem para chegar at\u00e9 o Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Da Venezuela at\u00e9 Boa Vista s\u00e3o 200 quil\u00f4metros. Dependendo da cidade de que se parte, a viagem pode levar semanas. Quando n\u00e3o se consegue carona, o jeito \u00e9 seguir a p\u00e9. Al\u00e9m de carregar seus pertences, essas pessoas sofrem com a falta de comida, \u00e1gua, local para descansar. Crian\u00e7as precisam ser levadas no colo, sob sol e chuva. Muitos chegam com os l\u00e1bios ressecados, pela falta de hidrata\u00e7\u00e3o, com os p\u00e9s inchados e machucados, doentes f\u00edsica e psicologicamente. \u00c9 comum que eles acampem nas beiras das estradas para pernoitar. Aqueles que t\u00eam pertences de valor (tablets, notebooks, aparelhos celulares), conseguem, \u00e0s vezes, trocar com os motoristas de t\u00e1xi e lota\u00e7\u00e3o para serem levados at\u00e9 a capital. Outros t\u00eam a sorte de conseguir carona de alguma pessoa mais sensibilizada com a situa\u00e7\u00e3o. Eles chegam deprimidos e desolados por estarem passando por uma situa\u00e7\u00e3o extrema de vulnerabilidade. Agora, todos esses sentimentos s\u00e3o minimizados pela esperan\u00e7a de futuro no Brasil, j\u00e1 que na Venezuela n\u00e3o h\u00e1 perspectivas de melhora.<\/p>\n<p><strong>Quais hist\u00f3rias voc\u00ea escuta dessa gente? Alguma marcante, em particular?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as hist\u00f3rias. Como as crian\u00e7as s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis nessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s acabamos dando muita aten\u00e7\u00e3o para a primeira inf\u00e2ncia por aqui. Outro dia, encontrei um garoto de uns 11 anos em um dos abrigos e ele me contou que fez a viagem com a m\u00e3e, que o irm\u00e3o mais velho tinha ido para a Col\u00f4mbia e que, agora, eles se planajevam para trazer o pai e os outros dois irm\u00e3os que ficaram na Venezuela.<\/p>\n<p><strong>Qual o status legal dos venezuelanos que chegam? Eles ganham visto de resid\u00eancia e direito a trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, a Pol\u00edcia Federal est\u00e1 emitindo o protocolo de ref\u00fagio, um atestado de resid\u00eancia v\u00e1lido por dois anos e o Cadastro de Pessoa F\u00edsica (CPF). O agendamento pode demorar mais de um m\u00eas, mas tendo estes documentos em m\u00e3os, os venezuelanos podem emitir a Carteira de Trabalho ou come\u00e7ar a empreender por conta pr\u00f3pria. No entanto, diante da restri\u00e7\u00e3o do mercado em Boa Vista, que j\u00e1 est\u00e1 saturado, aqueles que t\u00eam alguma condi\u00e7\u00e3o financeira partem para outros estados do pa\u00eds em busca de novas oportunidades.<\/p>\n<p><strong>As pessoas que v\u00eam da Venezuela falam sobre o Nicol\u00e1s Maduro?<\/strong><\/p>\n<p>Segundo coment\u00e1rios espont\u00e2neos de alguns venezuelanos, o presidente Maduro \u00e9 descrito como ladr\u00e3o, corrupto, ditador, assassino, genocida. Algu\u00e9m que rouba a riqueza da Venezuela e a envia para a China, Cuba, R\u00fassia. Algumas dessas pessoas culpam Maduro pela pobreza extrema pela qual est\u00e3o passando. Segundo eles, a Venezuela era um pa\u00eds rico e pr\u00f3spero e agora \u00e9 apenas um lugar que beneficia aqueles que fazem parte do governo ou de alguma institui\u00e7\u00e3o que apoia a pol\u00edtica do atual presidente.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre Maduro e sobre a situa\u00e7\u00e3o atual da Venezuela, no geral?<\/strong><\/p>\n<p>Como disse o Papa Francisco h\u00e1 uns meses, Maduro \u00e9 quem precisa se explicar. Ningu\u00e9m sabe o que ele tem em mente. \u00c9 como um ser sem alma, um ditador que precisa de interven\u00e7\u00e3o internacional. Penso que a situa\u00e7\u00e3o na Venezuela vai al\u00e9m de uma crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica: o povo venezuelano vive uma cat\u00e1strofe moral e c\u00edvica. Eles precisam de muita solidariedade e de cada vez mais ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea projeta o futuro de Boa Vista?<\/strong><\/p>\n<p>Somos uma cidade que est\u00e1 aprendendo a conviver com esse novo cen\u00e1rio, mas pode ser que levemos uma d\u00e9cada para acomodar tudo o que est\u00e1 acontecendo. Boa Vista nunca mais voltar\u00e1 a ser o que era. Isso \u00e9 uma realidade. Em breve seremos uma cidade bil\u00edngue. Na verdade, j\u00e1 somos, porque falar em portugu\u00eas e em espanhol faz parte da rotina, agora.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua responsabilidade enquanto prefeita diante do cen\u00e1rio atual?<\/strong><\/p>\n<p>O munic\u00edpio \u00e9 quem menos tem responsabilidade oficial. De fato, a maior responsabilidade \u00e9 do Brasil em rela\u00e7\u00e3o aos acordos internacionais firmados com a ONU. Quem deve garantir as condi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds para o recebimento de migrantes e refugiados \u00e9 o Governo Federal. Agora, como prefeita e como cidad\u00e3, eu quero ver todas as pessoas que vivem em Boa Vista com qualidade de vida, integradas e n\u00e3o segregadas.<\/p>\n<p><strong>Segrega\u00e7\u00e3o, xenofobia, discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito. Como tudo isso se manifesta na rela\u00e7\u00e3o entre os brasileiros e os venezuelanos?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo que h\u00e1 mais solidariedade do que xenofobia. \u00d3bvio que sempre tem os dois lados, ent\u00e3o existem aqueles que n\u00e3o querem os venezuelanos por aqui. Mas, na minha avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito mais o estranhamento de aprender a lidar com um povo e com uma cultura que n\u00e3o se conhece. J\u00e1 me propuseram fazer filas separadas para brasileiros e venezuelanos nos postos de sa\u00fade, por exemplo. Eu disse que isso n\u00e3o existe aqui de jeito nenhum, porque a partir do momento em que h\u00e1 filas diferentes se est\u00e1 separando os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p><strong>Mas tamb\u00e9m j\u00e1 houve casos extremos. Segundo uma pesquisa da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM), cerca de 28% dos venezuelanos j\u00e1 sofreram algum tipo de viol\u00eancia em Boa Vista.<\/strong><\/p>\n<p>Quando 7,5% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por venezuelanos, \u00e9 claro que vai existir xenofobia, mas ela n\u00e3o vem da maioria. J\u00e1 tivemos casos. Por exemplo: uma mulher foi fazer um embarque no aeroporto, algu\u00e9m achou que ela estava furando a fila e come\u00e7aram a dizer que al\u00e9m da pegar o lugar deles em Boa Vista ela ainda queria passar na frente. Eu j\u00e1 ouvi falar, tamb\u00e9m, de algu\u00e9m que vai fazer uma queixa de roubo na delegacia e quem atende pergunta se o autor do roubou foi um venezuelano. E teve o caso mais marcante da pessoa que ateou fogo em uma casa, ferindo um adulto e uma crian\u00e7a. Tudo isso \u00e9 xenofobia.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 inevit\u00e1vel n\u00e3o relacionar essa situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias venezuelanas que chegam a Boa Vista com o que est\u00e1 acontecendo nos Estados Unidos, onde crian\u00e7as, pais e m\u00e3es est\u00e3o sendo separados por uma pol\u00edtica do governo americano.<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 algo inadmiss\u00edvel que provoca dor, pela falta de sensibilidade de um governante t\u00e3o poderoso como o Donald Trump, e que provoca revolta, pois \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o alimentada pelo comando de um presidente. N\u00e3o d\u00e1 para dizer que \u00e9 humano.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias com os venezuelanos que chegam a Boa Vista?<\/strong><\/p>\n<p>Muito pelo contr\u00e1rio. Aqui, os que v\u00e3o primeiro para os abrigos s\u00e3o as fam\u00edlias, os pais, as m\u00e3es e as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Ainda nesse tema: qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre o fechamento da fronteira do Brasil com a Venezuela?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode fechar a fronteira para pessoas t\u00e3o necessitadas. Essa \u00e9 uma atitude n\u00e3o democr\u00e1tica. Os venezuelanos n\u00e3o est\u00e3o vindo para o Brasil porque querem, mas por necessidade e socorro.<\/p>\n<p><strong>E o fator de que a governadora do estado Suely Campos (PP) \u00e9 favor\u00e1vel ao fechamento da fronteira? Ela, inclusive, levou a quest\u00e3o para o Supremo Tribunal Federal.<\/strong><\/p>\n<p>Eu discordo do comportamento da governadora, pois entendo que \u00e9 uma atitude de quem vai disputar as elei\u00e7\u00f5es dentro de alguns meses. N\u00e3o \u00e9 sincero da parte dela ir ao STF (que nada tem a ver com o caso) pedir pelo fechamento da fronteira. Ela s\u00f3 est\u00e1 dizendo o que uma parte da popula\u00e7\u00e3o do estado quer ouvir.<\/p>\n<p><strong>Como tem sido a sua negocia\u00e7\u00e3o com o Governo Federal?<\/strong><\/p>\n<p>Eu brigo muito com a Casa Civil, porque eles demoraram muito para tomar provid\u00eancias. Agora, desde que o presidente Michel Temer fez sua primeira visita em fevereiro e com a Medida Provis\u00f3ria, as coisas come\u00e7aram a acontecer. Mas, as a\u00e7\u00f5es deveriam ser mais r\u00e1pidas. O excesso de burocracia faz as coisas demorarem. Ainda \u00e9 necess\u00e1rio que muitas coisas avancem.<\/p>\n<p><strong>No que, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o dois os pontos principais. Primeiro: a quest\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o. Ainda que tenhamos conseguido vacinar 73% dos venezuelanos, \u00e9 inaceit\u00e1vel que pessoas entrem no pa\u00eds sem ter tomado as vacinas obrigat\u00f3rias. Isso n\u00e3o vale s\u00f3 para Roraima, mas para qualquer lugar do pa\u00eds. Porque, sem essa obriga\u00e7\u00e3o, doen\u00e7as que j\u00e1 est\u00e3o erradicadas por aqui voltam a aparecer, como o sarampo. J\u00e1 temos 200 casos de sarampo confirmados no estado.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do sarampo tem algum outro surto?<\/strong><\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a morreu de difteria no nosso hospital infantil, mas foi s\u00f3 um caso. Agora, n\u00f3s estamos sujeitos a qualquer outro surto, j\u00e1 que na Venezuela a crise \u00e9 generalizada, inclusive de falta de vacinas. As pessoas chegam sem carteira de vacina\u00e7\u00e3o e debilitados pela viagem dif\u00edcil. Atualmente, 47% do nosso atendimento na rede de sa\u00fade b\u00e1sica \u00e9 de venezuelanos.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 o segundo ponto?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a necessidade da retirada do excedente populacional, da interioriza\u00e7\u00e3o, como se chama. N\u00f3s precisamos trabalhar na transfer\u00eancia das pessoas para outras cidades do pa\u00eds. Acontece que os acordos que se tenta fazer com governos e prefeituras de outros estados n\u00e3o avan\u00e7am. E os venezuelanos querem ir para outros lugares, tamb\u00e9m. De acordo com o nosso mapeamento, mais da metade desses migrantes n\u00e3o desejam ficar em Boa Vista. Por isso eu defendo que o Ex\u00e9rcito atue nesse sentido. E defendo, tamb\u00e9m, que essas pessoas sejam levadas para estados que fazem divisa com pa\u00edses de l\u00edngua espanhola, pois assim elas ter\u00e3o duas op\u00e7\u00f5es: ir para lugares que falam a sua l\u00edngua ou ficar em uma regi\u00e3o com mais op\u00e7\u00f5es de emprego. \u00c9 dar a oportunidade para essas pessoas fazerem escolhas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que se o foco dessa crise fosse em um outro estado a como\u00e7\u00e3o nacional seria diferente?<\/strong><\/p>\n<p>Quando houve a quest\u00e3o dos haitianos que chegavam ao Acre, o Governo Federal interveio deslocando aquelas pessoas para S\u00e3o Paulo, o que gerou muita controv\u00e9rsia. Mas chamou muita aten\u00e7\u00e3o. No caso da Venezuela, o processo \u00e9 mais constante: enquanto a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica n\u00e3o melhorar, a vinda deles para c\u00e1 n\u00e3o vai parar. No entanto, acho, tamb\u00e9m, que se isso acontecesse em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte chamaria muito mais a aten\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 onde parece que todos ficam mais ligados, como se o Brasil fosse s\u00f3 aquilo. Os estados mais afastados, principalmente Roraima, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o conhecidos como a regi\u00e3o sudeste e sul do pa\u00eds. \u00c9 muito comum ler mat\u00e9rias de jornais em que Roraima aparece com a sigla RO (que \u00e9 Rond\u00f4nia). O pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 mandou livros did\u00e1ticos de Roraima para Rond\u00f4nia, para se ter uma ideia. O fato de estarmos muito longe do centro das aten\u00e7\u00f5es faz com que o grosso da popula\u00e7\u00e3o brasileira tenha somente no imagin\u00e1rio o que acontece por aqui.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o da segunda visita do presidente Temer a Boa Vista, que aconteceu no final de junho? Ele est\u00e1 engajado e comprometido com as quest\u00f5es apresentadas?<\/strong><\/p>\n<p>Ele est\u00e1 visivelmente preocupado com a nossa situa\u00e7\u00e3o. E ele s\u00f3 n\u00e3o foi at\u00e9 Pacaraima <em>[munic\u00edpio fronteiri\u00e7o onde h\u00e1 uma base de triagem dos migrantes]<\/em> por causa das chuvas fortes dessa \u00e9poca do ano. Acontece que esse \u00e9 um processo que nem o presidente sabe como lidar direito. E dentro da Casa Civil, como eu disse, existe uma grande burocracia por parte do comit\u00ea que cuida dos procedimentos e, por isso, n\u00e3o consegue resolver a sa\u00edda do excedente populacional. \u00c9 um comit\u00ea muito complicado, que n\u00e3o sabe priorizar, n\u00e3o sabe decidir. Por isso defendo que esse processo aconte\u00e7a atrav\u00e9s do Ex\u00e9rcito, que faz um trabalho fant\u00e1stico na cidade, s\u00e3o mais objetivos e t\u00eam uma log\u00edstica melhor.<\/p>\n<p><strong>De que forma o Governo Federal pode ajudar mais na quest\u00e3o do acolhimento do contingente de pessoas que chegam em Boa Vista?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos oito abrigos e outros dois est\u00e3o sendo constru\u00eddos. N\u00e3o cabe abrir mais abrigos. O Governo Federal trabalha junto com a ONU e principalmente com a ACNUR nas a\u00e7\u00f5es que envolvem as rela\u00e7\u00f5es internacionais. Portanto, a \u00fanica forma que o Governo Brasileiro tem de ajudar \u00e9, realmente, na retirada do excedente de pessoas que est\u00e3o na cidade, porque n\u00e3o damos mais conta de atender a todos. E se isso n\u00e3o for feito logo, j\u00e1 em janeiro ou fevereiro do ano que vem a cidade vai colapsar.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou da ONU.<\/strong> <strong>Como o Brasil se insere nesse contexto global de crise humanit\u00e1ria envolvendo popula\u00e7\u00f5es de migrantes e refugiados?<\/strong><\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 passando por uma transforma\u00e7\u00e3o e os pa\u00edses n\u00e3o est\u00e3o sabendo lidar com tudo isso. A integra\u00e7\u00e3o vai se dando sempre com muita dificuldade, mas vejo o Brasil receber os migrantes e refugiados de uma maneira bastante humana. \u00c9 evidente que n\u00e3o damos conta de tudo, mas o estado est\u00e1 com a fronteira aberta, Boa Vista \u00e9 uma cidade que conta com uma certa estrutura e as pessoas abrigadas recebem tr\u00eas alimenta\u00e7\u00f5es por dia. Acontece que daqui a pouco o dinheiro vai acabar e, ent\u00e3o, entra o aspecto de o Brasil aprender dividir esse problema, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso, mas de todos os estados, de toda a Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea e o presidente s\u00e3o do mesmo partido, o MDB. Isso n\u00e3o deveria facilitar nas negocia\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que independe de partidos, sinceramente. Ele trouxe recursos para o Governo do Estado <em>[a governadora \u00e9 do Partido Progressista]<\/em>e n\u00e3o para o Munic\u00edpio, por exemplo. Eu estou precisando de um milh\u00e3o de coisas. Agora, ele veio para c\u00e1 e auxiliou algu\u00e9m que, inclusive politicamente, n\u00e3o est\u00e1 do meu lado. Eu n\u00e3o tenho como reclamar disso.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o governo do presidente Temer?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil para mim falar sendo do MDB. A imagem do presidente n\u00e3o \u00e9 boa e ele tem uma rejei\u00e7\u00e3o muito grande. Mas, acho que para esse processo de transforma\u00e7\u00e3o desde a sa\u00edda do PT at\u00e9 uma nova elei\u00e7\u00e3o\u2026 \u00c9 melhor que seja com ele do que com outra pessoa. \u00c9 um processo necess\u00e1rio para equilibrar o nosso pa\u00eds a partir do ano que vem. E eu espero, sinceramente, que as pessoas tenham no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do voto.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea se define politicamente?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou algu\u00e9m que ainda acredita na pol\u00edtica e que procura fazer o melhor poss\u00edvel com o mandato que tenho.<\/p>\n<p><strong>Alguma considera\u00e7\u00e3o a respeito das elei\u00e7\u00f5es que se aproximam?<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou contra o Bolsonaro e acho um absurdo ver qualquer mulher votando nele por tudo o que ele fala. Muito me preocupa o voto de revolta nessa elei\u00e7\u00e3o e do que possa acontecer com o pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mensalmente, mais de 12 mil venezuelanos entram em Roraima ap\u00f3s terem percorrido uma jornada de aproximadamente 200 quil\u00f4metros. Dependendo da cidade de que se parte, a viagem pode levar semanas. Quando n\u00e3o se consegue carona, o jeito \u00e9 seguir a p\u00e9. 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