{"id":184988,"date":"2018-07-10T07:50:26","date_gmt":"2018-07-10T10:50:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=184988"},"modified":"2018-07-10T07:50:26","modified_gmt":"2018-07-10T10:50:26","slug":"desmatamento-mina-chance-da-meta-contra-aquecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/desmatamento-mina-chance-da-meta-contra-aquecimento\/","title":{"rendered":"Desmatamento mina chance da meta contra aquecimento"},"content":{"rendered":"<p>Se o desmatamento da Amaz\u00f4nia e do Cerrado seguir na tend\u00eancia de alta observada nos \u00faltimos cinco anos, piorando a contribui\u00e7\u00e3o do Brasil ao aquecimento global, outros setores do Pa\u00eds ter\u00e3o de compensar essas emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico. E o custo para a economia pode ser de pelo menos US$ 2 trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A estimativa e o alerta est\u00e3o em um artigo publicado nesta segunda-feira, 9, por um grupo de dez pesquisadores brasileiros na revista Nature Climate Change. O texto analisa o que os autores chamam de &#8220;amea\u00e7a das barganhas pol\u00edticas para a mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Em outras palavras: os autores consideram que mudan\u00e7as na pol\u00edtica ambiental brasileira em troca de apoio da bancada ruralista ao governo &#8211; como sugest\u00f5es de mudan\u00e7as na lei do licenciamento ambiental, suspens\u00e3o de ratifica\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, redu\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas e flexibiliza\u00e7\u00e3o da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria &#8211; podem impactar a capacidade do Pa\u00eds de conseguir cumprir suas metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>Eles se referem aos compromissos estabelecidos no \u00e2mbito do Acordo de Paris, de 2015, por meio do qual 196 pa\u00edses concordaram em agir para conter o aquecimento do planeta a menos de 2\u00b0C at\u00e9 o final do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Procurado pela reportagem para comentar o artigo, o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente disse, por meio de nota, que &#8220;as decis\u00f5es tomadas pelo governo Temer foram decisivas para a queda desmatamento em todos os grandes biomas brasileiros, dobrar a \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental no Pa\u00eds e fortalecer os mecanismos de combate ao desmatamento ilegal. Como resultado o Brasil foi o pa\u00eds que obteve a maior redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa do planeta desde de 2004&#8221;.<\/p>\n<p>A Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) tamb\u00e9m recebeu o trabalho t\u00e3o logo ele entrou no ar, \u00e0s 12h, mas a assessoria de imprensa da bancada informou que tem de submeter o estudo aos 250 deputados que comp\u00f5em o grupo antes de fechar algum posicionamento.<\/p>\n<p><strong>Invers\u00e3o da curva<\/strong> &#8211; A equipe de pesquisadores, liderada pelo pesquisador Roberto Schaeffer, do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe\/UFRJ), observou a trajet\u00f3ria do desmatamento nos \u00faltimos 20 anos para estimar como pode ser a evolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 2030, levando em conta os movimentos pol\u00edticos dos \u00faltimos anos e o fato de que o Pa\u00eds se comprometeu a diminuir suas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa em 43% at\u00e9 aquele ano (com base em valores de 2005).<\/p>\n<p>Como historicamente o desmatamento foi a principal fonte de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa do Pa\u00eds, \u00e9 natural que o controle das emiss\u00f5es passe prioritariamente pelo combate \u00e0 perda florestal. E esse parecia um objetivo f\u00e1cil de alcan\u00e7ar. De 2005 a 2012, as taxas de desmatamento da Amaz\u00f4nia ca\u00edram 83%, chegando ao menor n\u00edvel desde o in\u00edcio dos registros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 1989.<\/p>\n<p>De 2012 para c\u00e1, por\u00e9m, apesar de ainda mais baixa do que os valores observados at\u00e9 2008, a taxa voltou a apresentar uma tend\u00eancia de alta, o que levanta d\u00favidas se o Pa\u00eds ser\u00e1 capaz de zerar o desmatamento ilegal at\u00e9 2030, como foi proposto pelo governo.<\/p>\n<p>Num exerc\u00edcio de estimar o que pode ocorrer daqui para frente, os pesquisadores dividiram as duas \u00faltimas d\u00e9cadas em tr\u00eas per\u00edodos: at\u00e9 2005, em que havia uma pobre governan\u00e7a ambiental e altas taxas de desmatamento; de 2005 a 2012, quando o combate ao desmatamento foi intensificado; e at\u00e9 2017, momento em que os pesquisadores avaliam que a governan\u00e7a ambiental &#8220;sofreu uma eros\u00e3o gradual, com uma ampla anistia concedida a desmatadores ilegais do passado por meio da revis\u00e3o do C\u00f3digo Florestal (de 2012)&#8221;, levando a uma revers\u00e3o da curva.<\/p>\n<p>&#8220;Desde a mudan\u00e7a do C\u00f3digo Florestal h\u00e1 uma sinaliza\u00e7\u00e3o por parte do governo pr\u00f3-desmatamento. \u00c9 um aspecto simb\u00f3lico, mas quem desmata hoje t\u00eam certeza que o governo est\u00e1 do lado deles&#8221;, afirma o pesquisador Raoni Raj\u00e3o, da Universidade Federal de Minas Gerais e um dos autores do trabalho.<\/p>\n<p>Ele cita como exemplo a medida provis\u00f3ria que facilitou a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, e foi apelidada de MP da grilagem, e os atrasos consecutivos no prazo de implementa\u00e7\u00e3o do Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento criado pelo novo C\u00f3digo Florestal por meio do qual os propriet\u00e1rios de terra no Pa\u00eds t\u00eam de dizer quanto suas terras t\u00eam de \u00e1reas preservadas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fator lembrado \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e do Ibama entre 2015 e 2016, que afetou o combate ao desmatamento. Parte da verba foi recomposta a partir do ano passado com recurso do Fundo Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>Impacto na economia<\/strong> &#8211; Com base na trajet\u00f3ria passada do desmatamento, os pesquisadores trabalharam com modelos para projetar tr\u00eas cen\u00e1rios futuros &#8211; um de desmatamento caindo, como ocorreu at\u00e9 2012 (otimista); um em que ele segue a tend\u00eancia de alta dos \u00faltimos anos (o chamado business as usual); e um de descontrole total, como era at\u00e9 2005<\/p>\n<p>Para os autores, no primeiro cen\u00e1rio fica tudo bem e o Brasil consegue ficar dentro do seu or\u00e7amento de carbono para ajudar o planeta a conter o aquecimento a 2\u00b0C at\u00e9 o final do s\u00e9culo. Mas a partir do segundo cen\u00e1rio, o quadro pode se complicar. &#8220;Isso poderia minar o sucesso que o Brasil teve em reduzir suas emiss\u00f5es por meio do controle do desmatamento observado na \u00faltima d\u00e9cada&#8221;, escrevem.<\/p>\n<p>&#8220;Quando falamos em um mundo com menos de 2\u00b0C de aquecimento, estamos falando numa quantidade m\u00e1xima de carbono que pode ser emitida pelo planeta inteiro &#8211; \u00e9 o que chamamos de \u2018or\u00e7amento\u2019. Pensamos quanto cabe ao Brasil nesse or\u00e7amento e calculamos quanto ele pode emitir at\u00e9 2050&#8221;, explica Schaeffer.<\/p>\n<p>&#8220;Se o desmatamento aumenta e avan\u00e7a em suas emiss\u00f5es, sobra menos para o resto da economia emitir. Ou seja, setores como o de energia e a ind\u00fastria v\u00e3o ter de reduzir muito mais suas emiss\u00f5es do que se prev\u00ea hoje, talvez at\u00e9 tenham de ajudar a capturar e absorver carbono, com tecnologias que ainda n\u00e3o est\u00e3o maduras e s\u00e3o muito mais caras&#8221;, complementa.<\/p>\n<p>Os pesquisadores estimaram o &#8220;esfor\u00e7o necess\u00e1rio em outros setores da economia para compensar o enfraquecimento da governan\u00e7a ambiental&#8221; e ainda possibilitar que o Pa\u00eds consiga cumprir sua meta diante de uma eventual alta nas emiss\u00f5es provenientes de desmatamento.<\/p>\n<p>Pelos modelos, se o desmatamento continuar subindo no ritmo que ocorreu nos \u00faltimos cinco anos, os custos para o Pa\u00eds alcan\u00e7ar a sua meta junto ao Acordo de Paris podem ser de US$ 2 trilh\u00f5es at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>No pior cen\u00e1rio, o custo pode chegar a US$ 5 trilh\u00f5es e n\u00e3o \u00e9 garantido que o Brasil consiga atingir suas metas. Em resumo, o custo total de um enfraquecimento da governan\u00e7a ambiental pode ser entre 2 a 3,3 vezes maior. &#8220;Para contrabalan\u00e7ar uma pol\u00edtica brasileira do s\u00e9culo 19, a economia teria de recorrer a uma tecnologia do s\u00e9culo 21 muito mais cara&#8221;, resume Schaeffer.<\/p>\n<p>&#8220;Na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica que o Brasil est\u00e1 vivendo, \u00e9 natural diminuir a preocupa\u00e7\u00e3o com quest\u00f5es de longo prazo. E a quest\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9 de longo prazo. A aten\u00e7\u00e3o da sociedade para desmatamento, emiss\u00f5es diminui mesmo&#8221;, comenta o cientista pol\u00edtico Eduardo Viola, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<p>&#8220;Hoje a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com corrup\u00e7\u00e3o, desemprego, seguran\u00e7a p\u00fablica, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 press\u00e3o da sociedade por pol\u00edticas de controle ao desmatamento. Desse modo, os desmatadores se veem num caminho mais f\u00e1cil para operar&#8221;, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o desmatamento da Amaz\u00f4nia e do Cerrado seguir na tend\u00eancia de alta observada nos \u00faltimos cinco anos, piorando a contribui\u00e7\u00e3o do Brasil ao aquecimento global, outros setores do Pa\u00eds ter\u00e3o de compensar essas emiss\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico. E o custo para a economia pode ser de pelo menos US$ 2 trilh\u00f5es. 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